Por que a gente se entende tão mal?

Por que a gente se entende tão mal?

Outro dia, em uma consulta médica, ouvi uma sequência de orientações sobre o que eu precisava fazer antes de um exame de rotina. Na teoria, estava tudo muito claro. A pessoa explicou bem, deu exemplos, reforçou os pontos importantes. Eu ouvi com atenção.

E, ainda assim, saí de lá com uma dúvida simples: o que exatamente eu preciso fazer agora?

Isso acontece o tempo todo.


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A gente fala. O outro escuta. E, no meio do caminho, alguma coisa se perde.

Nunca nos comunicamos tanto. São mensagens, áudios, e-mails, reuniões, chamadas, notificações. É comunicação o tempo inteiro. E, mesmo assim, os mal-entendidos continuam acontecendo com uma frequência impressionante.

Então o problema não é falta de conversa. É outra coisa.

Segundo o Project Management Institute, a comunicação ineficaz está entre as principais causas de falha em projetos. Ou seja, o problema raramente é a ausência de informação. É a forma como ela chega e como é entendida.

Em outras palavras: as pessoas até falam. Mas não necessariamente se fazem entender.

A comunicação não é o que você diz. É o que o outro compreende a partir do que você disse.

Parece simples. Mas, na prática, é exatamente onde quase tudo falha.

A gente parte do princípio de que foi claro. Supõe que o outro entendeu. Acredita que estava óbvio. Só que o outro está ouvindo com a própria experiência, o próprio contexto, as próprias pressões. Ele interpreta, completa, adapta.

E, nesse processo, a mensagem muda.

Sabe quando isso fica muito evidente? Quando você se torna pai ou mãe de adolescente. No meu caso, duas adolescentes e um pré-adolescente. E eu posso te garantir: não é simples.

Você precisa entender, falar, interpretar, ajustar tudo ao mesmo tempo. Às vezes, você acha que foi claro. Do outro lado, a leitura é completamente diferente.

Aqui em casa, a gente criou um combinado. Quando surge um problema e a conversa não flui, quando chega naquele ponto em que ninguém está se entendendo, a gente para e escreve.

Cada um escreve o que quer dizer.

Porque, muitas vezes, o que é dito no impulso soa mais duro, mais confuso, mais difícil de receber. Já a escrita organiza o pensamento, dá tempo para refletir e ajuda a mensagem a chegar com mais clareza.

Cada um usa as ferramentas que tem. Lá em casa, somos melhores com palavras escritas do que com as faladas. E isso fez toda a diferença.

No trabalho, isso aparece de forma muito concreta. Uma tarefa que precisava de um detalhe a mais. Um prazo que parecia combinado, mas não estava. Uma expectativa que nunca foi dita com clareza.

E o resultado vem depois: retrabalho, atraso, frustração.

Não por falta de esforço. Mas por ruído.

E o mais curioso é que, diante disso, muita gente tenta resolver falando mais. Explicando de novo. Mandando mais mensagens. Fazendo mais reuniões.

Só que quantidade não resolve o que é falta de clareza.

Às vezes, uma frase simples resolve mais do que um parágrafo inteiro. Às vezes, perguntar “o que você entendeu?” evita um problema que levaria dias para ser corrigido.

Comunicar bem exige mais do que falar.

Exige ajustar a linguagem, considerar quem está do outro lado, organizar o pensamento antes de transmitir e, principalmente, ter a humildade de reconhecer que o outro pode não ter entendido do jeito que você imaginou.

E se o ponto não for apenas melhorar a forma de falar, mas garantir se houve entendimento?

Quando a gente olha mais de perto, comunicação não é sobre emissão. É sobre conexão.

E, se não houve conexão, não importa o quanto foi dito.

A mensagem simplesmente não chegou.

Este texto abre a série de maio, dedicada a um tema que atravessa qualquer trabalho: gestão de comunicação e pessoas. Ao longo das próximas semanas, vamos olhar para situações simples do dia a dia que ajudam a explicar por que se comunicar bem ainda é tão raro.

Autor

  • Raquel Cadais Amorim

    /// Mãe, esposa, pastora, palestrante, especialista em Desenvolvimento Humano na Gestão de Projetos com bacharelado em Ciências da Computação e feliz!



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