Consumo de refrigerante X Epidemia de obesidade

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JAN/13 – pág. 48

Três novos estudos publicados reforçam o vínculo entre o consumo de refrigerantes e bebidas de frutas açucaradas e a epidemia de obesidade nos Estados Unidos. O consumo dessas bebidas mais que dobrou desde os anos 1970, assim como a taxa de obesidade entre os americanos no mesmo período, que afeta atualmente 30% da população adulta, destacam os autores destas pesquisas divulgadas na edição online do New England Journal of Medicine.

O primeiro estudo, feito com mais de 33.000 americanos, homens e mulheres, indica que consumir essas bebidas açucaradas agiria nos genes, afetando o peso e ampliando a pré-disposição genética de uma pessoa a engordar. Os cientistas usaram as 32 variações de genes conhecidos por influenciar no peso com a finalidade de estabelecer um perfil genético dos participantes do estudo. Os autores determinaram também seus hábitos alimentares, de consumo de bebidas açucaradas e de práticas de exercícios baseados nas respostas a um questionário durante quatro anos. Os outros dois estudos demonstraram que o fato de dar a crianças e adolescentes bebidas sem calorias, como água mineral ou refrigerante com adoçantes, levaram a uma perda de peso. O primeiro foi feito no hospital infantil de Boston com 224 adolescentes obesos ou que tinham excesso de peso, para os quais os cientistas mandaram regularmente a domicílio garrafas d’água ou refrigerantes “light”. Esses adolescentes foram incentivados a consumir essas bebidas durante um ano (período de duração do estudo).  O resultado foi eles não ganharem peso superior a 1,5 quilo, contra um aumento de 3,4 quilos observado em um grupo de controle.

A última pesquisa foi realizada por cientistas da Universidade VU de Amsterdã (Holanda) com 641 crianças com idades entre 4 e 11 anos e com peso normal, das quais a metade consumiu diariamente um quarto de litro de bebidas de frutas açucaradas e a outra metade a mesma quantidade de bebidas, mas com adoçantes no lugar do açúcar. Após 18 meses, as crianças que consumiram bebidas de baixas calorias ganharam 6,39 quilos em média, comparativamente a um aumento de 7,36 quilos registrado no grupo que ingeriu bebidas de frutas açucaradas. “Tomados em conjunto, estes três estudos parecem indicar que as calorias provenientes de refrigerantes e bebidas de frutas fazem diferença”, destacou em um editorial publicado no New England Journal of Medicine a doutora Sonia Caprio, do serviço de Pediatria da Universidade de Yale (nordeste dos Estados Unidos). Segundo ela, “chegou o momento de agir e apoiar vigorosamente a implementação das recomendações do Instituto de Medicina, do American Heart Association (Associação americana do coração) e da Obesity Society para reduzir o consumo de refrigerantes e outras bebidas açucaradas entre crianças e adultos”.

A “American Beverage Association/ABA”, grupo profissional que representa a indústria de refrigerantes e bebidas de frutas, rejeitou vigorosamente as conclusões destes estudos. O prefeito de Nova York, nos EUA, Michael Bloomberg, quer proibir a venda de refrigerantes e outras bebidas açucaradas em locais públicos, como medida de combate à obesidade. O veto afetaria somente as bebidas com tamanho equivalente a cerca de 500 ml. Na foto, copo de 500 ml para refrigerante.

Parece que conter essa epidemia virou prioridade governamental, porque os custos das doenças crônicas associadas à obesidade serão insuportáveis para o sistema de saúde. As autoridades sanitárias americanas travam queda de braço desigual com a indústria alimentícia, as cadeias de fast food, as associações que representam os restaurantes, as empresas de publicidade e os lobistas.

Vale ler o resumo de um debate publicado no The New England Journal of Medicine:

Para escrever a favor da taxação, a revista convidou o médico Thomas Farley, do Departamento de Saúde de Nova York. Ele diz o seguinte:

  • as companhias fazem de tudo para promover o consumo de refrigerantes altamente calóricos. O apelo toma partido da preferência do paladar humano pelos sabores doces;
  • as embalagens estão cada vez maiores e baratas e podem ser fechadas novamente para garantir consumo contínuo. São vendidas em máquinas e distribuídas nas estantes mais vistosas de
  • a população continua a engordar, apesar de saber que calorias em excesso são as principais responsáveis pelo sofrimento causado pela obesidade. O apelo dos refrigerantes com açúcar e das técnicas de marketing para promovê-los é mais forte do que a força de vontade dos adultos. O que esperar das crianças?;
  • se um produto distribuído nas escolas causasse doença, todos pressionariam as autoridades para regulamentá-lo. Por que não fazer o mesmo com os refrigerantes que contribuem para a obesidade infantil?;
  • a educação sempre é apresentada como alternativa às políticas aplicadas à solução dos problemas de saúde. De fato, é necessário alertar para os riscos das bebidas e alimentos obesogênicos, mas a educação sozinha não resolverá o problema. É fundamental criar um ambiente alimentar que não exponha crianças e adultos às quantidades absurdas de açúcar contidas nos refrigerantes.

Contra a taxação, argumentam David Just e Brian Wansink, economistas da Universidade Cornell:

  • não há dúvida de que os refrigerantes com açúcar contribuem para a obesidade, especialmente nas crianças. Nesse caso, regulamentar preço, conteúdo, disponibilidade e o marketing parecem sensatos. Se criarmos uma lei que proíba as crianças de tomar refrigerantes, elas não tomarão. Mas é preciso cuidado, a proibição do álcool no passado foi um desastre;
  • cercear o acesso a um produto altera o padrão de consumo de outros. Se afastarmos os refrigerantes das crianças, elas tomarão outras bebidas, sucos adocicados, por exemplo. No estudo que acabou conhecido como Coke to Coors, conduzido em Utica, no Estado de Nova York, a taxação de refrigerantes provocou aumento nas vendas de cerveja;
  • quando uma autoridade impõe regras dietéticas para as crianças, a tendência delas é contestá-las. Será triste criarmos involuntariamente uma geração de fanáticos por refrigerantes;
  • o uso de estratégias comportamentais é mais eficaz. Diminuir a visibilidade dos refrigerantes com açúcar e aumentar a das frutas e dos vegetais, tornando-os mais atrativos através da associação com heróis como Batman — como foi feito no passado com Popeye e o espinafre –, pode gerar hábitos saudáveis mais duradouros sem criar associações de defensores do direito de tomar refrigerantes;
  • o universo de alimentos que contribuem para a obesidade infantil é muito maior do que o dos refrigerantes com açúcar.

E você, prezado leitor, o que acha?

Elaine Peleje Vac
elaine@nossagente.net
(Médica no Brasil)
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