Trump fecha acordos bilionários para baixar preço de remédios, mas especialistas duvidam que funcione

Trump fecha acordos bilionários para baixar preço de remédios, mas especialistas duvidam que funcione

Em 2022, os preços de medicamentos nos Estados Unidos ficaram quase 2,78 vezes mais altos do que nos 33 países da OCDE usados como referência de comparação. Os preços dos remédios de marca foram pelo menos 3,22 vezes mais altos do que nos países comparados, mesmo depois de ajustes para descontos estimados praticados nos EUA. A disparidade é ainda mais extrema em categorias específicas: os preços brutos da insulina nos EUA foram mais de dez vezes superiores aos praticados na França e no Reino Unido, quase nove vezes maiores que na Itália, mais de oito vezes maiores que no Japão e cerca de seis vezes maiores que no Canadá. 

Exemplos concretos mostram o tamanho do abismo

Os números ganham peso quando se olha para medicamentos específicos. Nos países de alta renda, os EUA pagam entre cinco e quinze vezes mais pelo Ozempic e pelo Wegovy do que em outros países comparáveis. O preço de tabela do Ozempic nos Estados Unidos, por exemplo, é de $969 por mês, enquanto os preços mais baixos de mercado ao redor do mundo variam de $38 a $353 pelo mesmo produto. O anti-inflamatório Humira, o medicamento mais vendido do mundo, custa mais de $2.300 por dose nos EUA, ante uma média de cerca de $450 nos outros onze países analisados em levantamentos internacionais anteriores. 

O problema não é simples de explicar

O debate sobre por que os preços são tão altos voltou com força depois que o presidente Donald Trump responsabilizou outros países desenvolvidos, argumentando que eles negociam preços baixos com as farmacêuticas e que as empresas compensam a diferença cobrando mais dos americanos. Especialistas reconhecem que a questão tem fundamento parcial, mas alertam que a explicação é bem mais complexa do que isso.


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Diferente dos Estados Unidos, países europeus e outros de alta renda costumam avaliar o benefício clínico dos medicamentos antes de decidir quanto pagar por eles e negociam diretamente com os fabricantes em nível governamental. Nos EUA, o sistema é fragmentado entre seguradoras privadas, programas públicos como Medicare e Medicaid, e intermediários chamados de pharmacy benefit managers (PBMs), que negociam descontos com as farmacêuticas, mas que nem sempre repassam esses descontos ao consumidor final. Por lei, até 2022, o governo americano também não podia negociar preços diretamente com as farmacêuticas para o Medicare, algo que a Lei de Redução da Inflação do governo Biden começou a mudar, mas de forma limitada.

Genéricos são exceção, mas não resolvem o problema principal

Nem todo remédio segue o padrão de preços altos. Genéricos nos EUA podem ser tão baratos ou até mais baratos do que em outros países, já que o mercado americano para esses produtos é altamente competitivo. O problema concentra-se nos medicamentos de marca novos, de alto custo e sem concorrência genérica, justamente aqueles usados em tratamentos de câncer, diabetes, obesidade, doenças autoimunes e outras condições crônicas de alto custo.

Trump tentou mudar as regras com ordem executiva

Em maio de 2025, Trump assinou uma ordem executiva chamada “Delivering Most-Favored-Nation Prescription Drug Pricing to American Patients”, que determinou que os EUA não devem pagar mais por medicamentos do que o menor preço praticado por qualquer país da OCDE com renda per capita de pelo menos 60% da americana. Até maio de 2026, o governo havia firmado acordos voluntários de preço MFN com 17 dos maiores fabricantes farmacêuticos do mundo.

O acordo voluntário prevê que os fabricantes disponibilizem medicamentos existentes aos programas estaduais de Medicaid pelos preços MFN, o que geraria economia de $64,3 bilhões em gastos federais e estaduais nos próximos dez anos. Usuários de GLP-1 sem cobertura de seguro, como os que tomam Ozempic ou Wegovy para perda de peso, poderiam economizar até $3.000 por ano com a nova política. 

Acordos são voluntários e cheios de incertezas

O principal ponto de atenção é que todos os acordos firmados até agora são voluntários e seus termos exatos são confidenciais. Três medicamentos prestes a ser lançados nos próximos meses serão os primeiros a colocar os acordos MFN à prova de forma concreta e pública. Especialistas alertam que as farmacêuticas poderiam simplesmente elevar os preços nos outros países para alinhá-los ao nível americano, em vez de reduzir os preços nos EUA. Além disso, a ordem executiva similar assinada por Trump em seu primeiro mandato, em 2020, acabou sendo bloqueada pela Justiça após contestação judicial do setor farmacêutico.

O que muda para quem tem seguro e para quem não tem

A distinção entre quem tem seguro de saúde e quem não tem é essencial para entender quem realmente paga os preços mais altos. A maioria das pessoas com plano de saúde paga bem menos do que o preço de tabela dos remédios, já que seguradoras e PBMs negociam descontos com as farmacêuticas. O impacto mais grave dos preços altos recai sobre os desassegurados, que pagam o preço cheio da prateleira da farmácia, e sobre aqueles com planos de alta franquia (high deductible plans), que podem chegar a pagar centenas de dólares por mês mesmo com cobertura de seguro ativa.

Autor

  • Thiago Acquaviva

    Profissional com 15 anos de experiência em web design, design digital, gráfico, social media e marketing. Formado em Sistemas de Informação e pós graduado em Comunicação e Mídias Digitais.



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