Parasita em alface deixa milhares doentes e expõe fragilidade da fiscalização alimentar dos EUA

Parasita em alface deixa milhares doentes e expõe fragilidade da fiscalização alimentar dos EUA

Um surto de contaminação por um parasita microscópico está deixando milhares de americanos doentes e reacendendo o debate sobre a fragilidade dos órgãos responsáveis por garantir a segurança dos alimentos nos Estados Unidos. Especialistas apontam que cortes de pessoal em agências federais podem estar comprometendo a capacidade do país de identificar e conter surtos como esse rapidamente.

O tamanho do surto

Desde maio, 41 estados notificaram um total de mais de 11 mil casos de infecção por Cyclospora, um parasita microscópico que provoca diarreia severa e debilitante, capaz de durar várias semanas. Trata-se do maior número já registrado para esse tipo de contaminação, o que acendeu o sinal de alerta entre especialistas em saúde pública.

O maior foco identificado nesta temporada teve origem em lotes de alface americana importados do centro do México. Os vegetais foram distribuídos em escala nacional pela Taylor Farms, uma das maiores fornecedoras do setor, que abastece redes de supermercados e restaurantes em todo o país, incluindo lojas da rede Walmart sob a marca Marketside. A empresa já recolheu voluntariamente toda a alface americana proveniente da região central do México e suspendeu temporariamente a produção em sua unidade local enquanto investiga o caso.


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Como o parasita chega aos alimentos

A contaminação por Cyclospora ocorre por meio de contato com fezes humanas. Segundo Susan Mayne, professora adjunta da Escola de Saúde Pública de Yale, a presença do parasita nas plantações costuma estar ligada a falhas básicas de infraestrutura no campo, como falta de banheiros adequados ou locais apropriados para lavagem das mãos, o que pode levar à contaminação da própria água de irrigação por esgoto.

Órgãos de fiscalização perderam parte da equipe

Segundo o levantamento, cortes orçamentários durante o atual governo do presidente Donald Trump reduziram em 20% o quadro de funcionários da Food and Drug Administration (FDA), agência responsável pela segurança de alimentos e medicamentos nos Estados Unidos. Já o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) perdeu 25% de seus colaboradores. Como resultado direto, a equipe de cientistas dedicada exclusivamente a rastrear parasitas transmitidos por alimentos foi reduzida de 11 para apenas três profissionais.

De acordo com Mayne, um comitê consultivo nacional que orientava a FDA e o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) sobre como prevenir contaminação microbiana em alimentos foi dissolvido, e reuniões periódicas com autoridades mexicanas para reforçar a segurança alimentar também foram canceladas.

Sistema de vigilância também foi reduzido

As reduções atingiram ainda o FoodNet, programa conjunto de vigilância mantido pela FDA, pelo CDC e pelo USDA. Antes projetado para acompanhar oito patógenos críticos transmitidos por alimentos, o sistema teve seu escopo reduzido para apenas dois, deixando justamente o Cyclospora de fora do monitoramento direto.

Outro ponto sensível envolve a chamada Regra de Rastreabilidade de Alimentos, uma exigência aprovada pelo Congresso americano em 2011 que obriga as empresas a documentarem detalhadamente o trajeto de alimentos considerados de maior risco, do campo até as prateleiras. A norma, que deveria entrar em vigor neste ano, acabou adiada para 2028, o que, segundo especialistas, deve dificultar a identificação da origem de futuros surtos.

O que diz o governo

O secretário do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, Robert F. Kennedy Jr., negou publicamente que os órgãos de fiscalização tenham sido enfraquecidos e classificou as críticas como infundadas. Segundo ele, os cortes ocorreram especificamente em programas de vigilância considerados redundantes dentro do FoodNet, e não representam uma redução da capacidade geral de monitoramento do país.

O que fazer para se proteger

Diante do cenário de incerteza na fiscalização e da existência de surtos ativos, Susan Mayne recomenda que os consumidores evitem, por precaução, o consumo de saladas já embaladas, já que uma pequena contaminação pode se espalhar amplamente durante o processo de industrialização desses produtos. Cozinhar bem os alimentos também elimina o risco, já que o parasita não resiste a temperaturas de cozimento.

Autor

  • Thiago Acquaviva

    Profissional com 15 anos de experiência em web design, design digital, gráfico, social media e marketing. Formado em Sistemas de Informação e pós graduado em Comunicação e Mídias Digitais.



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