Milhares de brasileiros ficam sem visto para os Estados Unidos

Milhares de brasileiros ficam sem visto para os Estados Unidos

Falha no sistema de agendamento de entrevistas é global, teve início em 8 de junho e, mesmo se tratando dos EUA, ainda não há previsão para ser solucionada

bandeiraMais de 50 mil brasileiros tiveram o processo de vistos de permissão de entrada nos Estados Unidos adiado. Até quarta-feira, dia 17, cerca de 16 mil entrevistas para a solicitação do documento foram suspensas por causa de falhas no sistema dos EUA. Na sexta-feira, o Departamento de Estado dos Estados Unidos cancelou todos os agendamentos para esta semana. Como no país são feitas cerca de 5 mil entrevistas diariamente, a expectativa é de que o número de prejudicados tenha mais do que triplicado.

Para realizar o sonho de conhecer a terra do Tio Sam, o comerciante Ângelo Batista desembolsou cerca de R$ 1,2 mil só com as burocracias para concessão de visto. Pagou o formulário, contratou serviço de uma agência e viajou até o Rio de Janeiro para a entrevista no consulado norte-americano. “Quando cheguei ao consulado no Rio, me mandaram voltar para casa. O sistema estava parado, sem previsão para normalizar”, lamenta Ângelo. Mais de 10 dias depois, ele, que voltou frustrado para Belo Horizonte, ainda não sabe se, em agosto, vai conseguir desembarcar em Orlando, para, enfim, curtir suas férias. “Remarquei uma nova entrevista para o dia 30, mas não sei se, desta vez, vão me atender. É dinheiro que estou perdendo”, reclama. Assim como ele, milhares de pessoas no país e no mundo sofrem com a incerteza e registram prejuízos financeiros, depois que o sistema de concessão de visto a estrangeiros do Departamento dos Estados Unidos registrou problemas técnicos no sistema.

Efeito dominó

De acordo com o ministro conselheiro para Assuntos Consulares, Tom Lloyd, são mais de 50 mil entrevistas diárias para concessão do visto norte-americano em todo o mundo. Esta é a segunda semana consecutiva em que o Departamento de Estado dos Estados Unidos cancela o serviço. Os solicitantes que tinham entrevistas agendadas até o dia 26 na embaixada em Brasília e nos consulados de São Paulo, Rio de Janeiro e Recife foram informados para não comparecer e que deverão reagendar o procedimento, mas apenas quando o sistema retornar.

A falha, conforme reforça a embaixada, é global, teve início em 8 de junho e, mesmo se tratando dos EUA, ainda não há previsão para ser solucionada. A primeira suspensão temporária foi anunciada no dia 13. Quem estava com entrevista marcada para solicitar o visto e entrar nos EUA sofre com a falta de respostas. “Gasta-se muito dinheiro indo a outra cidade para fazer a entrevista. Eu, por exemplo, sou dono de uma loja de açaí e, no dia em que fui ao Rio, fechei as portas. Ou seja, um prejuízo de R$ 700 para voltar para BH sem nada”, comenta Ângelo, que pagou ainda R$ 496 para o formulário de solicitação de vistos, R$ 250 para a agência que fez a ponte com o consulado, além de R$ 270 de transporte de ida e volta do Rio e R$ 150 com alimentação. “Agora, terei que voltar e gastar mais”, lamenta.

SEM JUSTIFICATIVAS

A situação que afeta quem precisa fazer negócios lá fora, e até mesmo exames de saúde, assustou não só clientes, mas também quem está no ramo de turismo há muito tempo. “Temos 41 anos de empresa e é a primeira pane em nível global que enfrentamos nessas proporções. O governo americano não sabe explicar o que está ocorrendo e talvez não tenha interesse em esclarecer, pois, se tivesse, enviaria uma nota ao mundo”, comenta o diretor da Despachatur, Aldo D’Vale.

Segundo ele, a sua empresa, que transporta pelo menos 30 pessoas por dia para Brasília, Recife e Rio de Janeiro tem sentido o impacto da suspensão. “Tivemos 40 casos de clientes que, com viagens marcadas, tiveram prejuízo. Lembro que, há uns oito anos, quando o sistema era manual, íamos até o cônsul e alguns casos eram resolvidos. Desta vez, está difícil, por se tratar de um problema global. Não há muito o que fazer”, destaca. A preocupação da piloto Gracy Kelly, de 31 anos, é justamente essa: “Não há muito o que se fazer”. Gracy precisa estar no próximo dia 30 nos Estados Unidos para buscar uma aeronave. “Preciso do visto e estou preocupada se vou ou não conseguir. Vou tentar entrar com um pedido de urgência”, contou.

Kelly Cristina de Moura foi outra que contabilizou prejuízos. Ela estava com entrevista marcada no consulado de São Paulo para hoje. “Consegui uma folga no meu emprego e paguei uma passagem de avião. A passagem eu consegui remarcar, mas a folga, não sei se terei de novo”, reclama. Ela viaja para os Estados Unidos em setembro, e está torcendo para que, até lá, a falha tenha sido resolvida. “Essa pane ocorreu de repente. Temos muitos clientes que foram até o Rio e São Paulo e tiveram que voltar pra casa”, comenta o dono da DS Câmbio e Visto, Paulo Freitas. A preocupação dele é com as novas remarcações, uma vez que, assim que o sistema for estabilizado, pode haver um congestionamento de entrevistas e muitas pessoas não terão como agendar novas datas próximas. Já Aldo D’Vale acredita que, ao detectarem o problema, seja possível criarem estratégias para desafogar o contingente de pessoas marcadas.

PLANEJAMENTO

Apesar de o problema vir se arrastando desde o dia 8, as agências de turismo em Belo Horiznte ainda não sentiram um impacto muito grande da suspensão dos vistos nas vendas de pacotes. Segundo comenta a gerente da Primus Turismo, Rosana Queiroz, a maioria dos clientes agenda viagens, agora, para o fim do ano. “Assim, vai dar tempo de eles conseguirem o visto”, diz. Ela conta que houve um cliente que teve problemas ao tentar visto para a sobrinha que viajaria com ele para Orlando, em julho. “Por enquanto, ela está sem o documento”, conta.

Rosana Queiroz acredita que, para as viagens de julho, o percentual de brasileiros impactados pela falha será pequeno. “Geralmente, as famílias resolvem isso com antecedência. Ainda assim, pode ser que, nessas excursões para a Disney, por exemplo, haja adolescentes sem visto.” Mas ela alerta que, para quem não fechou nenhuma viagem até o momento e pretende ir aos EUA nos próximos meses e ainda não tem visto, é melhor aguardar.

“O melhor é não fechar nada agora, antes que o sistema volte ao normal. Não existe nada ser feito, senão esperar”, aconselha. Rosana Queiroz ressalta que, se a pessoa vai viajar em julho ou agosto, e só vai renovar o visto, o processo pode ser mais fácil. “Acredito que, para a renovação, assim que o sistema retomar, será mais ágil. Já quem não tem deve ficar atento e acompanhar o que será feito. Tem que ter paciência”, diz.

Problema técnico e global

As pessoas que têm entrevistas agendadas para a próxima semana devem ficar atentas, uma vez que o Departamento de Estado dos Estados Unidos informa que não há previsão de retorno do sistema que entrou em pane. Segundo nota publicada no site oficial da autarquia, há um problema técnico na biometria com o sistema de vistos de não imigrantes no Brasil e no exterior. Ainda de acordo com a nota, esse não é um problema de nenhum país específico, documento de cidadania ou categoria de vistos: é global, afetando a emissão no mundo inteiro.

A nota destaca ainda que mais de 100 especialistas técnicos estão se empenhando 24 horas por dia para solucionar o problema, e assim que o sistema for restabelecido, a embaixada e os consulados, por meio de sua página eletrônican e de mídias sociais, farão um comunicado oficial. É a partir daí que os solicitantes deverão remarcar as suas entrevistas, por meio de sua conta no sistema de agendamento, selecionando o link “reagendar” ou ligando para o call center.

O departamento informa que, assim que o sistema for restabelecido, vai buscar atender os casos pendentes o mais rápido possível e pede desculpas para os viajantes, reconhecendo que o problema tem causado dificuldades para algumas pessoas. No entanto, o departamento não informou se será montada uma força-tarefa para agilizar as entrevistas que ficarão pendentes nesse período ou se elas voltam para o fim da fila.

Ainda de acordo com o comunicado, no momento, o departamento está priorizando atendimento a casos de emergência médica e outras situações de cunho humanitário. Com o problema, os vistos só serão concedidos para casos especiais, como passageiros que precisem viajar para tratamento de saúde. Nessas situações, os solicitantes devem enviar um e-mail explicando a natureza da urgência para um dos seguintes endereços: saopaulovisa@state.gov, visario@state.gov, brasiliavisa@state.gov ou recifevisa@state.gov.

Fonte: em.com.br