A luz que revela e a realidade que a IA pode reinventar

A luz que revela e a realidade que a IA pode reinventar

Nossa conversa científica hoje é fotografia e luz!

Da fotografia ao universo da inteligência artificial, a luz continua sendo uma das principais responsáveis por aquilo que nossos olhos reconhecem como realidade. Antes de existir uma fotografia, existe a luz. É ela que revela os contornos de um rosto, desenha as sombras de uma paisagem, destaca uma textura e transforma um instante comum em uma imagem capaz de contar uma história. 

Na fotografia, a luz não é apenas iluminação. Ela é linguagem. Uma mesma cena pode transmitir sensações completamente diferentes dependendo da hora do dia, da direção da luz ou da intensidade das sombras. A luz suave de uma manhã pode produzir uma imagem delicada. Já a luz dura do meio-dia pode criar contrastes fortes e dramáticos. No final da tarde, os tons dourados transformam uma paisagem e dão à fotografia uma atmosfera quase cinematográfica.


______continua após a publicidade_______

seguro


Você sabia que aquilo que enxergamos é apenas uma pequena parte de toda a luz que existe. Aprendemos na Escola que a luz visível corresponde somente a uma faixa do espectro eletromagnético que pode ser percebida pelo olho humano. Além dela existem outras formas de radiação, como o infravermelho e o ultravioleta, que nossos olhos não conseguem detectar diretamente. Isso significa que nossa própria percepção já é uma espécie de janela limitada para a realidade. O universo contém muito mais informação luminosa do que somos capazes de enxergar.

Conforme nos ensina o Diretor de Fotografia Bruno Clemente, especialista em produção audiovisual e cinematográfica, com larga experiência em jornalismo e documentários, “(…) a câmera registra a luz que chega até seu sensor e transforma essa informação em uma imagem. Cor, contraste, sombra, reflexo e profundidade são consequências da maneira como a luz interage com aquilo que está diante da lente. Não fotografo apenas o objeto, uma pessoa, uma paisagem. Tentamos registrar a maneira como a luz encontra esses elementos. Por isso, profissionais da fotografia observam horários, direção do sol, sombras, reflexos, nuvens e até a posição do próprio fotógrafo antes de apertar o disparador. É justamente essa relação entre luz e realidade que torna a fotografia tão fascinante.”

Quando a inteligência artificial entra em cena…

Durante grande parte da história da fotografia, uma imagem esteve associada à existência de alguma coisa diante da câmera. Mesmo fotografias cuidadosamente produzidas, com iluminação artificial, maquiagem, cenários ou edição, partiam de uma cena que existia fisicamente no momento do registro. A inteligência artificial está mudando essa relação.

Hoje, sistemas de IA generativa conseguem produzir imagens extremamente realistas sem que uma câmera tenha registrado aquela cena. Podem criar pessoas, ambientes, paisagens, sombras, reflexos e fontes de iluminação que nunca existiram fisicamente. E surge uma pergunta que há poucos anos parecia pertencer apenas à ficção: Se a luz parece real, a imagem também representa uma realidade?

O National Institute of Standards and Technology (NIST), órgão de Ciência e Tecnologia do governo dos Estados Unidos, vem estudando justamente os desafios relacionados ao conteúdo sintético produzido ou modificado por inteligência artificial[1]. Entre as tecnologias estudadas estão mecanismos de autenticação, rastreamento da procedência, metadados e marcas d’água digitais, que podem ajudar a indicar a origem e o histórico de uma imagem. O próprio NIST ressalta, porém, que essas técnicas ainda apresentam limitações e podem ser vulneráveis a manipulações.

Isso coloca uma questão especialmente importante para o jornalismo, a publicidade e a fotografia documental: uma imagem pode parecer absolutamente verdadeira e, ainda assim, mostrar algo que nunca aconteceu.

Há algo curioso na fotografia real, como pequenas imperfeições, tais quais uma sombra irregular, um reflexo quebrado na água, a luz atravessando uma janela e revelando partículas de poeira no ar, uma pele com pequenas imperfeições, um objeto parcialmente escondido pela escuridão. São detalhes que fazem parte da experiência visual do mundo real, porém a inteligência artificial está aprendendo a reproduzir muitos desses sinais. Apenas curioso ou também preocupante?

Por isso, talvez a fotografia do futuro não seja simplesmente uma disputa entre real e artificial, mas uma nova conversa entre os dois. A tecnologia oferece possibilidades extraordinárias para fotógrafos, artistas, designers, jornalistas e criadores. Ao mesmo tempo, quanto mais fácil se torna criar uma imagem artificialmente, maior pode ser o valor de uma fotografia que documenta um acontecimento real e cuja origem pode ser comprovada.

Durante séculos, a luz foi uma espécie de testemunha silenciosa da fotografia. Era preciso que ela iluminasse uma cena real para que a câmera pudesse registrá-la. Agora, uma máquina pode criar uma imagem com aparência fotográfica sem que aquela luz tenha iluminado qualquer objeto real. Talvez essa seja uma das grandes questões visuais do nosso tempo. No futuro, não bastará perguntar “- O que estou vendo?” Talvez precisemos perguntar também: “- Onde essa imagem nasceu?”

A tecnologia pode reinventar a luz, criar cenários impossíveis e produzir imagens que desafiam nossos sentidos. Mas isso não elimina o valor da fotografia. Pelo contrário. Em um mundo onde praticamente qualquer imagem pode ser criada, o verdadeiro diferencial poderá estar justamente naquilo que existe por trás dela: um lugar, uma pessoa, um acontecimento e um momento que realmente estiveram diante da lente. No fim, a luz continua fazendo aquilo que sempre fez: revelando.

Essa foi nossa conversa científica de hoje!


[1] National Institute of Standards and Technology. (2024). Reducing risks posed by synthetic content: An overview of technical approaches to digital content transparency (NIST AI 100-4). U.S. Department of Commerce. https://www.nist.gov/publications/reducing-risks-posed-synthetic-content-overview-technical-approaches-digital-content

Autor

  • Diogo B Sousa

    Prof. Dr. Diogo B. Sousa é Químico, especialista em Educação Ambiental com ênfase em Química Atmosférica, Mestre e Doutor em Educação Científica. Com mais de 15 anos de atuação como professor e pesquisador, combina sólida formação em Química com experiência em laboratórios de análises e controle de qualidade, integrando prática profissional e investigação acadêmica no campo educacional. Sua trajetória une a vivência em Química Laboratorial e processos de análise de qualidade a pesquisas voltadas para Educação Científica e Cidadania Crítica. Tem se dedicado ao desenvolvimento de metodologias que aproximam alunos e profissionais do universo da Química, explorando atividades experimentais e investigativas que estimulam o aprendizado significativo e o desenvolvimento de habilidades científicas. Ao longo da carreira, contribuiu para projetos que articulam ensino de Química e prática laboratorial, promovendo a formação de profissionais capazes de aplicar conceitos químicos em contextos reais. Atualmente, realiza pesquisas em STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) nos Estados Unidos, investigando como abordagens integradas à Inteligência Artificial podem ampliar o interesse por carreiras científicas e transformar o ensino de Química, tanto em sala de aula quanto em ambientes laboratoriais.

Compartilhe esta notícia

WhatsApp

No Instagram, o link é copiado para você colar em uma publicação, Story ou mensagem.



____________________publicidade___________________

seguro

anuncie