Beber, cair, levantar

Beber, cair, levantar

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FEV/2017 – pág. 30

Pode parecer papo de bebum, mas a grande verdade é que para “entender” de vinho é preciso prática: quanto mais você bebe, mais você aprende…

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Apesar do titulo apropriado para época de carnaval, não estamos aqui recomendando o “beber, cair, levantar” dos exageros, mas sim o “beber, cair, levantar” dos muitos vinhos que passam pela nossa vida: alguns muito bons, que despertam nossos sentidos; alguns péssimos, que geram aquela dor de cabeça palpitante e a infame “ressaca de vinho” – reconhecidamente, o pior tipo de ressaca que existe.

Porém o fato não muda: quando o assunto é vinho, tudo começa pelo “beber”. Muita gente fala que gostaria de saber mais sobre vinho, ou queria aprender a “gostar de vinho”. Bom, o primeiro passo é tomar vinho. Assim como qualquer habilidade, não existe forma mais eficiente de aprender – quanto mais você tomar, mais você se aprimorará.

Claro, existe uma base teórica importantíssima, e principalmente tudo que diz respeito ao processo de produção do vinho irá afetar sua qualidade, e consequentemente, seu sabor e a experiência enológica como um todo. Só que começar pela parte teórica pode ser muito chato, e requer muito tempo e dedicação. Além disso, o mundo do vinho é um mundo mutante: num passado não muito distante, seria difícil pensar que um vinho de boa qualidade seria servido como chopp, mas no contexto atual cuja preocupação com o meio ambiente permeia vários temas, vinhos on tap são uma realidade. Da mesma forma, os solos e os climas estão mudando: hoje em dia, encontramos ótimos vinhos vindo de zonas tropicais, algo inimaginável alguns anos atrás… Se manter a par de todas essas transformações é tarefa difícil e, começar qualquer coisa pela parte mais difícil normalmente nos tira a motivação…

Então, assim como primeiro aprendemos a falar, e depois a ler e escrever, aprenda primeiro a beber: você já tomou um vinho que gostou muito? Se sim, pense em todos os fatores que tornaram a experiência agradável: o vinho era tinto ou branco? Era dia ou noite? O vinho deixou sua boca seca ou estimulou a salivação? Foi em casa ou num restaurante? Quem estava com você? Se você nunca tomou um vinho que gostou, e acredite isso é normal, pense em outras comidas e bebidas que você goste: são doces ou salgadas? São melhores apreciadas em casa ou em restaurantes? Como são seus cheiros e texturas?

tabela

Uma coisa que sempre aconselhamos: ANOTE tudo. Anote num caderninho, num guardanapo, num diário – a Moleskine tem um Wine Journal super fácil de usar – todos os detalhes do vinho: vinícola, nome do vinho, uva, ano – ou seja, as informações do rótulo,- e faça breves anotações sobre o que gostou e o que não gostou (o que NÃO gostou é tão importante quando o que gostou). Esse processo revelará quantas “quedas” você tem tomado: trace um parâmetro com os elementos em comum dos vinhos que você não curtiu – do tipo de uva ao preço da garrafa, do local da compra à região de origem, etc – e todos esses fatores, uma vez analisados, lhe dará dicas preciosas sobre o seu paladar e evitará “quedas” futuras. Um exemplo simples: se você sempre tem dor de cabeça após tomar um vinho, busque se informar mais sobre a origem do produtor e das uvas. Muitas pessoas são sensíveis a químicos fortes, como agrotóxicos, comumente presentes em frutas, verduras e legumes. Se na sua dieta normal você tenta consumir mais produtos orgânicos, o mesmo deve ser verdade com relação aos seus vinhos: experimente vinhos orgânicos e vinhos biodinâmicos, geralmente vindos de produtores menores, e com processos menos industrializados. Da mesma forma, fique atento a vinhos produzidos em massa: por exemplo, vinhos muito populares, encontrados em todos os tipos de loja (do posto de gasolina a lojas especializadas em bebidas alcoólicas), com preços muito baixos. Claro que você consegue achar vinhos populares e baratos decentes, mas quando se trata de quantidade de produto, quanto maior a produção, mais questionável fica… Use as dicas da tabela “EVITANDO QUEDAS” para desfrutar ainda mais o momento do “beber”. Notando esses pequenos detalhes, os “tombos” serão cada vez menos frequentes, uma vez que você estará construindo uma visão clara do seu palato e das suas preferências pessoais.

CHEERS!


Daniela e Conrado Ventura são SommeliersDaniela e Conrado Ventura
Sommeliers certificados pela United States Sommelier Association.
E-mail: venturauncorked@gmail.com
Site: www.uncorkedimage.blogspot.com