Fraude da Telexfree lesa “investidores” do dinheiro fácil

Fraude da Telexfree lesa “investidores” do dinheiro fácil

A Justiça dos Estados Unidos decretou a prisão dos responsáveis pela TelexFree, oficialmente classificada como um esquema fraudulento de pirâmide que envolveu bilhões de dólares. A promessa de dinheiro fácil lesa principalmente imigrantes do Brasil e da República Dominicana, atraídos ao esquema por outros membros da comunidade

Da Redação

telexfreeAcusada de fraude, atingindo principalmente imigrantes brasileiros e dominicanos, a Justiça dos Estados Unidos determinou o congelamento dos bens e a prisão dos proprietários do grupo Telexfree, que segundo as autoridades norte-americanas, promovem um esquema corrosivo de pirâmide financeira, movimentando bilhões de dólares. O pedido foi feito pela Securities and Exchange Commission (SEC), órgão equivalente à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) brasileira, e determinado pelo Tribunal Distrital de Boston. E mesmo com a intervenção das autoridades do país, continua a promessa velada do dinheiro fácil, lesando pessoas que acreditam em lucros rentáveis e investem compulsivamente, relegando o trabalho honesto.

Mas a caça às bruxas prossegue e James Merrill, da TelexFree, residente em Ashland (MA), foi preso recentemente na cidade de Worcester (MA), enquanto o seu sócio brasileiro, Carlos N. Wanzeler, residente em Northborough (MA), permanece foragido (No último dia 14 de maio sua esposa, Kátia Wanzeler, foi detida no aeroporto)). Acusada de operar um esquema de pirâmide global que lesou investidores em até US$ 1 bilhão, a TelexFree Inc., sediada em Marlborough (MA), vinha sendo rastreada por agentes federais. A polícia suspeita que Carlos tenha fugido para o Brasil, onde as leis dificultam o traslado de cidadãos brasileiros, mesmo aqueles procurados por crimes no exterior. Oficialmente classificada como um esquema fraudulento, a empresa está proibida no Brasil.

James Merrill - Foto: Reprodução
James Merrill – Foto: Reprodução

Inúmeras vítimas da TelexFree são imigrantes do Brasil ou da República Dominicana, atraídos ao esquema por outros membros da comunidade que se gabavam dos lucros enormes, obtidos por simplesmente promoverem um serviço telefônico via internet. Carlos e James foram acusados de conspirarem para cometer fraude no envio de dinheiro, segundo a ação judicial apresentada junto à Corte Distrital de Worcester. A ação judicial representa uma significativa escalada nas investigações sobre a companhia TelexFree. Para a promotora pública federal, Carmen Ortiz, “esses réus montaram um esquema que tirou milhões de dólares de pessoas trabalhadoras em várias partes do mundo. A amplitude desse suposto esquema de fraude é impressionante ”, disse.

A Comissão de Câmbio & Segurança (SEC) e o secretário de estado, William F. Galvin, estão investigando a TelexFree Inc. O órgão congelou os bens da companhia em 16 de abril e apresentou uma ação judicial, dois dias depois que a empresa apresentou o pedido de concordata em Las Vegas, Nevada, a mais de 2.700 milhas de distância de sua sede em Massachusetts. A companhia alegava oferecer serviços telefônicos via internet, mas as autoridades dizem que na realidade tratava-se de um esquema de pirâmide financeira que recrutava milhares de “promotores” para postar anúncios sobre seus produtos online. Esses promotores tinham que comprar pacotes da empresa que variavam entre US$ 300 a aproximadamente US$ 1.400 para receberem semanalmente os lucros, segundo a ação judicial. E o dinheiro recebido pelos promotores não vinham das vendas geradas pelos anúncios, mas sim das novas pessoas atraídas ao esquema, detalharam as autoridades.

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Indícios do golpe

Embora este esquema tenda sempre a se sofisticar, há características comuns que podem ajudar a identificá-los. Os golpes financeiros do tipo pirâmide são antigos, mas eles continuam surgindo no mercado e, com a internet, passaram a ganhar maior alcance e velocidade de propagação. É importante entender as diferenças entre marketing multimível e pirâmide financeira. No caso da pirâmide, o esquema também conhecido como Ponzi, depende basicamente do recrutamento progressivo de outras pessoas para o sistema, sem levar em consideração a real geração de vendas de produtos ou serviços. Os ganhos, portanto, não vêm dessas vendas, mas das taxas pagas por quem entra no sistema, com os novos associados remunerando os antigos. Costuma incentivar grandes investimentos em múltiplas compras dos pacotes oferecidos. Em dado momento, o negócio se torna insustentável, uma vez que é matematicamente impossível atrair novos participantes para a rede, e os que entraram por último acabam sendo lesados e perdendo os recursos aplicados. Isso é crime previsto em lei.

Outro fator preponderante da pirâmide financeira é que na maioria dos casos, a utilização do produto ou serviço é irrelevante. O que conta é recrutar novos participantes. Prometem mudança de vida e retorno de até 300% em poucos meses. O investidor deve sempre se perguntar se compraria o produto ou serviço por aquele preço se não fizesse parte do negócio e também se o que é oferecido continuaria sendo comercializado, e por preço similar, sem a rede.

O marketing multinível, também chamado de marketing de rede, trata-se de modelo de negócio legal, em que o integrante da rede pode ter ganhos tanto em razão da venda de produtos ou serviços como através de recrutamento de outros vendedores. Nesse caso, seu faturamento será proporcional à receita gerada pelas vendas dos integrantes de sua rede. As empresas não precisam fazer grandes investimentos em publicidade e repassam aos seus distribuidores bônus e comissões de venda.

E mesmo que os casos mais conhecidos de suspeita de pirâmide sejam os da Telexfree e da BBom, há registrado nos últimos meses um “boom” de empresas que têm entrado no mercado anunciando praticar o chamado marketing multinível, mas se valendo de modelos com indícios de pirâmide e não sustentáveis, o que tem preocupado as autoridades.

“Esquemas piramidais são algo lendário, sempre existiu alguém querendo levar vantagem. Mas tudo vai ficando mais sofisticado e a principal diferença agora é o alcance e a velocidade. Antes, era preciso reunir os potenciais interessados num espaço físico, na garagem, no clube, num hotel. Agora é tudo pela internet e ilimitado”, afirma a diretora-executiva da Associação Brasileira de Vendas Diretas (ABEVD), Roberta Kuruzu.

A entidade se diz preocupada com o crescimento do número de denúncias e afirma que os esquemas de pirâmide não podem ser confundidos com o marketing multinível, cuja atividade é legal e praticada há anos no país por diversas empresas de venda direta. A ABEVD possui atualmente 32 associadas.

Movimentação do mercado

A Telexfree e a BBom negam a prática de pirâmide financeira ou de qualquer ilegalidade, e defendem a regulamentação do marketing de rede no país. A Telexfree trabalha com a prestação de serviços de telefonia VoIP (por meio da internet). O modelo de trabalho da empresa considerado ilegal se baseia na venda de pacotes a “divulgadores”, que compram e revendem contas e “recrutam” novos revendedores. Para tornar-se um divulgador, o interessado precisa pagar uma taxa de adesão e comprar os pacotes de contas, que custam a partir de US$ 289. E caso seja confirmada a violação aos direitos e garantias previstos no Código de Defesa do Consumidor, a empresa poderá ser multada em mais de R$ 6 milhões.

A BBom, que em três meses reuniu mais de 200 mil associados, afirma que o seu principal produto é a venda de rastreamento de veículos e defende a sustentabilidade do negócio. “Também vendemos rastreador porta a porta. Nosso negócio não vem da entrada de pessoas, mas da prestação de serviço”, disse o diretor de marketing da empresa, Ednaldo Bispo.[/box]

Mulher de dono brasileiro da TelexFree é presa ao tentar embarcar no JFK

Carlos e Kátia Wanzeler são acusados de envolvimento em um esquema de pirâmide financeira que movimentava milhões de dólares (Foto: Facebook)
Carlos e Kátia Wanzeler são acusados de envolvimento em um esquema de pirâmide financeira que movimentava milhões de dólares (Foto: Facebook)

Kátia B. Wanzeler, de 49 anos, foi presa na noite de do dia 14 de maio, quando tentava pegar um voo de Nova York para São Paulo
Em abril, no mesmo dia em que agentes federais vasculharam a sede da TeleFree Inc. em Marlborough (MA), o sócio e fundador da empresa, Carlos Wanzeler, de 45 anos, pegou sua BMW em companhia da filha, Lyvia, e dirigiu rumo ao norte dos EUA. Os dois entraram no Canadá através da pequena cidade de Lacolle às 11 horas da noite. Dois dias depois, no estilo do slogan da empresa: “Voa TelexFree”, ambos pegaram o voo da Air Canadá de Toronto com destino a São Paulo, segundo o The Boston Globe.

Já a esposa de Carlos, Kátia Wanzeler, não teve tanta sorte. Na noite de quarta-feira (14), agentes federais a prenderam no aeroporto internacional JFK, em New York City, quando ela estava a poucos passos de embarcar em um voo também rumo ao Brasil, onde se encontraria com o marido e a filha.

O detalhes da saída de Carlos dos EUA fazem parte de um documento divulgado no dia 15 de maio, que revela as ações dos proprietários da TelexFree poucos dias antes de eles serem oficialmente acusados de administrarem um esquema bilionário de pirâmide financeira.

Kátia foi detida, pois é considerada uma das principais testemunhas, embora não tenha sido acusada de nenhum crime. O advogado da família Wanzeler, Paul V. Kelly, alegou que a prisão era “totalmente desnecessária”. Ele alegou não haver razões legais para impedir que ela viajasse ao Brasil. “Eu tenho a certeza de que poderíamos ter resolvido de outra forma”, disse Kelly.

Entretanto, documentos na Corte descrevem como Kátia supostamente enganou os investigadores sobre o paradeiro de seu marido e participou ativamente no movimento de imensas quantias de dinheiro nas contas bancárias da TelexFree. Quando os agentes do Departamento de Segurança Interna (DHS) foram à casa de Carlos em Northborough (MA), em 17 de abril, o brasileiro não foi encontrado. Kátia disse aos agentes que seu marido estava hospedado em um hotel “conforme instruções de um conselheiro”.

Na realidade, ele já tinha deixado os EUA, conforme documentos apresentados à Corte Federal na quinta-feira (15). O incidente ocorreu 2 dias depois que os agentes vasculharam a sede da TelexFree e confiscaram computadores e documentos. Os documentos da Corte revelam que Wanzeler e Merrill moveram milhões de dólares enquanto os investigadores vasculhavam a empresa e antes que ela apresentasse o pedido de concordata em 13 de abril.

Apesar do desaparecimento de Carlos parecer suspeito, o seu advogado alegou que ninguém o instruiu a deixar o país. Mas na sexta-feira (9), o seu parceiro, James Merrill, foi preso na Rota 9 em Worcester. Quatro dias depois, “alguém no Brasil” pagou em dinheiro a passagem de Kátia para São Paulo, segundo os promotores públicos.

Durante a audiência realizada na Corte Federal do Brooklyn na quinta-feira (15), Kátia Wanzeler, de 49 anos, teve a fiança negada e foi mantida em custódia das autoridades. O seu advogado alegou no tribunal que sua cliente não tinha razões para fugir e planejava retornar aos EUA no final de maio.

Enquanto isso, Merrill compareceu à Corte Federal de Worcester na sexta-feira (16), durante uma audiência sobre a sua detenção. Ele está preso em Rhode Island, segundo amigos. Caso seja considerado culpado de conspirar para efetuar remessas ilegais de dinheiro, ele pode pegar até 20 anos de cadeia, assim como Carlos Wanzeler, se as autoridades americanas o prenderem.

Conforme a constituição brasileira, o país não traslada seus cidadãos acusados de crimes cometidos nos Estados Unidos. Wanzeler possui dupla nacionalidade, brasileira e norte-americana, e entrou no Brasil utilizando o passaporte brasileiro, segundo as autoridades.

Desde a apresentação do pedido de concordata da TelexFree há 1 mês, investidores em várias partes do mundo imaginam se receberão seu dinheiro de volta. *Fonte: Brazilian Voice

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Como se proteger

Embora algumas empresas defendam a regulamentação da atividade de marketing multinível, para o governo e Ministério Público (MP), a legislação atual já permite separar as duas atividades e identificar as pirâmides. “Quando é golpe dá para perceber facilmente, pois só há aparência de venda de alguma coisa. O que importa mesmo é a circulação de dinheiro”, diz o presidente da associação de promotores.

O mais importante, entretanto, é sempre desconfiar de qualquer oferta de dinheiro fácil e sem risco. “Eu sempre digo que a primeira pergunta que devemos fazer é se compraríamos aquele produto ou serviço por aquele preço se não fizéssemos parte do negócio. Se você e nem as pessoas a sua volta se interessam pelo produto ou pelo serviço nesse preço, é um forte sinal que é apenas uma fachada para um sistema piramidal”, alerta Marcos Duda, especialista em marketing multinível e presidente da empresa Full Z. [/box] [box type=”note” icon=”none”]

Novas Denuncias

Outras empresas no mesmo estilo de marketing multinível foram descobertas, sendo que muitas deles têm como foco comunidades imigrantes falantes dos idiomas português e espanhol.

No dia 15 de maio, o escritório do secretário de Estado, William F. Galvin, apresentou uma ação judicial contra uma dessas firmas, a Wings Network, que supostamente atraiu mais de 8.900 residentes em Massachusetts a investirem US$ 12.5 milhões na empresa ao longo dos últimos 5 meses. Galvin detalhou que o seu Departamento de Segurança recebeu denúncias sobre outras atividades similares.

“Nós começamos a ver conexões entre esses vários promotores e eles estão geralmente vitimando os mesmos tipos de pessoas”, disse Galvin.[/box]