O aumento das operações do Immigration and Customs Enforcement (ICE) nos Estados Unidos em 2025 teve efeitos que foram além das prisões e deportações. Uma nova análise do Brookings Institution identificou queda no emprego formal nas cidades onde a fiscalização migratória aumentou com maior intensidade.
Segundo o estudo, seis meses após o início de uma onda local de operações do ICE, o número de empregos nessas cidades estava 0,43% abaixo da trajetória que seria esperada sem o aumento da fiscalização. Após 11 meses, a diferença chegou a 0,69%.
Os pesquisadores destacam que o impacto estimado foi significativamente maior do que o número de pessoas efetivamente presas, indicando consequências indiretas para empresas, consumidores e trabalhadores, inclusive americanos.
Estudo analisou cidades com aumento das operações do ICE
A pesquisa foi realizada por especialistas do Brookings Institution e analisou o impacto da intensificação das operações migratórias durante 2025.
Os pesquisadores compararam cidades que registraram forte crescimento das prisões do ICE com localidades semelhantes onde não houve uma expansão equivalente da fiscalização.
Antes do aumento das operações, os dois grupos apresentavam trajetórias de emprego semelhantes. A diferença começou a surgir justamente quando as ações do ICE se intensificaram nas cidades analisadas.
Segundo o estudo, a distância continuou aumentando nos meses seguintes, sem sinais claros de recuperação durante o período observado.
Queda chega a 0,43% depois de seis meses
Seis meses depois do início do aumento da fiscalização, o emprego nas cidades mais afetadas estava 0,43% abaixo do nível que os pesquisadores estimam que teria sido registrado sem as operações.
Após 11 meses, a diferença chegou a 0,69%.
Os próprios pesquisadores fazem uma ressalva importante sobre esse último número. Apenas 11 das 64 cidades analisadas já possuíam dados suficientes para serem acompanhadas durante 11 meses, o que aumenta a margem de incerteza da estimativa de longo prazo.
Ainda assim, os dados disponíveis mostraram uma tendência de ampliação da diferença ao longo do tempo.
Impacto foi maior que o número de pessoas presas
Um dos resultados que mais chamou atenção foi a diferença entre a quantidade de prisões adicionais e a redução estimada no emprego.
Seis meses depois do aumento das operações, as prisões excedentes representavam aproximadamente 0,11% dos trabalhadores das cidades analisadas. A queda estimada no emprego, porém, era de 0,43%.
Isso significa que a redução no número de empregos foi aproximadamente quatro vezes maior do que o volume de prisões adicionais registrado no mesmo período.
Os pesquisadores ressaltam que isso não significa literalmente que cada prisão individual tenha provocado quatro demissões. As prisões foram utilizadas como indicador da intensidade da fiscalização, que também envolve operações em locais de trabalho, abordagens e maior presença de agentes nas comunidades.
Medo faz trabalhadores deixarem de comparecer ao trabalho
A análise aponta diferentes mecanismos que podem explicar o impacto.
Um deles é o afastamento voluntário de trabalhadores. Pessoas que temem encontrar agentes do ICE podem deixar temporariamente de comparecer ao trabalho, mesmo sem serem alvo direto de uma operação.
Essa ausência pode provocar problemas para empresas que dependem de equipes interligadas.
Na construção civil, por exemplo, a ausência de uma equipe responsável por determinada etapa pode impedir que os profissionais responsáveis pelas fases seguintes iniciem seus trabalhos.
Empresas podem então reduzir horários, congelar contratações, adiar projetos e, em situações mais graves, cortar funcionários ou interromper suas atividades.
Restaurantes, construção e comércio sentem os efeitos
O impacto também pode chegar às empresas por meio dos consumidores.
Quando moradores evitam sair de casa por receio de operações migratórias, restaurantes, lojas e outros estabelecimentos recebem menos clientes.
A redução no movimento pode diminuir o faturamento e levar empresas a reduzir horas de trabalho ou postos de emprego.
Setores com grande presença de trabalhadores imigrantes, como construção, hospedagem e alimentação, estão entre os mais diretamente expostos. Entretanto, pesquisas do Brookings também encontraram efeitos em atividades com participação relativamente menor de trabalhadores imigrantes.
Trabalhadores americanos também podem ser atingidos
Os pesquisadores afirmam que os efeitos não ficam restritos aos trabalhadores imigrantes.
Uma empresa pode ter funcionários de diferentes nacionalidades e status migratórios trabalhando em funções que dependem umas das outras. Se uma parte da operação deixa de funcionar, outros trabalhadores também podem perder horas ou empregos.
A pesquisadora Marcela Escobari, principal autora da análise, afirmou à CBS News que foram encontrados efeitos mais amplos, incluindo entre trabalhadores americanos.
O estudo mais recente, porém, concentra-se na evolução do emprego total nas cidades analisadas e não permite atribuir cada vaga perdida diretamente a uma prisão específica.
Governo Trump contesta interpretação do estudo
A Casa Branca rejeitou a conclusão de que a política de fiscalização migratória esteja prejudicando o mercado de trabalho.
Em resposta à CBS News, a porta-voz Lauren Bis afirmou que a imigração irregular durante o governo anterior pressionou salários de trabalhadores americanos e argumentou que a política do presidente Donald Trump busca aplicar as leis migratórias e ampliar oportunidades para trabalhadores do país.
O governo também sustenta que o fortalecimento da fiscalização migratória protege trabalhadores americanos e reduz a pressão sobre comunidades locais.
O estudo do Brookings, por outro lado, encontrou uma associação entre o momento em que as operações se intensificaram e uma posterior deterioração do emprego nas cidades mais afetadas.
Nova análise revisou números divulgados anteriormente
O Brookings havia divulgado uma versão anterior do estudo em maio de 2026 que estimava impactos significativamente maiores sobre o emprego.
Essa pesquisa inicial apontava aproximadamente 668 mil empregos abaixo do cenário estimado nas cidades analisadas.
Em setembro, os próprios pesquisadores publicaram uma atualização utilizando um período maior de dados e uma metodologia econométrica aprimorada.
Por isso, os números da versão mais recente, incluindo a queda de 0,43% após seis meses e 0,69% após 11 meses, são os mais adequados para interpretar os resultados atuais.
Operações visíveis tiveram impacto maior
A pesquisa também encontrou diferenças dependendo do tipo de fiscalização realizada.
O efeito sobre o emprego foi mais evidente nas cidades que registraram aumento das chamadas prisões “at-large”, realizadas em comunidades, locais de trabalho, residências e abordagens de trânsito.
Já transferências realizadas diretamente de prisões para a custódia do ICE são menos visíveis para a população e apresentaram efeitos diferentes nos modelos analisados.
Para os pesquisadores, essa diferença reforça a hipótese de que o impacto econômico não está relacionado apenas à retirada direta de trabalhadores, mas também ao comportamento provocado pela percepção de risco nas comunidades.
A análise mostra, portanto, que operações migratórias podem produzir consequências econômicas que se espalham para além das pessoas diretamente detidas. O tamanho exato desses efeitos continua sujeito às limitações estatísticas do estudo, mas os dados atualizados apontam uma queda persistente do emprego nas cidades onde a fiscalização do ICE aumentou com maior intensidade.








