Por que analgésicos fortes podem fazer a sua dor ficar ainda pior?

Por que analgésicos fortes podem fazer a sua dor ficar ainda pior?

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DEZ/2016 – pág. 36

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Tudo começa com analgésicos simples (anti-inflamatórios não hormonais tipo aspirina) e vai subindo de complexidade e poder de fogo sob tecidos e células do sistema nervoso à medida que a sensação desagradável resiste. Se a aspirina não resolve, passa-se então para os chamados opioides, substâncias sintéticas ou não de ação semelhante ao ópio. Nesta fase, entram em cena os remédios à base de codeína e tramadol (opioides fracos) e, se necessário, opioides potentes cujo agente emblemático é a morfina. Em casos de dores crônicas, são usados antidepressivos e anticonvulsivantes, drogas destinadas originalmente ao tratamento de depressão e epilepsia.  Esse conjunto de recursos provavelmente é suficiente para sufocar os tipos mais comuns de dor e aliviar aqueles relacionados a quadros graves como o câncer e fibromialgia (moléstia que causa dor em todo o corpo). O abuso de analgésicos está levando a algumas consequências: com o uso contínuo de químicos, o cérebro passa a não produzir endorfinas (um analgésico natural) e, assim, a dor pode se transformar em uma manifestação recorrente e intensa.

Você pode nunca ter ouvido falar, mas um fenômeno deixa cientistas perplexos: a hiperalgesia induzida por opiáceos. Ele não é nada mais do que uma sensibilidade exagerada à dor em pessoas que tomam drogas derivadas do ópio e cuja função é exatamente amenizar dores (entre as substâncias, estão morfina, metadona, oxicodona, codeína, heroína etc.). Alguns estudos pelo mundo tentam entender o que ocorre no corpo para gerar esta reação, como mostra o site da “Revista Science”. “Quanto maior a dose, mais sensível à dor seu corpo pode ficar”.

Quando citamos reação exagerada à dor, não é pouca coisa. Em um estudo na Austrália em que a pessoa deveria mergulhar a mão em água gelada, um pesquisador deixou seu braço por dois minutos no recipiente. Já pacientes que tomavam metadona duraram, em média, 15 segundos. Em altas doses, analgésicos à base de ópio ampliam a dor ao mudar os sinais emitidos para o sistema nervoso central. Imagine se todas as medicações para diabéticos aumentassem o açúcar no sangue em vez de diminuir”. Jianren Mao, pesquisador de dor no Hospital Geral de Massachusetts, nos EUA PUBLICIDADE.

A relação feita por Mao, que estuda a hiperalgesia em humanos e roedores há mais de 20 anos, é a mesma do que ocorre com os opiáceos. O cientista é um dos poucos interessados em estudar o fenômeno em meio a uma epidemia de uso de opiáceos bastante discutida em países como os Estados Unidos.

No fundo, a sensibilidade extrema à dor faz sentido, pelo menos para alguns especialistas. O corpo humano tem a necessidade de sentir dor e ela deve ser preservada, como explica o anestesiologista e farmacologista Martin Angst, da Universidade de Stanford. Afinal, para ele, a natureza não inventou a dor apenas para nos torturar. A sua biologia ataca de volta e diz: “Eu estou vendada para a dor por causa de todos esses químicos. Eu preciso ser capaz de sentir dor de novo” (Martin Angst).

O argumento de Angst tem sentido: a dor serve para recuarmos de um fogão quente ou não mexer uma perna lesionada enquanto ela se recupera. Nos momentos em que é crucial que não sintamos dor – por exemplo, quando nossa vida está em jogo e precisamos correr de uma situação -, o corpo tem uma maneira de passar por cima dela, liberando seus próprios opiáceos que bloqueiam a dor.

O médico Jianren Mao foi um dos primeiros a investigar a hiperagelsia – em 94, já identificou que a sensitividade em ratos mudava dependendo da dose de substâncias que tomavam. Nos anos 2000, com médicos considerando seguro receitar medicamentos à base de opiáceos para dores crônicas, Mao passou a dar especial atenção à crescente população de pacientes.

Nas últimas duas décadas, o número de mortos por opiáceos prescritos nos Estados Unidos quadruplicou, atingindo 21 mil em 2014 – as overdoses aumentaram assim como as receitas. Há ainda quem use substâncias para fins recreativos, como a heroína. Em altas doses, os opiáceos podem matar, especialmente quando combinados com álcool ou outras drogas. Não sei se você pode considerar exemplar um médico que esteja fazendo mais mal aos seres humanos do que nós alcançamos com a forma liberal de prescrever opiáceos”. David Clark, anestesiologista em Stanford.

A hiperagelsia investigada por Mao pode ter boa culpa nas mortes. As pessoas podem procurar doses maiores à medida que sua dor piora – e o médico aumenta a dose, quando o certo deveria ser diminuir. O número de pessoas que têm a hiperagelsia induzida por opiáceo e a dose que tomam de medicamento ainda são incertos. Por envolver tolerâncias, o fenômeno segue bem difícil de diagnosticar e controlar.

Ninguém gosta de sentir dor e é natural que tentemos evitá-la. Mas a velha vilã tem o seu lado positivo: ela é um alarme que nos adverte sobre ameaças a nossa integridade. Suprimi-la indiscriminadamente com analgésicos pode fazer mais mal do que bem. Na ânsia de se livrar a qualquer custo da sensação dolorosa, mediante o uso de analgésicos, relaxantes musculares, anti-inflamatórios e outros medicamentos, as pessoas podem estar se privando de seu sinalizador mais perfeito. Um alarme precioso que a natureza instalou no organismo para soar a cada ameaça de dano ou desequilíbrio. “A dor é biologicamente necessária”, ela nos protege advertindo-nos quando ultrapassamos nossos limites e corremos riscos de prejuízos.

Fonte: Uol Notícia e Saúde

http://www.dtmnuncamais.com.br/


Elaine Peleje Vac
elaine@nossagente.net
(Médica no Brasil)
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