FOTO: Tampa Bay Times
A Prefeitura de Tampa, na Flórida, autorizou a construção de casas residenciais em um terreno de cerca de um acre que fica ao lado do histórico Cemitério Martí-Colón, no bairro de West Tampa, área que ativistas e pesquisadores acreditam abrigar sepulturas não identificadas. O arquiteto Patrick Thorpe, proprietário do terreno desde 2018, havia prometido publicamente à comunidade que nunca desenvolveria a área, já que sabia se tratar de parte do antigo cemitério.
Um cemitério histórico e marcado por escândalos
O Cemitério Martí-Colón é o local de descanso de muitos dos pioneiros de Tampa, incluindo famílias cubanas, porto-riquenhas, dominicanas, afro-cubanas, negras e brancas que ajudaram a construir a cidade a partir do final do século 19. A história do cemitério é marcada por décadas de polêmicas, incluindo a construção da Columbus Drive sobre parte do terreno nas décadas de 1930, o despejo de esgoto bruto sobre seções abandonadas em 1959, e uma investigação da emissora WFLA, em 1995, que confirmou a existência de sepultamentos sobrepostos (buryovers) e registros municipais incompletos sobre a localização de diversas sepulturas.
O que o radar encontrou no terreno
Levantamentos feitos com radar de penetração no solo (GPR) identificaram diversas anomalias no terreno disputado, algumas com formato compatível com sepulturas e profundidade entre 1,8 e 2,1 metros (6 a 7 pés), a mesma de boa parte das covas tradicionais. Diferentes levantamentos ao longo dos anos chegaram a apontar entre 16 e 75 anomalias na área, embora autoridades estaduais responsáveis pelo Programa de Cemitérios Históricos da Flórida afirmem que esse tipo de radar não garante, por si só, a existência de restos humanos, sendo necessário um processo mais detalhado de confirmação no local.
Pesquisa histórica aponta mais de mil pessoas não contabilizadas
Um levantamento histórico independente, conduzido pela pesquisadora Erica Trowell com base em registros de sepultamento e transporte de Tampa e da Flórida, certidões de óbito do Departamento de Estatísticas Vitais e registros de funerárias entre 1895 e 1939, documentou pelo menos 1.072 pessoas que teriam sido enterradas no Cemitério Martí-Colón e cujos restos não constam no banco de dados oficial de cemitérios mantido pela própria cidade. Entre os indivíduos identificados estão operários de fábricas de cigarro, trabalhadores, recém-nascidos, marinheiros, pacientes de hospitais públicos e detentos.
Permissão de construção já foi assinada
Uma licença de construção para o terreno, localizado na West St. John Street, foi assinada em 11 de maio de 2026. Uma placa anunciando a venda de novas casas já está instalada na borda do terreno, visível a partir da área pública do cemitério. Segundo ativistas, o projeto pode incluir não apenas duas, mas até quatro residências no local.
Ativista cobra investigação mais rigorosa
A ativista Aileen Henderson, fundadora da organização The Cemetery Society, tem cobrado publicamente o Conselho Municipal de Tampa por uma investigação mais aprofundada antes da continuidade das obras. Segundo Henderson, a comunidade já havia recebido a garantia de que aquele pedaço de terra estaria protegido, e ela afirma ter registros em vídeo do próprio proprietário prometendo que jamais construiria no local. A ativista também destaca que a seção do cemitério reservada para sepultamentos de pessoas negras foi historicamente realocada por pressão da comunidade branca da época, e que o destino exato dessas sepulturas permanece sem confirmação até hoje.
O que diz a legislação da Flórida
Segundo a legislação estadual, todos os restos humanos são protegidos por lei, independentemente de estarem em cemitérios identificados ou não. O Capítulo 872.05 dos estatutos da Flórida determina que, ao serem descobertos sepultamentos não identificados fora de escavações arqueológicas oficiais, toda atividade no local deve ser interrompida imediatamente e o médico legista do condado deve ser notificado. A mesma lei prevê que perturbar, destruir, remover ou danificar intencionalmente um sepultamento não identificado é crime classificado como felony de terceiro grau.
Posição da prefeitura e do proprietário
Questionada sobre o andamento das obras, a prefeita de Tampa, Jane Castor, afirmou que o Conselho Municipal lida com questões de zoneamento e uso do solo, mas que aquele terreno específico é de propriedade privada. O proprietário, Patrick Thorpe, não respondeu aos pedidos de comentário feitos por diferentes veículos de imprensa ao longo do processo.







