Caridade embrulhada com dignidade

Caridade embrulhada com dignidade

Edição de março/2018 – p. 41

No Brasil, como todos sabem, principalmente nas cidades do interior, é comum encontrarmos pelas ruas pessoas vendendo coisas numa carriola. Pessoas simples, os menos afortunados, aqueles que mais sofrem com a roubalheira e corrupção da classe política. Esses pequenos e informais comerciantes vendem muitas coisas: goiabas,  mangas, panos de prato, ovos, verduras, mudas de plantas, e por ai vai.

Outro dia presenciei uma cena interessante: uma mulher, ou melhor, como dizemos por aqui, uma “madame”, parou sua Mercedes ao lado de um desses carrinhos que vendia goiabas. Pediu para o vendedor pesar e na hora de pagar, ficou pechinchando. Ela conseguiu o desconto! Isso me fez lembrar de uma estória, que minha tia Maria (uma comerciante das boas) um dia me contou:

“Um senhor já com bastante idade, vendia ovos numa pracinha de Lisboa. Certo dia, uma senhora, elegantemente vestida parou em frente a barraquinha, examinou os ovos e perguntou o valor: – 50 centavos cada ovo, senhora – respondeu.

– Vou levar meia dúzia por 2,50, ou vou embora. Disse autoritária.
– Está bem senhora, este pode ser um bom começo pra quem ainda não vendeu nada.

Ela pagou os 2,50 pelos 6 ovos e se afastou sentindo-se vitoriosa.

Entrou em seu carro luxuoso e foi para um restaurante famoso – aqueles com estrelinhas, sabe? – com sua amiga. Lá, elas pediram muita comida, comeram pouco e pagaram caro, 400 euros. Ela deu 500 e disse ao proprietário do restaurante estrelado:

– Pode ficar com o troco.

Esta atitude pode ter parecido bastante normal ao proprietário do restaurante, mas muito dolorosa para o vendedor de ovos. Vamos pensar um pouco: Por que sempre mostramos que temos o poder quando compramos dos necessitados? E por que ficamos generosos com aqueles que nem precisam de nossa generosidade? Tia Maria completou a narrativa dizendo:

– Meu pai costumava comprar  coisas, qualquer coisa,  de pessoas pobres e sempre pagava a mais pelas mercadorias, mesmo que não precisasse daqueles objetos. Às vezes chegava da rua com uma sacola cheia e logo depois saía para levar às instituições os objetos comprados. Era a maneira dele fazer a caridade “escondida”. Ele ria e dizia: – É uma caridade embrulhada com dignidade, minha filha! É assim que tem que ser.