Cosméticos desvendados: a química invisível que move bilhões

A Química da maquiagem: primer, batom e rímel.

Maquiagem é arte, expressão e também Ciência. Por trás da textura aveludada do primer, das diversas cores dos batons ou do volume proporcionado pelo rímel, existe uma engenharia química precisa, que combina polímeros, pigmentos e óleos em sistemas altamente controlados e estudados. Nos acompanhe nesse exemplo fascinante de como a Química dos materiais se encontra com o cotidiano.

Segundo pesquisas recentes, adolescentes nos Estados Unidos gastam, em média, cerca de US$ 324 por ano com beleza, incluindo cosméticos, skincare e perfumes. Adultos nos EUA gastam, em média, cerca de US$ 897 por ano com sua aparência, incluindo maquiagem, cuidados com a pele, cortes de cabelo e outros tratamentos. Esses números mostram que, além de ciência e arte, temos também um investimento pessoal significativo, seja para realçar a autoestima, expressar estilo ou simplesmente aproveitar um pouco do universo químico da beleza. Vamos conhecer um pouco mais sobre esse universo…

A história da maquiagem acompanha a própria história da química. No Egito Antigo, já se usava uma versão primitiva de “primer” feita com óleos e unguentos que preparavam a pele para receber pigmentos. O batom também tem raízes antigas: na Mesopotâmia, mulheres trituravam pedras semipreciosas para colorir os lábios, enquanto no Egito se utilizava uma mistura de argilas vermelhas e carmim. Já o rímel surgiu no século XIX, quando o químico Eugène Rimmel (1820 – 1887) desenvolveu uma fórmula à base de pó de carvão e vaselina, tão popular que o nome do inventor se tornou sinônimo do produto em várias línguas. Ao longo dos séculos, a evolução da cosmética foi marcada pela substituição de substâncias tóxicas (como o chumbo e o arsênio, comuns até o século XVIII) por compostos mais seguros, resultado direto do avanço da química moderna.


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O primer, por exemplo, funciona como um “alisador invisível”. Ele contém silicones como a dimeticona e a ciclopentasiloxana, moléculas que contém silício e oxigênio que deslizam com facilidade sobre a pele. 

Polímeros de Silicone


Sua flexibilidade e resistência ao calor e à oxidação explicam por que são tão usados em cosméticos. Eles reduzem o atrito, dão brilho e criam filmes protetores sobre a pele.

Esses compostos formam uma película uniforme que suaviza imperfeições e ajuda a fixar a maquiagem. Além disso, primers podem conter partículas difusoras de luz, como a sílica ou o óxido de titânio, que espalham a radiação incidente e dão à pele um aspecto mais homogêneo. Aproveite e observe a composição química do seu primer, veja se encontra algumas dessas substâncias! 

O batom é talvez o exemplo mais clássico da química cosmética. Sua estrutura combina ceras (como candelila, carnaúba e abelha), que conferem rigidez, com óleos vegetais ou minerais, que trazem maciez e facilitam a aplicação. A fixação da cor vem de pigmentos como os óxidos de ferro (responsáveis por tons terrosos), o dióxido de titânio (branco, usado para dar opacidade) e, em versões mais tradicionais, o carmim (um corante vermelho natural obtido da cochonilha). Tudo isso é disperso em uma matriz lipídica que precisa ser estável, sem separação de fases.

Emulsões e Dispersões


 O batom pode ser entendido como uma dispersão, nos quais pigmentos sólidos ficam suspensos numa matriz de óleos e ceras. A ciência aqui é manter partículas uniformemente distribuídas para evitar manchas ou alteração da cor.

Já o rímel (máscara de cílios) precisa ser ao mesmo tempo flexível e resistente. Para isso, sua fórmula mistura água e óleo em uma emulsão bem estável. Os chamados polímeros filmógenos (moléculas longas parecidas com os plásticos) criam uma fina película que envolve cada fio, ajudando a manter a curvatura. Já as ceras, como a de carnaúba, entram em cena para dar corpo e volume, deixando os cílios mais encorpados e destacados. O pigmento mais usado é o negro de carbono (carbon black), que garante a cor intensa. Há ainda adição de conservantes e agentes espessantes que mantém a fórmula estável por meses, sem separar fases ou ressecar.

No fim das contas, primer, batom e rímel são mais do que produtos de beleza: são pequenas engenharias químicas aplicadas diretamente na pele. Cada fórmula envolve o equilíbrio de forças intermoleculares, propriedades ópticas e estabilidade físico-química. Da próxima vez que abrir o nécessaire, pense que cada item é fruto de séculos de química, transformando laboratório em estética.

Professor Dr. Diogo Bacellar Sousa, Químico e Pesquisador.

Autor

  • Diogo B Sousa

    Prof. Dr. Diogo B. Sousa é Químico, especialista em Educação Ambiental com ênfase em Química Atmosférica, Mestre e Doutor em Educação Científica. Com mais de 15 anos de atuação como professor e pesquisador, combina sólida formação em Química com experiência em laboratórios de análises e controle de qualidade, integrando prática profissional e investigação acadêmica no campo educacional. Sua trajetória une a vivência em Química Laboratorial e processos de análise de qualidade a pesquisas voltadas para Educação Científica e Cidadania Crítica. Tem se dedicado ao desenvolvimento de metodologias que aproximam alunos e profissionais do universo da Química, explorando atividades experimentais e investigativas que estimulam o aprendizado significativo e o desenvolvimento de habilidades científicas. Ao longo da carreira, contribuiu para projetos que articulam ensino de Química e prática laboratorial, promovendo a formação de profissionais capazes de aplicar conceitos químicos em contextos reais. Atualmente, realiza pesquisas em STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) nos Estados Unidos, investigando como abordagens integradas à Inteligência Artificial podem ampliar o interesse por carreiras científicas e transformar o ensino de Química, tanto em sala de aula quanto em ambientes laboratoriais.



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