Contemporânea. A história do samba começa aqui

Contemporânea. A história do samba começa aqui

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NOV/2016 – pág. 50 e 51

Roberto Guariglia, CEO da Contemporânea, entre os bambas Paulinho da Aba e Beloba
Roberto Guariglia, CEO da Contemporânea, entre os bambas Paulinho da Aba e Beloba

 

A história da Contemporânea começa em São Paulo, nas mãos do ex-balconista de loja Miguel Fasanelli. Em 1946, disposto a novos desafios, Miguel aceitou a proposta de sociedade em uma oficina de instrumentos de sopro.

Anos depois, mais precisamente em 1950, o samba começou a ganhar força, com o surgimento de blocos carnavalescos. Com o trabalho na oficina, já muito conceituada entre os músicos, Miguel conheceu os diretores e os presidentes dos blocos carnavalescos, que passaram a frequentar e contratar os serviços da oficina. Enquanto os negócios na oficina andavam por si só, Miguel viu a possibilidade de também criar uma loja, e assim passar a comercializar instrumentos musicais.

Se o número de blocos carnavalescos crescia rapidamente, também crescia a necessidade de instrumentos musicais específicos para o gênero musical, e assim começava a história da Contemporânea, o maior fabricante brasileiro de instrumentos de percussão. A partir de instrumentos de fanfarra, Miguel passou a adaptá-los para que também atendessem a necessidade dos sambistas, e nesse momento foi indispensável a colaboração de músicos amigos como Gilberto Braga, Carlão e Betão.

Bombos de fanfarra foram transformados em surdos, e surdinhos, em repiniques. Enquanto instrumentos eram transformados, novas casas de show surgiram na cidade, e São Paulo passou a ser a nova residência de músicos sambistas, até então residentes no Rio de Janeiro. Reunindo instrumentos e os ‘bambas’ do samba, a Contemporânea passou a ser conhecida como a ‘loja do samba’ ou ainda ‘o ponto de encontro dos músicos’, local muito comum para encontrar músicos como Clara Nunes, Jorge Ben e Banda do Zé Pretinho, Beth Carvalho, Martinho da Vila e Nelson Cavaquinho dentre muitos.

Contemporânea,-a-marca-de-instrumentos-de-percussão-que-conquistou-o-mundo

A parceria entre a empresa e artistas, e os muitos encontros de roda de samba e pagode no ambiente da loja, foram os principais responsáveis pelo desenvolvimento de instrumentos consagrados, como o tantam, o rebolo e o repique de mão. Com o passar dos anos, a pequena oficina de instrumentos de sopro perdeu espaço para a fábrica e a loja de instrumentos de percussão. Hoje fábrica e loja estão em endereços separados, enquanto a Contemporânea cresce conquistando a Europa e América do Norte.

Contando sobre a empresa, produtos e o mercado de instrumentos, confira a seguir entrevista exclusiva com Roberto Guariglia, CEO da Contemporânea Musical.

Nossa Gente – Você, além de empresário, também é músico?
Roberto Guariglia – Não sou músico profissional, mas desde os meus cinco anos de idade vou à loja da Contemporânea e convivo com a música. Tem que saber tocar para vender um instrumento, e o básico de cada instrumento que fabricamos eu consigo demonstrar. Tenho preferência por pandeiro, repinique e congas. Minha formação universitária é em Direito, com pós-graduação em Direito Empresarial.

NG – O que o levou ao mercado musical?
RG – Meu tio, Miguel, passava em casa todos os sábados de manhã para me levar para trabalhar na loja. Naquela época eu não alcançava nem o balcão (risos), mas já respirava música. Assim, a música entrou na minha vida. Quanto mais crescia, mais aumentavam minhas responsabilidades e o compromisso com a empresa, até chegar o momento de assumir o comando.

Empresa

NG – Em que momento você passou a trabalhar efetivamente na empresa?
RG – Comecei a administrar a empresa com 18 anos de idade. Na aérea que a empresa ocupava na Rua General Osório, centro de São Paulo, a loja ficava na frente e a fábrica nos fundos. Com o passar do tempo a empresa foi aumentado, e precisamos tirar a fábrica dali, passando a ser somente a nossa loja.

NG – Quantos funcionários trabalham na empresa?
RG – No início da década de 90, o significado de grande para nós era termos 19 funcionários e ocuparmos uma área de produção com aproximadamente 800 m2. Atualmente, a empresa tem cerca de 60 colaboradores diretos e aproximadamente outros 30 indiretos, num prédio de 2900 m2 na cidade de São Paulo.

NG – As escolas de samba são os principais clientes?
RG – Hoje não mais, porém quando o samba começou a ganhar visibilidade pelo mundo, ainda na década de 80, com Sargentelli fazendo tours pelo mundo com sua banda e as famosas mulatas, a venda de instrumentos de percussão brasileira estava diretamente ligada às escolas de samba. Após esse período, já nos anos 90, outros ritmos ganharam destaque, como Samba Reggae, Axé, Timbalada, Maracatu, e por último, o fenômeno da Capoeira. Isto fez com que se abrissem novos mercados, com outros instrumentos que não eram necessariamente os usados por uma escola de samba.

Fábrica-da-Contemporânea,-em-São-Paulo

Produtos

NG – Além dos instrumentos voltados especificamente para o samba, a Contemporânea também é responsável pela fabricação do tambor de alfaia, a darabuka e o bongo, que não são usados no samba. Quanto representa em faturamento a venda desses outros instrumentos?
RG – Nos dias de hoje a venda de instrumentos relacionados aos novos ritmos brasileiros, e também mundiais, representam 80% do faturamento da nossa empresa. Os produtos destinados às escolas de samba são vendidos próximo das datas dos desfiles.

NG – Quais as linhas de produtos fabricados atualmente?
RG – A Contemporânea fabrica quatro linhas de produtos. A principal é a linha Contemporânea Profissional, seguida da linha Contemporânea Light (para iniciantes, crianças e amadores), além da linha de Acessórios (peles para instrumentos, baquetas, correias e afins) e da linha Sinfônica (instrumentos de percussão para orquestras).

NG – Quais produtos são os de maior giro?
RG – Os produtos de maior giro ainda são os usados nas rodas de samba e por grupos de pagode, como pandeiros, rebolos e tamborins. Há também os usados pelas bandas de Axé Music, como timbau, bacurinhas e surdos baianos.

NG – Como funciona o processo de desenvolvimento de novos produtos?
RG – Contamos com a experiência e dedicação de funcionários que estão conosco há mais de 20 anos, bem como de músicos pelo mundo, que são nossos parceiros e nos trazem suas necessidades e tendências musicais.

NG – Anualmente são lançados novos produtos?
RG – Todos os anos desenvolvemos novos produtos. Geralmente são produzidos no mês de agosto, antes da Expomusic, que é a maior feira do mercado de instrumentos musicais no Brasil.

Mercado Interno

NG – Qual a participação de mercado da Contemporânea no mercado nacional?
RG – Acredito que a Contemporânea hoje está entre as maiores empresas de instrumentos musicais do Brasil, e quando se trata de percussão, é a maior. Atuamos em várias frentes e não visamos somente a venda de instrumentos musicais. Nós temos também aqui na empresa a missão de levar a música para todos, e fazer com que nossos instrumentos transformem pessoas. Apoiamos, dentro das nossas possibilidades, projetos sociais, métodos, vídeos, viagens e workshops que tem por objetivo apresentar ou ampliar os horizontes da música brasileira.

NG – Muitas empresas estrangeiras passaram a fabricar instrumentos de samba e inclusive a exportarem para o Brasil. Esses produtos concorrem de alguma maneira com os produtos da Contemporânea?
RG – Eu sempre brinco aqui com o pessoal. Digo que ‘a gente plantou a semente e regamos a planta, que se transformou numa bela árvore e que agora dá frutos, porém, temos concorrentes e precisamos sempre ser os melhores, pois assim poderemos sempre colher mais frutos’. É dessa forma que encaramos a concorrência, seja ela vinda do Japão, da Alemanha ou dos Estados Unidos.

Mercado Externo

NG – Qual o percentual de produtos comercializados no exterior e quais países fazem importações?
RG – O percentual é sazonal, variável a cada ano, dependendo da estabilidade econômica de cada país ou continente. Nossas exportações significam 30% do nosso faturamento anual em média. Entre os países que compram nossos produtos estão Alemanha, França, Espanha, Japão, Estados Unidos, Argentina e Portugal entre outros.

NG – As importações nesses países são feitas por distribuidores ou por consumidores?
RG – Nossa política comercial é feita com base na venda para os distribuidores sediados em cada um dos mercados que exportamos.

NG – A empresa tem planos para conquistar maior participação em algum mercado em especial?
RG – Temos ações comerciais e de marketing iguais para todos os países, sem destaque no momento para algo específico.

NG – E os workshops nos Estados Unidos?
RG – Sobre workshops estamos neste momento apoiando alguns eventos. O primeiro é a apresentação que o duo carioca chamado Pandeiro Repique Duo fará durante o encontro nacional de percussão, PASIC 2016, na cidade de Indianápolis. Também estamos apoiando os workshops que fazem parte da tour do percussionista Vinicius Barros e do baterista Rogério Boccato, que estão sendo realizados na região de Nova Iorque. Há cerca de 15 dias a empresa também levou para Pompano Beach o Mestre Caju, um dos mais importantes diretores de bateria da atualidade aqui no Brasil, e que faz parte da Escola de Samba Mancha Verde de São Paulo. Além de uma série de workshops realizados para músicos, tanto profissionais como amadores, o Mestre Caju também dirigiu a Bateria da Sambala Escola de Samba, de Boca Raton, durante apresentação no evento BrasilFest de Pompano Beach.

NG – Expor na NAMM Show é uma iniciativa isolada ou parte de um projeto voltado ao mercado norte-americano?
RG – Estar na NAMM SHOW é abrir a porta para o mundo. Avaliamos que lá, além de nos encontrarmos com compradores de empresas das Américas do Sul, Central e do Norte, há grande possibilidade de fazermos contatos com empresas europeias e asiáticas também, além de atendermos ao mercado norte-americano.

NG – Na sua opinião, quais são as maiores dificuldades para conquistar novos mercados?
RG – Sempre foram muitas. Produzir no Brasil é um grande e dispendioso desafio. Faltam profissionais que desenvolvam nossa indústria. O país é carente de engenharia de produtos e de produção. Faltam técnicos em ferramentaria, design de produtos, além das altas taxas de impostos, custos altos com mão de obra e obrigações trabalhistas. Problemas como as greves de agentes públicos, que são essenciais para o desenvolvimento do comércio exterior – como agora, que estamos há quase um mês enfrentando a suspensão na liberação de embarques, devido à greve da Receita Federal. Diante de tudo isso, como produzir barato e com a mesma rapidez do comércio mundial? Apesar de tudo devo destacar o apoio dado pela APEX Brasil, uma agência de investimentos do governo brasileiro, que tem proporcionado através de associações, a entrada de muitas empresas no cenário de comércio exterior.

Serviço: www.contemporaneamusical.com.br


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Músico, produtor musical e bacharel em Publicidade e Propaganda, membro do Latin Grammy. Autor do Manual Prático de Produção Musical.