Nos problemas da posse

Nos problemas da posse

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JUL/2016 – pág. 34

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“Porque nada trouxemos para este mundo e manifesto é que nada podemos levar dele.” Paulo (Timóteo, 6:7)

Uma das lições mais difíceis de serem assimiladas pelo Espírito, no processo evolutivo, é a relacionado ao desapego. Compreender que a vida é um processo dinâmico, que tudo muda constantemente, e que apegar-se a objetos, pessoas ou situações é uma das causas do sofrimento, é verdade de difícil aceitação. Talvez pela nossa insegurança, tendemos a nos agarrar a tudo que, nos ofereça alguma estabilidade, alguma segurança. Consequentemente, generosidade, altruísmo, desprendimento, capacidade para dar (do que temos e do que somos) são virtudes de difícil aquisição. Ainda não sabemos usar os bens transitórios (dinheiro, autoridade, prestígio social e o próprio corpo físico) para servir aos interesses do Espírito imortal. A nossa cultura é mais no sentido de reforçar o egoísmo natural, do que o incentivo à generosidade, ao desprendimento. Se a criança mostra tendências de solidariedade, distribuindo o lanche aos colegas, é alertada de aquele é seu, para seu uso pessoal. Se o menor permite a amiguinhos usarem seus brinquedos, é instruído a não permitir isso. O brinquedo é dele e só pode permitir que outros o usem, ou pode dá-lo “depois que quebrar”. Daí a sociedade de competição, do “cada um pra si” em que vivemos.

Emmanuel, no cap. 119, do livro “Palavras de Vida Eterna”, nos recomenda a “não encarcerarmos o próprio Espírito no apego aos patrimônios transitórios do plano material que, muitas vezes, não passam de sombra coagulada em torno do coração”. O instrutor espiritual alerta-nos que nos apegamos não só a bens materiais, mas também a pessoas, a cargos, a situações. E como tudo isso é transitório, nosso apego, além de prejudicar o semelhante, nos faz infelizes porque tudo isso foge ao nosso controle. E conclui, recomendando: “Usa as possibilidades da vida, sem a presunção de te assenhoreares daquilo que Deus te empresta. Nessa ou naquela vantagem efêmera, que te felicite o caminho entre os homens, recorda com o apóstolo Paulo, que os Espíritos reencarnados não trazem consigo quaisquer propriedades materiais para este mundo e manifesto é que nenhuma delas poderão levar dele”. Faz lembrar a parábola do homem rico, contada por Jesus. As terras daquele homem haviam produzido muito, e ele não sabia o que fazer com toda aquela produção. Refletiu e chegou à seguinte conclusão: Construiria novos e maiores armazéns e guardaria tudo. E então poderia viver tranquilo porque possuía muitos bens, suficientes para toda vida, sem precisar mais trabalhar, de se preocupar com qualquer coisa. Mas Jesus nos alerta que aquele era um homem insensato, pois naquela noite o Pai celestial poderia pedir sua alma. E todos aqueles bens nada lhe adiantariam. E conclui Jesus: “Assim é o que entesoura para si e não é rico para Deus”.

Erich Fromm, no livro “A Arte de Amar” faz importantes considerações sobre o ato de dar, para o desenvolvimento do ser. Diz ele: “Geralmente se pensa que dar é “abandonar” alguma coisa, ser privado do algo, sacrificar. A pessoa cujo caráter não se desenvolveu além da etapa da orientação receptiva, experimenta o ato de dar dessa maneira. O caráter mercantil deseja dar, mas só em troca de receber. Dar sem receber, para ele, é ser defraudado. Alguns fazem do ato de dar uma virtude, no sentido de um sacrifício. Sentem que, por ser doloroso dar, deve-se dar; a virtude de dar, para eles, reside no próprio ato de aceitação do sacrifício. Entretanto, o ato de dar tem um sentido inteiramente diverso. Dar é a mais alta expressão da potência.

Dar significa ser rico. Não é rico quem muito tem, mas quem muito dá. O avaro que ansiosamente receia perder alguma coisa é, psicologicamente falando, o homem pobre, não importa quanto possua. Quem é capaz de dar-se é rico. Põe-se à prova como quem pode conceder de si aos outros. Dar significa receber. O mestre é ensinado por seus alunos, o ator é estimulado por sua audiência. Dar é, em si mesmo, requintada alegria, portanto não se deve dar para receber. Mas, ao dar, não pode deixar de levar alguma coisa à vida da outra pessoa, e isso que é levado à vida reflete-se de volta no doador; ao dar verdadeiramente, não pode deixar de receber o que lhe é dado de retorno. Dar implica fazer da outra pessoa também um doador e ambos compartilham da alegria de haver trazido algo à vida. No ato de dar, algo nasce, e ambos envolvidos são gratos pela vida que para ambos nasceu”.


José Argemiro da Silveira
Autor do livro: Luzes do
Evangelho, Edições USE