Livros. O que podemos aprender com os americanos?

Livros. O que podemos aprender com os americanos?

Edição de março/2020 – p. 22

Livros. O que podemos aprender com os americanos?

Virgilio Galvão
Jornalista e mora em Nova York desde 2015

Quando o assunto é livros, a conclusão é uma só: brasileiros leem pouco. Apenas 52% da população possui o hábito da leitura e, em média, lemos pouco menos de cinco livros por ano. Se levarmos em conta apenas livros lidos integralmente, o número não chega a três, segundo o relatório “Retratos da Leitura no Brasil”, de 2016, desenvolvido pelo Instituto Pró-Livro. E tem mais, entre 2006 e 2018, o mercado editorial do Brasil despencou 21%. O resultado você já deve ter percebido, as livrarias estão desaparecendo. A rede Laselva fechou as portas, assim como a Fnac. A Cultura e a Saraiva anunciaram fechamento de várias unidades e renegociação das dívidas. Isso para citar apenas as grandes redes; os pequenos estão em risco de extinção há tempos.

Essa calamidade brasileira é apenas o sinal mais visível de um desafio muito mais profundo e antigo: a formação de um leitor. É aí que temos muito o que aprender com os americanos que leem, em média, 12 livros por ano.

Antes de falar mais sobre livrarias, precisamos falar de bibliotecas. Sabe por que? Porque não é na livraria que se forma um leitor, é na biblioteca. Isso é um problema para os brasileiros porque, de acordo com dados de 2017 do IBGE, o Brasil possui uma biblioteca para cada 30 mil habitantes; Os EUA possuem uma biblioteca para cada 20 mil habitantes. Não parece, mas é uma enorme diferença. Esse nosso número preocupante é apenas o início das dificuldades.

Quando você está de bobeira em uma tarde qualquer e quer sair para se divertir, que lugares você pensa em ir? Cinema, bar, parque, praia, quadra de futebol… acertei? Por acaso a biblioteca passa pela sua cabeça? Não! E o motivo é simples, você não se acostumou a ver a biblioteca como um lugar divertido. Para brasileiros, a biblioteca é um lugar reservado para estudo e pesquisa, quase um santuário. Divertir-se no meio de tanta seriedade é um pecado. Pior ainda, adquirimos essa percepção exatamente no lugar que deveria nos ensinar a amar bibliotecas, a escola. Em geral, você não vai ver bibliotecas escolares em salas bem localizadas. Muitas vezes elas estão escondidas e, não raro, em um prédio à parte pouco frequentado. Lá dentro, tudo é proibido. Não podemos falar, rir ou mexer nos livros sem a ajuda do funcionário. Jogar com os amigos é uma péssima ideia porque faz muito barulho – talvez por isso a imagem clássica de um frequentador de bibliotecas seja a de uma pessoa antissocial. É preciso muita determinação e coragem para enfrentar tantas regras e isolamento. Dessa maneira, por mais que um brasileiro goste de bibliotecas, não é tão simples frequentá-las.

Aqui nos EUA as coisas são diferentes. A biblioteca é um programão para todos. Crianças brincam, jovens conversam e adultos tomam café. Isso tudo, claro, tendo os livros como companheiros. A biblioteca é uma atração da região, mantém um incrível calendário de eventos e está longe de ser associada unicamente à estudo. Não é um programa pesado, muito menos monótono, é um programa social. Há um outro detalhe pouco familiar aos brasileiros: a biblioteca é um abrigo muito conveniente em temperaturas extremas. Aqui em Nova York faz muito frio durante o inverno e é na biblioteca que as famílias buscam refúgio. Chega um momento em que nem precisamos mais pensar no que fazer, é automático lembrar dessa opção logo de cara. Se você acha que essa rotina é muito repetitiva, saiba que é muito comum ter várias bibliotecas por perto. É possível visitar uma diferente por semana por um bom tempo. Minha filha não tem nem dois anos e já conhece quatro.

Como se não bastasse, as bibliotecas ainda possuem parceria com uma infinidade de prestadores de serviço e outros locais de visitação. Por exemplo, posso ir ao zoológico ou a um museu com um cartão especial que retiro no balcão da minha biblioteca e não pago um centavo pelo programa. A economia não é pequena. O meu cartão de associado também me dá direito a fazer cursos online ou participar de um book club. Essa é uma outra fantástica tradição que também existe no Brasil, mas em escala infinitamente menor.

Um book club, ou clube de leitura, é um grupo de pessoas que se encontram com frequência para trocar ideias sobre determinados livros escolhidos previamente. O formato clássico é um livro e um encontro por mês, mas cada clube pode ter suas próprias regras. A única exigência é que todos os participantes do encontro tenham lido o livro em questão. Além da motivação de cumprir o objetivo de ler livros, um clube de leitura – assim como as próprias bibliotecas – usa o livro como agente social. As pessoas se encontram, conversam, trocam ideias e fazem amizades. Percebeu como o livro pode ser muito mais um agregador que um isolante?

Muito bem, uma pessoa que cresceu frequentando bibliotecas e participando de um book club é um leitor muito bem formado e jamais passará muito tempo longe dos livros. Aqui voltamos à questão das livrarias porque, quem tem a leitura como prazer, é frequentador assíduo delas. Por isso, não surpreende a força do enorme mercado editorial americano.

Em 2018, as livrarias americanas faturaram nada menos que 13 bilhões de dólares. Apesar da massiva presença de gigantes do setor como a Barnes & Noble, também há espaço para as cerca de 2 mil livrarias independentes. O livreiro independente é outro agente fundamental na formação de leitores. É com esse livreiro que o leitor pode trocar ideias e obter recomendações porque a pequena livraria oferece algo que as grandes não conseguem, o tratamento individual. O independente tem tempo para conversar e entender o gosto do cliente, é figura conhecida na região e jamais vai tratar a clientela com frieza como certamente já aconteceu com você em uma loja de rede. Mas as redes também têm funções importantes. Elas são capazes de alugar um ponto muito bem localizado, podem oferecer preços atraentes pelo enorme volume e alguns mimos que ajudam a criar um ambiente agradável como cafeteria e espaço de leitura. Enfim, cada um em seu nicho oferecendo vantagens específicas, mas todos contribuindo para que o prazer da leitura continue sendo difundido por aí.

Outro detalhe que acho importante frisar diz respeito aos autores. Às vezes tenho a impressão que todos escrevem livros aqui nos EUA. Converse com qualquer americano e perceba que se ele tem uma trama na cabeça ou um fato interessante em sua história pessoal, certamente pretende escrever ou já está escrevendo um livro – ficção no primeiro caso, não-ficção no segundo. Eu fico impressionado como é possível não haver livros sobre tantos fatos e pessoas interessantes do Brasil. Veja o caso da aviadora paulista Anésia Pinheiro Machado. Dentre as dezenas de feitos marcantes, Anésia foi a segunda mulher a receber o brevê de aviadora no Brasil, a primeira a realizar um voo solo no país e a primeira a conduzir voos com passageiros – além de ter recebido dezenove medalhas nacionais e sete internacionais como você pode conferir nesse artigo da Wikipédia. É inacreditável, mas não há um único livro sobre essa heroína brasileira. Pois bem, a correspondente americana da nossa Anésia se chama Amelia Earhart. Se você buscar no Google um livro sobre ela, vai encontrar uma infinidade deles. Além disso, você poderá assistir documentários, mostras, palestras e o filme estrelado por Hilary Swank e Richard Gere. Percebeu a diferença? Acho até que alguns casos são exagerados. O cantor Justin Bieber, por exemplo, é temas de alguns livros biográficos apesar de ter apenas 25 anos. Mas não é preciso ser uma celebridade para ter um livro publicado. Há livros escritos por gente que foi presa injustamente, galãs fracassados, imigrantes ilegais ou treinadores de natação. Como falei, parece que TODOS escrevem livros aqui. Com tantas opções, uma delas certamente vai interessar até quem não lê frequentemente e, assim, mais um leitor é conquistado.

Por tudo isso, repito que o problema que impede o crescimento do mercado editorial brasileiro é a formação de leitores. A boa notícia é que o exemplo americano prova que é possível superá-lo. Obviamente há vários outros que devem ser trabalhados e cujas soluções também podemos aprender com eles. Os exemplos estão por aí. Quer saber mais? Procure nos livros.

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