Quando masterização é assunto sério (parte 2)

Quando masterização é assunto sério (parte 2)

Edição de abril/2019 – p. 42

Quando masterização é assunto sério (parte 2)

Mercado musical

NG – Seus clientes do segmento musical tem por objetivo fabricar CDs ou comercializar a música apenas digitalmente, via streaming?

CC – Os CDs realmente estão vivendo o fim dos seus dias. Alguns poucos clientes ainda lançam CD físico, como os produtores de música eletrônica, mas na grande maioria dos casos, os lançamentos têm sido em formato digital.

NG – O mercado de música vem apontando declínio em vendas de música. Ao longo dos anos você vem identificando redução do número de clientes?

CC – Realmente muitas mudanças estão ocorrendo no mercado da música e já tivemos tempos de mais trabalhos. Eu não posso afirmar que o número de produções diminuiu, mas é nítido que está seguindo por outras direções. Hoje o número de singles é muito maior que o de álbuns ou EPs, o que consequentemente diminui o volume de trabalho para os profissionais do áudio. Também tem o fator de que quase todo músico tem o seu próprio home-studio, e o acesso à informação faz com eles tentem se virar por conta própria cada vez mais. Até mesmo pela perda de valor da música no mercado, os orçamentos caíram e as produções acabam sendo cada vez mais independentes até na parte de áudio. Claro que existe um impacto no resultado, mas é a realidade que estamos vivendo. Até por isso muitos técnicos mais experientes migraram para a área de cursos e ensino, pois acredito ser o que o mercado mais busca hoje. Da minha parte o que estou fazendo é um trabalho de masterização mais voltado ao suporte para o produtor e mixagem. Os produtores independentes de hoje, por mais que estejam buscando informação, muitas vezes carecem de experiência e recursos, como uma condição de audição ideal, e esse trabalho de coaching por parte do técnico de masterização tem sido mais importante do que nunca!

NG – Em média, quantas músicas você masteriza por mês?

CC – Voltando a resposta anterior, a queda na produção de álbuns, sem dúvida, impactou o número de músicas que chega para os profissionais de áudio. Há dez anos o número de álbuns era muito maior e eu chegava a masterizar uma média de 80 a 100 músicas por mês. Hoje com o mercado mais voltado para os singles, tenho feito algo em torno de 30 a 40 singles por mês.

NG – De uma forma geral, quais as características de seus clientes? São eles artistas solo, como cantores, ou bandas?

CC – Vejo que a tendência hoje são mais de artistas solo ou, no máximo, duplas. O conceito de banda diminuiu com a queda da popularidade das bandas de rock e suas vertentes. Os artistas de hoje seguem por caminhos mais pop e eletrônicos. Claro que ainda existem bandas, mas é nítido que isso está diminuindo enquanto as produções eletrônicas estão aumentando.

Recursos

NG – O processo de masterização realizado hoje oferece mais (e melhores) recursos tecnológicos para realização do processo? Se positivo, quais são eles?

CC – Legal, este é um assunto que gosto bastante, pois sou um grande incentivador de novas tecnologias. Minha proposta de trabalho está totalmente fora dos padrões clássicos de masterização. Hoje eu não trabalho mais com caixas de som. Estou utilizando um fone high-end de armadura balanceada super moderno, com uma resolução altíssima. Migrei para o fone pela praticidade de não depender de uma sala e também pelo fato de nós estarmos vivendo a era dos fones. Hoje todo mundo ouve música em fones e na minha visão de futuro, faz sentido trabalhar desta forma. Além de que a riqueza de detalhes que esse fone me entrega, que é impressionante, consigo julgar detalhes muito menores. Quanto ao processamento eu também tenho trabalhado com novas tecnologias. Hoje utilizo um sistema híbrido. É uma espécie de processamento analógico controlado digitalmente, com total recall e controle via computador, como se fosse um plugin. Soa incrível, é leve, prático e oferece uma grande variedade de recursos que podem ser acessados muito facilmente. Vejo que algumas marcas já estão trabalhando em tecnologias semelhantes e penso que o futuro seja algo nesta direção. A verdade é que o processamento analógico também está sofrendo um declínio e eu acredito que assim como o CD não deve durar muito mais tempo. Existem aparelhos analógicos excelentes, sem dúvida, mas com a queda dos orçamentos o mercado da música não movimenta mais dinheiro que justifique o uso de equipamentos tão caros. Com o avanço do áudio digital, novas possibilidades estão surgindo e o mercado caminha forte nessa direção. Por isso é importante estar aberto às novas tendências. O universo digital tem oferecido opções cada vem mais empolgantes.

NG – Há algum tempo, músicos e produtores são ávidos por masterização que ofereça pressão. Seus clientes também procuram por esse tipo de masterização?

CC – Sim, com certeza, isso é uma opção artística que muitos clientes querem seguir. Eu particularmente não recomendo exageros de pressão e volume, mas não vejo também como algo tão negativo. Meu trabalho é ajudar o artista a chegar no resultado que ele quer e dependendo do estilo musical, esta pressão simplesmente faz parte. Só pra dar um exemplo, música eletrônica sem pressão não soa correto, e é preciso entender isso. Sempre oriento os clientes e procuro chegar a um limite máximo que não comprometa a sonoridade, mas que também não destoe dos padrões e do contexto onde aquela música será ouvida. A música segue tendências, e acho importante estarmos atentos a isso e ajudarmos os artistas a atingirem seus resultados sem fazer julgamentos do que é certo ou errado. No final das contas, as intenções artísticas prevalecem.

NG – Você acredita que o áudio 3D seja o novo rumo da música, assim como no passado foi o CD? Por quê?

CC – Penso que o áudio 3D seja uma nova possibilidade até pela predominância do uso de fones hoje em dia, que possibilitam a experiência de percepção 3D e binaural. Não sei se isso chegará a ser um padrão. Acho que a música precisa se ajustar e estar mais favorável ao uso destas novas tecnologias. Como falamos na questão anterior, a tendência do mercado ainda é de muita pressão. Geralmente são músicas que oferecem pouco espaço, e sem espaço você não consegue trabalhar com 3D de forma tão bacana. Mas sem dúvida que o futuro da música terá muitas possibilidades, e tenho a certeza que muitos artistas ainda vão explorar mais recursos deste tipo, o que será muito interessante!

Masterizar

Passo final no processo de pós-produção musical. Em linhas gerais, masterizar é balancear os elementos de uma música, como volume e equalização, e assim otimizar a reprodução em todo o tipo de sistema de som, com também prepará-las para serem utilizadas em streaming, videoclipe e CDs. É na masterização, por exemplo, que são ajustados os volumes das músicas contidas em um disco, de modo a torná-las mais uniformes.