Medicina ou samba? Ele optou pelo Carnaval do Rio

Medicina ou samba? Ele optou pelo Carnaval do Rio

O cavaquinista Gustavo Clarão é o maior ganhador de samba-enredo do Rio de Janeiro e fez história no Carnaval. Formado em Medicina, trocou o bisturi pelo samba. Em entrevista ao Nossa Gente fala dos filhos em Orlando e da amizade com Beth Carvalho

Edição de maio/2019 – p. 14

Medicina ou samba? Ele optou pelo Carnaval do Rio

Conhecido no mundo do samba como Gustavo Clarão, é o maior ganhador de samba-enredo do Rio de Janeiro, consagrado pela Estácio de Sá, Unidos do Viradouro – foi presidente da escola por dois mandatos –, Mangueira, Beija flor, Tijuca, Ilha do Governador e São Clemente, consolidando história de sucesso no Carnaval carioca. Carlos Gustavo Coutinho da Silva é médico – clínico geral –, formado pela Universidade Gama Filho, mas trocou o bisturi pela música, atuando ao lado de artistas consagrados, incluindo Alcione, Dudu Nobre, Arlindo Cruz, Dominguinhos da Estácio, Jorge Aragão, Luiz Carlos da Vila e da memorável Beth Carvalho – que faleceu recentemente. Toca cavaquinho desde os nove anos de idade, a exemplo do avô, e confessa a sua paixão contagiante pelo dom de compor, que leva milhares de pessoas a cantar suas composições na avenida, a exemplo de “Orpheu, o Negro do Carnaval” (…O amor está no ar), da Viradouro, em 1998, que incendiou a Marques de Sapucaí.

“Sempre fui vidrado no Carnaval, desde menino. Meu pai – Deo – tocava violão e me levava para os barracões das escolas do Rio, então participava de roda de samba e serestas. Eu decorava as letras dos sambas-enredos com muita facilidade. Aos oito anos, aprendi a tocar cavaquinho, seguindo o meu avô, que era cavaquinista, e realizava rodas de samba em sua casa”, lembra Clarão. “A minha família era do samba e quando resolvi deixar a Medicina pela música todos apoiaram a minha decisão. Eu tinha concluído a residência médica e deixei o hospital”.

Mas por que Clarão? Indagado sobre o inusitado apelido, Gustavo disse que foram os próprios sambistas que assim o chamavam – e pegou –, pelo tom branco da sua pele e pelo nome do seu grupo. “Eu era o branco no samba. E o pessoal me chamava de Clarão, e o apelido acabou ficando”, comenta. E no convívio com músicos e compositores, o dom de cantar e compor aflorou. E ainda muito jovem, o samba-enredo composto por Gustavo foi escolhido para defender a Escola de Samba da Estácio de Sá na avenida – a terceira maior escola do carnaval do Brasil. “A partir dai passei a integrar o time de compositores”, argumenta.

Em 1992, a Estácio de Sá sagrou-se campeã do Carnaval do Rio com o samba-enredo “Paulicéia Desvairada”, abrindo caminho para Gustavo no disputado e seleto time de compositores. “Não é fácil ganhar com samba-enredo numa escola. São bons compositores com o mesmo propósito, e o samba precisa agradar, ser uma promessa na avenida, contagiar. São quarenta a cinquenta sambas competindo, quer dizer, a sua composição precisa ter os elementos essenciais para contagiar os componentes da escola, as pessoas nas arquibancadas e o júri. Todo um processo importante e o samba tem que ser o melhor, evidente”, avalia.

Gustavo Clarão compôs samba-enredo para a Mangueira e ganhou todos os prêmios. Na Unidos do Viradouro também ganhou com vários sambas, mais tarde assumindo a presidência da escola por dois mandatos. “Foi muito bom o trabalho realizado na Viradouro, no convívio diário com os desafios para levar a escola para a avenida. Uma trajetória de seis. Cuidava de todos os elementos necessários. E o Carnaval dura o ano o todo porque já no mês de abril começam os preparativos para os desfiles do ano seguinte com a escolha do tema enredo. São reuniões no barracão, ensaios e muito trabalho para se conseguir um resultado satisfatório na reta final”, informa Gustavo.

O cantor, compositor e cavaquinista, querido e respeitado no Rio de Janeiro, formou o grupo “Clarão da Lua”, realizando shows com sucesso em Niterói, São Gonçalo e no sudeste do Brasil, mostrando que não é apenas compositor de samba-enredo. “Componho samba de forma geral. Sou compositor de meio de ano e faço música para vários artistas, incluindo ‘História de Nós Dois” (Arlindo Cruz/Gustavo Clarão/Ivo Meirelles), “Greve de Amor” (Gustavo Clarão/Xandi de Pilares/Gilson Bernine) “Volta” (Gustavo Clarão), “Embolae” (Gustavo Clarão/Claudemir/Tiee) entre outras músicas de sucesso. Depois das apresentações com o meu grupo, decidi seguir a carreira solo”.

Perguntado sobre a escolha de viver em Orlando com a família, Gustavo Clarão foi enfático: “Sempre, quando acabava o Carnaval, vinha com a família passear em Orlando. É muito bom estar aqui pelo clima e as opções que a cidade oferece. E quando deixei a presidência da Viradouro vim para cá com os meus três filhos – Gustavo, o Gusttavo, Manoela e Gabriela. Daqui posso compor e enviar os sambas para o Brasil. Inclusive, no ano passado, o samba-enredo que fiz para a escola São Clemente ganhou, e assisti daqui o desfile da escola no Rio de Janeiro. Foi emocionante”, relata o compositor.

Memorável Beth Carvalho

A morte recente da cantora e compositora Beth Carvalho, aos 72 anos, por infecção generalizada, conhecida como a Madrinha do Samba, foi lembrada por Gustavo Clarão durante a entrevista. “A Beth (Carvalho) é uma referência do samba, com sua voz marcante e presença carismática nos shows. Sou fã dela e tive o prazer de conhecê-la através da escola de samba porque temos contato com muitos compositores e cantores consagrados, e fiz uma participação no show dela no teatro Rival. E quando a conheci, foi maravilhoso. Ela se tornou uma grande amiga, inclusive, a sua sobrinha, a Lu Carvalho, gravou uma música minha. Era uma mulher guerreira, de fibra, que ajudou muitos compositores e revelou importantes sambistas. Quis fazer uma homenagem para a Beth na minha escola, mas todos sabem que ela era mangueirense”, lembra Clarão.

“No aniversário da Beth Carvalho, estive na casa dela e foi uma festa com samba e muitos amigos. A Beth assistiu aos nossos shows, e isso era motivo de muito orgulho para todos nós. Foi nesse período que fiz samba com o saudoso Almir Guineto, depois veio o notável Dudu Nobre, o Arlindo Cruz. Eu e o meu grupo – Clarão da Lua – tocamos com participações de grandes artista, acrescenta.

Quanto à possibilidade de clinicar nos EUA, Gustavo Clarão considerou a questão remota, disse que, “morando aqui não dá”. Mas ele adianta que continua realizando shows no país, mostrando o invejável repertório de sambas-enredos consagrados e sambas de raiz, que fazem parte da história não só do Rio de Janeiro, como do Brasil, além de músicas que compõe no dia a dia. “fico feliz aqui do outro lado do mundo, mostrando o meu trabalho para a comunidade brasileira, que é muito forte nos Estados Unidos”, conclui.