Estar atento, e se informar no combate à depressão

Estar atento, e se informar no combate à depressão

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) pelo menos 30% da população mundial sofrerá algum episódio de depressão ao longo da vida. O “Nossa Gente” traz dicas imprescindíveis no combate à doença do século

Edição de setembro/2019 – p. 12

Estar atento, e se informar no combate à depressão

É alarmante o índice de pessoas diagnosticadas com depressão nos últimos anos – apontada como doença do século. E o que surpreende médicos e especialistas que atuam no combate à enfermidade, é o contingente de jovens e adolescentes em tratamento intensivo. Em contrapartida, há pessoas que tentam lidar com o sintoma, sem acesso a consultórios, vivenciando o pesadelo dos sintomas que parecem intermináveis. E segundo estimativa da Organização Mundial de Saúde (OMS) pelo menos 30% da população mundial sofrerá algum episódio de depressão ao longo da vida. E embora esse tipo de doença seja habitualmente diagnosticada na vida adulta, estudos apontam que aproximadamente 50% dos adultos portadores de depressão relataram início dos sintomas antes dos 18 anos.

Afinal, o que difere tristeza de depressão? Segundo médicos, a depressão não está necessariamente alinhada aos acontecimentos. Tudo pode estar correndo muito bem na vida de uma pessoa deprimida, mas ela continuará apresentando os sinais da doença até que busque tratamento. Já a tristeza tem motivo, em geral, a pessoa tem consciência e sabe o que gerou o sentimento. Estes acontecimentos são os chamados gatilhos – desencadeiam sentimentos de tristeza e, em certos casos, depressão. O tratamento pode ser longo e exigir em alguns casos, o uso de medicamentos.

E quando pessoa próxima revela estar deprimida, muitas das vezes nossa reação pode ser de pensar nos momentos em que a vimos chorando ou desanimada. Se, esse não for o caso, questionar o que está ocorrendo de fato. No entanto, estar deprimido é mais do que estar triste e chorar o tempo todo. Às vezes, quem sofre de depressão mostra sintomas que, de acordo com o senso comum, não estão associados à condição, como perda de peso ou insônia. Conhecer os sintomas pode ajudar na escuta empática com a pessoa que está sofrendo e ajudar na sua recuperação.
Mas por qual motivo, na era das redes sociais – da comunicação imediatista entre pessoas – a depressão segue devastadora, causando danos irreparáveis? Por que as pessoas se sentem sozinhas? O tema foi um dos tópicos do Fórum Econômico Mundial de 2018, na Suíça. Hoje, mais de 300 milhões de pessoas são afetadas pela depressão, e quando dura muito tempo ou sua intensidade vai de moderada ou grave, pode se tornar um problema sério de saúde, afetando a produtividade do paciente no trabalho, na escola e na família.

Se um paciente perguntar ao médico porque está deprimido, a resposta não será simples. Mas em algum momento da explicação, certamente, o médico usará o termo “multifatorial”. “Existe a tendência genética, mas é só isso. Ansiedade e estresse também exercem um papel muito importante”, aponta o psiquiatra Geraldo Possendoro, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Os estímulos do cotidiano ao qual a pessoa está inserida podem favorecer uma eventual predisposição genética”.

Quando a pessoa adoece, segundo os médicos que lidam com a depressão de pacientes, ela não está simplesmente triste e precisando de algo para se distrair e ganhar ânimo. Depressão interfere na produção de noradrenalina e serotonina, neurotransmissores importantes para o bom funcionamento do cérebro. Outros neurotransmissores também podem ter seus níveis alterados e, com isso, a pessoa passa a ter dificuldade para desempenhar algumas atividades. Por exemplo, dificuldade para se concentrar o que dificulta tomar decisões.

Outra barreira para tratamentos efetivos é a avaliação imprecisa, quando pessoas com depressão não são diagnosticadas corretamente. Com isso, pacientes que não sofrem do transtorno também podem receber diagnósticos incorretos e tomar medicamentos sem necessidade. De acordo com a OMS, análises econômicas mostram que prevenir ou tratar a depressão logo no início têm ótimos custos benefícios para a sociedade. Por isso a depressão é uma questão de saúde pública com tantos impactos sociais e econômicos quanto doenças cardíacas, por exemplo.

E importante entender que a depressão se caracteriza pelos sintomas se manifestarem consistentemente por um período razoável de tempo, normalmente a partir de duas semanas. Um dia com insônia na semana, ou episódios de desânimo que vêm em dia e vão embora no dia seguinte, podem não fazer parte de um quadro depressivo. Também é importante saber enxergar o contexto; um período de tristeza e sintomas depressivos após um acontecimento importante, como uma separação, é normal. Mas se a pessoa demora a voltar ao normal, aí pode ser que o transtorno tenha se instalado.

Depressão na adolescência

O Dr. Drauzio Varella informa que, em pelo menos 20% dos pacientes com depressão instalada na infância ou adolescência, existe o risco de surgirem distúrbios bipolares, nos quais fases de depressão se alternam com outras de mania, caracterizadas por euforia, agitação psicomotora, diminuição da necessidade de sono, ideias de grandeza e comportamentos de risco.

“Antes da puberdade, o risco de apresentar depressão é o mesmo para meninos ou meninas. Mais tarde, ele se torna duas vezes maior no sexo feminino. A prevalência da enfermidade é alta: depressão está presente em 1% das crianças e em 5% dos adolescentes”, relata Dr. Drauzio.

“É muito difícil tratar depressão em adolescentes sem os pais estarem esclarecidos sobre a natureza da enfermidade, seus sintomas, causas, provável evolução e as opções medicamentosas. Uma classe de antidepressivos conhecida como a dos inibidores seletivos da recaptação da serotonina (fluoxetina, paroxetina, citalopran, etc.) é considerada como de primeira linha no tratamento em crianças e adolescentes. E os estudos mostram que 60% respondem bem a esse tipo de medicação, que apresenta menos efeitos colaterais e menor risco de complicações por “overdose” do que outras classes de antidepressivos”, orienta o médico.

Depressão na infância

A depressão não escolhe idade, mas é comum entre o final da adolescência e os vinte e poucos anos. Na população adulta, um a cada 15 indivíduos é deprimido. Considerando-se todas as faixas etárias, estima-se que 16% da população sofra com depressão em algum momento da vida.

Segundo o psiquiatra Luis Altenfelder, membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), a depressão normalmente é diagnosticada depois dos cinco anos de idade, e as causas são multifatoriais, como vulnerabilidade do sistema nervoso central, fatores genéticos e ambientais. “Não há uma causa única para ocasionar um quadro depressivo”, diz o médico.

“A apresentação dos sintomas da depressão depende da idade e do nível de maturidade da criança. É importante lembrar que o que é comportamento normal e o que caracteriza a doença dependem do contexto em que os sintomas aparecem, e quais foram os prejuízos causados por eles”, acrescenta o psiquiatra.

De modo geral, a criança vai se retraindo e muitas vezes os pais não percebem que algo errado está acontecendo. “As crianças menores têm maior dificuldade de entender a subjetividade dos sentimentos e frequentemente exteriorizam a tristeza por meio de sintomas físicos”, diz Altenfelder.

Como pode observar, leitor do “Nossa Gente”, adultos, adolescentes e mesmo os respectivos pais devem estar em alerta. O estado de atenção requer investigar o outro e a si mesmo, evitando surpresas inconvenientes no âmbito familiar. Combater a depressão é estar informado e conversar com especialistas sobre a doença se algo lhe parece pertinente. Na era da mecanização e da desumanização estamos vulneráveis, portanto, dar um passo à frente é um cuidado de todos.