Faculdades dos EUA ampliam cursos de três anos para reduzir custos e acelerar entrada no mercado de trabalho

Modelo de graduação mais curta já está presente em 26 estados americanos, mas enfrenta críticas sobre a qualidade da formação, reconhecimento profissional e acesso à pós-graduação

Uma nova modalidade de ensino superior começa a ganhar espaço nos Estados Unidos: os cursos de graduação de três anos, uma alternativa ao tradicional bacharelado de quatro anos. A proposta promete reduzir o tempo de formação e os gastos com a faculdade, mas também provoca questionamentos entre professores e especialistas em educação.

Segundo levantamento da organização de pesquisa RAND, 26 estados americanos já possuem pelo menos uma instituição oferecendo algum bacharelado com carga horária reduzida. Até maio deste ano, haviam sido anunciados 119 programas desse tipo no país.


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A principal diferença está na quantidade de créditos exigidos. Enquanto o bacharelado tradicional normalmente requer cerca de 120 créditos, alguns dos novos programas permitem a conclusão do curso com apenas 90 créditos, eliminando aproximadamente um ano de estudos.

Para estudantes que precisam conciliar faculdade, trabalho e família, a possibilidade de concluir a graduação mais rapidamente pode representar uma mudança importante.

É o caso de Giles Sims, de 34 anos, estudante do Ensign College, em Salt Lake City, Utah. Depois de perder o emprego como desenvolvedor web e diante da necessidade de ajudar financeiramente a esposa e a mãe viúva, ele decidiu optar por uma graduação de três anos.

Para Sims, permanecer quatro anos fora do mercado de trabalho seria um período difícil de enfrentar. O novo modelo, segundo ele, tornou a decisão de voltar à faculdade mais viável.

Menos tempo e potencialmente menos dívida

Os defensores da proposta consideram os cursos de três anos uma resposta ao alto custo do ensino superior americano. Além de pagar por um ano a menos de faculdade, o estudante também pode retornar mais cedo ao mercado de trabalho.

No último ano letivo, as mensalidades e taxas médias chegaram a aproximadamente US$ 11.950 para estudantes residentes em universidades públicas e US$ 45 mil em instituições privadas sem fins lucrativos, embora bolsas e descontos possam reduzir significativamente esses valores.

Alguns estudantes calculam uma economia ainda maior. Gabriella Staten, de 20 anos, matriculada em um programa de marketing digital de três anos, estima que economizará pelo menos US$ 20 mil com a modalidade.

O modelo também tem atraído pessoas que já estão trabalhando ou que precisam conciliar os estudos com responsabilidades familiares. Apesar do crescimento, os programas de três anos não são igualmente aplicáveis a todas as áreas.

Cursos como administração, marketing e ciência da computação estão entre os mais comuns nesse formato, enquanto áreas com maior carga de matemática, treinamento prático ou exigências de licenciamento profissional enfrentam mais dificuldades para reduzir a duração.

A RAND identificou apenas seis programas de graduação com créditos reduzidos na área de educação. Isso ocorre, em parte, porque a formação de professores envolve experiências práticas e requisitos definidos por cada estado.

A expansão dos cursos mais curtos também encontra resistência dentro do meio acadêmico. Críticos argumentam que a redução da carga horária pode limitar a formação dos estudantes, diminuir o contato com diferentes áreas do conhecimento e, no futuro, dificultar o reconhecimento do diploma por empregadores e universidades.

A American Association of University Professors (AAUP) está entre as organizações que demonstram preocupação com o modelo. Para seus críticos, reduzir o número de créditos pode acabar enfraquecendo o significado de um diploma universitário.

Outra questão é a pós-graduação. Como os cursos de três anos ainda são recentes nos Estados Unidos, não existe uma prática padronizada para a admissão desses graduados em programas de mestrado e outras formações avançadas. Algumas universidades podem exigir disciplinas adicionais.

O problema pode ser ainda maior para estudantes que pretendem seguir profissões regulamentadas.

No caso da contabilidade, por exemplo, os requisitos para prestar exames e obter licença profissional variam entre os estados. Alguns exigem uma quantidade de créditos superior aos 90 ou 120 normalmente associados aos novos formatos de graduação.

Por isso, especialistas recomendam que o estudante verifique não apenas a duração do curso, mas também se o diploma atende às exigências profissionais e acadêmicas do estado onde pretende trabalhar.

A ideia de graduações de três anos não é exatamente nova. Países como Reino Unido, Índia, França e Itália já adotam, em diferentes formatos, cursos superiores com duração menor que o modelo tradicional americano.

Nos Estados Unidos, a discussão ganhou força novamente nos últimos anos diante do aumento dos custos universitários e das dificuldades enfrentadas por estudantes para conciliar educação, trabalho e dívidas.

Uma mudança nas regras de credenciamento a partir de 2023 ajudou a abrir espaço para os programas com carga horária reduzida, permitindo que algumas instituições passassem a oferecer oficialmente os bacharelados de três anos.

Para os estudantes, a promessa é atraente: menos tempo na faculdade, menor custo e entrada mais rápida no mercado de trabalho. Para os críticos, permanece a dúvida sobre quanto conhecimento pode ser retirado de uma graduação sem comprometer a qualidade da formação.

Nos Estados Unidos, a discussão está apenas começando — e pode redefinir o que os americanos entendem por uma graduação universitária.

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