Outro dia ouvi algo que realmente me fez parar. No podcast Na Pilha, da Tati Bernardi, Leandro Karnal comentou que foi atingido pelo “mal do século 21”: perdeu a capacidade de se concentrar por causa do uso excessivo de celular e redes sociais. Ele, conhecido justamente pela profundidade, percebeu que já não conseguia sustentar o foco por longos períodos.
A decisão que tomou foi simples, mas significativa: voltar a ler obras grandes, densas, que exigem presença. Entre elas, Anna Karenina, de Lev Tolstói.
Pode parecer distante da nossa realidade, mas não é. O que ele descreveu acontece hoje com muita gente, ainda que poucos consigam reconhecer ou dar nome a isso.
A cena é comum. Alguém começa uma tarefa e, poucos minutos depois, é interrompido por uma notificação, uma mensagem, um e-mail ou até por outra ideia que surge. Quando percebe, o tempo passou, e a sensação é sempre a mesma: começou, mas não avançou.
O problema não é falta de tecnologia. É excesso.
Vivemos em um ambiente em que tudo disputa a nossa atenção. Aplicativos são desenhados para prender, plataformas para engajar e conteúdos para manter o usuário ativo o maior tempo possível. Nesse cenário, a mente tenta acompanhar um volume de estímulos para o qual não foi preparada.
Com o tempo, criamos o hábito de fazer várias coisas ao mesmo tempo como se isso fosse produtividade. Na prática, acontece o contrário: o pensamento se fragmenta, o cansaço chega mais rápido e a qualidade do que é feito diminui. É um cansaço difícil de explicar. A pessoa não produziu tanto quanto gostaria, mas termina o dia esgotada.
O mais curioso é que nunca tivemos tantas ferramentas para organizar a rotina. Ainda assim, manter a atenção se tornou um dos maiores desafios do cotidiano.
Isso acontece porque foco não depende apenas de ferramenta. Depende de decisão.
Na gestão de projetos, esse efeito é visível. Equipes iniciam muitas atividades, mas têm dificuldade de concluir. Reuniões acontecem, mas decisões não avançam. Demandas se acumulam, enquanto a sensação de progresso é baixa. Detalhes importantes se perdem. Em muitos casos, não se trata de falta de capacidade, mas de falta de concentração.
E isso muda completamente o resultado.
Em um ambiente saturado de estímulos, a capacidade de sustentar atenção se torna um diferencial real. Quem consegue manter continuidade no pensamento, aprofundar análise e executar com presença tende a produzir melhor e com mais consistência.
Talvez voltar a ler grandes obras seja o primeiro passo. O próximo é mais silencioso e mais desafiador: reduzir interrupções, terminar o que se começa e reaprender, todos os dias, a sustentar a própria atenção.
Porque, no meio de tanta informação, não é quem vê mais que avança.
É quem consegue prestar atenção no que realmente importa.







