Music Nerver Stops

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AGO/2015 – pág. 72 e 73

Você sabia que aquele prato de bateria, utilizado pelo baterista junto aos tambores e tão comum nos shows de música, tem uma história bastante interessante?

Prato liga B20, martelado
Prato liga B20, martelado

Não é possível precisar a data de criação do primeiro prato, mas a vontade de tirar som de uma liga de metal esticada já é bem antiga. Para se ter uma ideia, uma passagem bíblica datada de 1050 d.C. já citava o címbalo – um instrumento de percussão composto por dois pratos – na seguinte passagem: “(…) e toda a casa de Israel, tocavam perante o Senhor, com toda sorte de instrumentos de pau de faia, como também com harpas, saltérios, tamboris, pandeiros e címbalos (…)”.

Martelamento manual na fábrida da Zildjian
Martelamento manual na fábrida da Zildjian

Já no livro “The History of The Legendary Cymbal Makers”, de Jon Cohan, a história dos pratos é contada em detalhes e começa em Constantinopla. Segundo o livro de Jon, Avedis, nascido em fevereiro de 1596 e que era filho de um alquimista, trabalhava junto com o pai, e a pedido do Sultão, buscava pela descoberta de ouro. Na procura por descobrir ouro misturando metais, Avedis descobriu uma liga de metal que emitia excelente sonoridade, e então, a partir de março de 1623, Avedis foi autorizado a fabricar sinos e pratos para o Sultão Mustafa I, utilizando a liga descoberta.

Avedis Zldjian em frente a fábrica
Avedis Zldjian em frente a fábrica

A partir da fabricação de sinos e pratos, Avedis recebeu do Sultão o sobrenome de Zilciyan ou Zildjian, que em Armênio significa “filho do fabricante de pratos”. Começava aí a história da maior fábrica de pratos do mundo, ou seja, a Zildjian.

As Marcas de Pratos

A maior fatia do mercado mundial de pratos é dividida entre três marcas: Zildjian, Sabian e Paiste.

A Zildjian, sediada em Boston, é o maior fabricante de pratos do mundo. Segundo dados de vendas, ela comercializa um volume superior a todas as demais marcas juntas. Todas as três marcas fabricam pratos por meio do método turco, e diferentes ligas de metal são utilizadas nesse processo. As mais comuns são a liga B20 (20% de estanho, 80% de cobre e um pouco de prata – bronze ‘cast’, conhecido por bronze fundido) e a liga B8 (8% de estanho e 92% de cobre – bronze ‘sheet’, conhecido por bronze de chapa). No entanto, segundo informações da Zildjian, a verdadeira fórmula para a criação da liga é segredo absoluto.

Cobre e estanho sendo preparado para criar a liga B20
Cobre e estanho sendo preparado para criar a liga B20

Os pratos mais procurados por bateristas profissionais são os fabricados com a liga B20, que comumente é considerada a liga superior. No entanto, o processo de fabricação também conta muito na qualidade do instrumento. Segundo o livro “The Cymbal Book”, não é somente uma boa liga que garante um bom prato.

Fusão dos metais em altíssimas temperaturas
Fusão dos metais em altíssimas temperaturas

A liga de metal utilizada no prato, bem como os detalhes de acabamento, espessura, curvatura, diâmetro, altura de cúpula e o tipo de martelamento influenciam diretamente na qualidade e preço do prato.

A cúpula do prato
A cúpula do prato

O tamanho de um prato não influencia somente no preço, mas também na sonoridade. Volume, tempo de resposta e ressonância variam de acordo com a especificação das medidas da peça. O peso determina não só o som, mas também na afinação e o no tempo de ressonância.
Se o prato for fino (thin), ele será mais agudo e explosivo e terá menos som de baqueta. Para os pratos mais pesados, menor será a ressonância. Já o tamanho da cúpula (ou seja, a parte central do prato em alto relevo) assim como o perfil de um prato influem nos harmônicos. Outro detalhe que influi na sonoridade é o diâmetro da cúpula. Quanto mais curvo for o instrumento, maior a quantidade de harmônicos. Já pratos sem o acabamento brilhante oferecem um som mais aveludado e menos agressivo.

O Mercado

Para atender as exigências de mercado, as grandes empresas desenvolveram diferentes séries, das mais variadas qualidades e características. A necessidade de produção industrial contribuiu para a redução de preços dos pratos. Porém, ainda há modelos martelados artesanalmente, o que confere ao prato uma maior qualidade e sonoridade superior.

Na Turquia, por exemplo, dezenas de pequenas fábricas se multiplicam, todas elas oferecendo o martelamento artesanal, baseado no processo original de fabricação de pratos. Com o aumento do preço de metais em todo o mundo, novas ligas de metais vêm sendo testadas, na esperança da descoberta por uma nova liga, com melhor preço e boa sonoridade.

Modelos e Medidas

Bateria normalmente com muitos pratos
Bateria normalmente com muitos pratos

Os pratos modernos, adaptados para a bateria – segundo o livro “The Cymbal Book”, de Hugo Pinksterboer – só começaram a aparecer como instrumento musical no início do século passado. A partir daí, foram se aprimorando conforme as exigências dos bateristas de jazz da época.
Existem cinco tipos de pratos: o ride (prato para condução), o hi-hat (ou chimbal, usado em pares), o crash (prato para ataque), o china (prato para efeito) e o splash (prato para ataque, com som rápido). Cada um tem uma sonoridade específica e diferente aplicação. O ride geralmente é o de maior dimensão e fica posicionado, quando o baterista é destro, do lado direito. Sua função é conduzir a música em situações de maior intensidade (mais volume de som). O chimbal fica à esquerda do baterista e é o mais usado. Ele é composto por um par de pratos que pode ser tocado tanto com o pé (por meio do pedal) quanto com a baqueta. Ele determina a rítmica dando a pulsação do compasso. O crash é usado para acentos e é comum ser utilizado para criar marcações na música. O menor dos pratos é conhecido como splash. Seu som é curto e agudo, e é usado para acentos e marcações muito rápidas. O china é geralmente o prato menos utilizado, uma vez que é aplicado ocasionalmente para oferecer efeitos. Tem um som bem estridente, com muito volume.

Há ainda alguns termos que identificam as características sonoras básicas de cada modelo. Dark caracteriza um prato com sonoridade mais fechada e rica em harmônicos, enquanto bright é para sonoridades abertas e brilhantes. Dry é o nome dado a pratos com pouca ressonância e muito som de baqueta. Fast é usado para um prato que responde rapidamente ao toque e que oferece pouca ressonância.

De 1623 para cá, muitas foram as inovações de modelos, medidas e sonoridades. Afinal de contas, novos estilos musicais surgem e novos modelos de pratos são desenvolvidos para atender as inovações musicais. Assim mesmo, com tanta modernidade empregada em inovações musicais, uma coisa é certa: o mistério da fórmula secreta do bronze perdura por séculos, até os dias de hoje.


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Músico, produtor musical e bacharel em Publicidade e Propaganda, membro do Latin Grammy. Autor do Manual Prático de Produção Musical.