Relato comovente sobre asilo político nos EUA

Relato comovente sobre asilo político nos EUA

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MAR/16 – pág. 14 e 24

O brasileiro Ricardo Amar fala de sequestro no Brasil e da busca de proteção mediante ao panorama sombrio que colocou em risco sua vida e a segurança da família

Ricardo Amar
Ricardo Amar

Em meio à expectativa de milhares de imigrantes quanto à legalização,outro fator extremamente discutível e que requer minuciosa analise investigativa é o Asilo Político nos Estados Unidos. Um benefício imigratório que permite a determinados estrangeiros que sofrem ou temem sofrer perseguição em seus países a permanecerem legalmente em reduto americano – indefinitivamente. O processo é complexo, e pode ser negado, caso a solicitação não atenda às exigências do país, com isso, resultando em consequências ao solicitante. E caso o requerente obtenha o asilo, ele terá então a sua situação regularizada e, por conseguinte, não será mais considerado indocumentado, condição que o conduzirá a um caminho jurídico (pathway) para a obtenção da cidadania. Atualmente, há um grupo de pessoas que aguarda aprovação ao pedido de asilo político nos EUA.

A equipe do “Jornal Nossa Gente” conversou com Ricardo Amar, o primeiro brasileiro a obter a concessão do asilo político, nos Estados Unidos,após ter sido sequestrado em São Paulo. E segundo o entrevistado, foi uma operação suspeita, que teria sido arquitetada por elementos perigosos, com intuito de intimidá-lo, em um jogo político extremamente perigoso, que colocou em risco a sua vida e a segurança de sua família. O encontro aconteceu em uma tarde nublada em Orlando, ocasião em que o entrevistado reviveu os momentos sombrios, depois de ter sido abordado a caminho de seu trabalho. Um relato comovente, de superação.

“Eu comecei trabalhando no Procon (Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor), e, depois, fui trabalhar na Agência Nacional de Saúde (ANS), onde era gerente da Central de Atendimento, que atendia o Brasil”, relata Amar. “Na ocasião, em 2.004, mesmo trabalhando em São Paulo, tinha me mudado para Santos – cidade litorânea -, e, diariamente, descia a serra. A minha sogra morava em São Paulo, nas Perdizes, em São Paulo. Naquela semana, do mês de março, resolvi ficar na casa de minha sogra porque ela tinha ido para Santos. E, nesse período,pela manhã, por volta das sete e meia, peguei o carro e segui para o meu trabalho normalmente. Eu estava só no carro. E quando passava por trás do cemitério, na Avenida Dr. Arnaldo, parei no trânsito, quando,inesperadamente fui abordado por três elementos. Um deles apontava a arma na direção da minha cabeça. Eu pensei que se tratasse de assalto, então abri a porta e eles entraram no veículo, uma perua Mondeo”, detalha Ricardo.

A partir daquele momento, narra Amar, com extrema emoção, iniciava-se uma escalada de tensão e medo, mediante ao imprevisível. “Fui colocado no porta-malas do meu carro e um dos elementos assumiu a direção da perua. Eu tinha um celular bem pequeno e eles não viram. E quando fui levado para trás do veículo, enfiei o celular na cueca. Os elementos pareciam descontrolados e falavam entre si, o tempo todo”, prossegue. “Eles sabiam quem eu era. Pegaram os meus documentos, a minha aliança, enfim, pegaram tudo, mas não viram o celular que já estava na minha cueca. Ouvia-os falando no celular, dizendo que já estavam com a encomenda, que no caso era eu, e que iam pegar a Rodovia Raposo Tavares.Os elementos me abordaram quase oito horas da manhã e já eram cinco e meia da tarde e continuava no porta-malas, enquanto eles rodavam. Nem imaginava aonde estava e o que poderia me acontecer. Temia pela minha vida”, fala Ricardo.

“Eu peguei o celular e liguei para a polícia. Disse que estava no porta-malas do meu carro, passei a placa do carro, e falei que estava na Raposo Tavares, mas a polícia não fez nada. E quando eles estacionaram próximo a um matagal, vim saber depois que era em Vargem Grande, me tiraram no porta-malas. Fomos entrando na mata. Foi quando um dos elementos apontou a arma para mim e atirou. A bala entrou na minha barriga. Caí,me fingi de morto. O outro elemento, para se certificar de minha morte, se aproximou para atirar na minha cabeça, quando, de repente,um barulho no mato o assustou. Os elementos se apavoraram e saíram apressados, me deixando lá caído. Sentia muita dor, e não conseguia sentir as minhas pernas, então peguei o celular e fui ligando”, diz Amar com expressão de indignação. “Eu tinha momentos de lucidez e, depois, perdia consciência. Foi quando apertei a memória do celular e liguei para o meu irmão. Ele atendeu apavorado e queria saber onde eu estava, disse que me procuravam, mas eu não sabia informar onde me encontrava. Fui me arrastando em direção ao barulho de carros que ouvia próximo dali. Consegui chegar a uma rodovia, quase sem forças. Já era noite. Eu levantava a mão pedindo ajuda, mas ninguém parava. Foi quando um motoqueiro veio em meu socorro, então contei a ele que tinha sido assaltado. Ele perguntou o meu nome e disse que se eu tinha conseguido chegar até ali, não iria morrer. Em seguida, desmaiei”, Ricardo silencia por alguns segundos.

“Fui levado ao Pronto-Socorro do Hospital de Cotia (SP), onde a minha esposa e demais familiares me esperavam apreensivos. Fui informado que o motoqueiro que me socorreu, depois que chamou a polícia, saiu do local. Ele temia ser confundido com bandido. Quando os policiais chegaram, soube depois, eu estava sozinho, desmaiado na pista. Do hospital de Cotia fui transferido para o Hospital das Clínicas, em São Paulo. O meu caso era muito grave. E quem cuidou de mim foi o cirurgião Luiz Fernando Zantuti, que, posteriormente, me transferiu para o Hospital Sírio Libanês. À bala, quando entrou na barriga, cortou a veia cava inferior. A sorte é que o fogo da pólvora cauterizou grande parte do corte, caso contrário,eu teria morrido no mato.A circulação nas pernas paralisou e fiquei com sequelas nas pernas.Tenho certa dificuldade para andar. Fiquei um mês internado no Sírio Libanês”, lembra.

O que houve de fato?

Indagado sobre o verdadeiro motivo da suposta emboscada ocorrida em São Paulo, seguida de sequestro, Ricardo Amar afirma não ter tido a explicação concreta do episódio que desencadeou horas de incerteza e temor. Entretanto, “o fato de eu trabalhar com planos de saúde, de cuidar do processo de empresas de planos de saúde, após denúncias, pode ter sido um dos motivos que eles quiseram me apagar. No meu cargo, eu analisava as denúncias e montava os processos. Isso incomodava muito muita gente. Isso trouxe insegurança e passei a ficar com medo. Fui para a casa dos meus pais, temendo aqueles elementos que me abordaram. Eles poderiam voltar. As supostas pessoas – ou pessoa -, que encomendaram o sequestro poderiam fazer coisa pior, então não quis levar o episódio avante. Preferi deixar para lá, pela minha vida e pela segurança de minha família”, justifica.

“O que eu soube depois é que os três elementos que me abordaram foram mortos. Uma espécie de queima de arquivos. Os meus superiores evitaram tocar no assunto, pois não queriam envolver o governo no ocorrido. Eles, os meus superiores,questionaram se eu havia feito algo para alguma da empresa, enfim, depois disso, ninguém mais falou sobre o assunto. Foi quando conversei com meu primo, que mora aqui em Orlando, e falei do que tinha acontecido. Ele me aconselhou a vir para os Estados Unidos, e, no mês de maio de dois mil e seis, desembarquei em Orlando com a família – a esposa Vera e os filhos, Rodrigo e Caio”, conta.

Pedido de Asilo Político

“Eu cheguei aos Estados Unidos com visto de turista, mas eu queria ficar aqui, legalmente. Precisava fazer algo para permanecer no país”, lembra Ricardo Amar. “O meu primeiro trabalho em Orlando foi no escritório do meu primo, depois fui ser taxista, e levava as pessoas para o aeroporto e para os passeios em Orlando”, narra. “Sentia uma tristeza profunda porque o meu prazo de permanência estava acabando. O meu primo tinha entrado com o pedido para o Visto L1, mas a imigração exigiu inúmeras evidências. Eu disse ao meu primo que não ia continuar com aquela situação, não queria seguir com aquilo. Foi quando contei a um amigo, também taxista, o que tinha acontecido no Brasil e ele me indicou um advogado hispânico, o doutor Carlos Colombo. Ele me aconselhou a pedir asilo político. Todas às evidências levavam ao pedido de asilo político. O advogado fez uma petição encerrando o processo de pedido para o Visto L1 e, um mês depois, entrou com o pedido de asilo político”, relata Amar.

“Eu tinha documentos comprovando o meu sequestro no Brasil, reportagens veiculadas na televisão e nos jornais. E os noticiários, sem exceção, falavam de um sequestro encomendado. Algo premeditado, por interesses desconhecidos”, diz Ricardo. “A primeira triagem do asilo foi em Miami. É feita uma triagem de toda a sua história e de seus documentos, avaliando se o caso pode continuar ou não. Fui submetido a uma série de perguntas, repetidas vezes. Estava acompanhado de um tradutor, que eu mesmo tinha levado, do meu advogado e de uma senhora, funcionária do governo, que falava muito bem o português. E foi essa senhora quem me alertou sobre o meu tradutor. Ele não estava traduzindo corretamente as perguntas das autoridades da Corte, me induzindo com respostas que poderiam me prejudicar no processo. A mulher mandou parar e disse que se não fosse encontrado um tradutor do governo, que falasse o português, o meu caso seria encerrado naquele momento. E para a minha sorte, encontraram um tradutor oficial que falava o português”.

O caso foi aprovado para etapa seguinte, designado para a Corte de Orlando, informa Amar. “Mas quando a juíza de Orlando ouviu o meu depoimento, traduzido por um interprete oficial do governo, ela disse que o meu relato não condizia com relato escrito no processo. Disse a ela que o meu advogado era hispânico e que não falava o português. A juíza deixou o processo de lado e pediu para que eu contasse a minha história. E foi o que fiz. Por várias vezes ela fez a mesma pergunta, averiguando a veracidade dos fatos. Foram quase quatro horas de audiência. E, no final, a juíza me perguntou o porquê deveria me conceder o asilo político. Fiz as minhas considerações e, posteriormente, os meus filhos e a minha esposa foram chamados na sala. A juíza nos concedeu o asilo político definitivo e nos deu boas vindas aos Estados Unidos”, fala com alívio.
Ricardo Amar e sua família são cidadãos americanos, vivem em Orlando, e recebem todo respaldo do país. Durante o seu relato, o brasileiro mostrou-se sensível ao relembrar fatos que marcaram a sua vida. “Sou muito grato a esse país que me acolheu e acolheu a minha família. Aqui existe respeito, segue-se o manual. Têm brasileiros que se irritam com o jeito americano, mas é o correto, o jeito que dá certo”, enfatiza. “E as pessoas que tiveram problemas no Brasil, de segurança, e que estejam enquadradas nas regras do asilo político, com documentos de comprovação, devem entrar com o pedido de asilo político. A verdade sempre prevalece”, finaliza.


WaltherAlvarenga

Walther Alvarenga