Os que dizem: Senhor, Senhor!

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MAR/14 – pág. 52

“Nem todo o que me diz ‘Senhor, Senhor’ entrará no Reino dos Céus, mas sim o que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus” – Jesus (Mateus, 7:21).

Foto: Reprodução
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O que entendemos por “entrar no reino dos Céus”? Houve uma época (e ainda há escolas religiosas que assim ensinam) em que se acreditava ser o céu, mencionado nas escrituras, um lugar determinado no Universo, para onde iriam as almas que se salvassem. Hoje sabemos, com segurança, que nenhum homem entra, após a morte, num céu definitivo, nem num inferno definitivo, num lugar de gozo eterno ou de sofrimento eterno. O céu é a sua consciência de crédito, o inferno é sua consciência de débito. A morte não assinala nenhum fim definitivo, nem um princípio novo; a morte é uma transição para outro ambiente de existência; é uma continuação da vivência terrestre, com todos os seus positivos e com todos os seus negativos. O homem, após-morte, leva consigo todos os seus créditos e todos os seus débitos, que são o seu céu e o seu inferno.

O homem é um Espírito que anima uma carne. O Espírito é criado simples e ignorante, e com um potencial a ser desenvolvido, o que ele fará ao longo do tempo, utilizando o livre-arbítrio e os recursos que o Pai a todos concede. Jesus nos assegurou que somos luzes, que o “reino dos Céus” está em nós. São os germens do saber e das virtudes que estão em nós desde o início e que nos cabem desenvolver pelo trabalho, pelo esforço próprio. Portanto, “entrar no reino dos Céus” significa o despertar da consciência, a evolução espiritual, o desenvolvimento das qualidades que o Pai colocou em nós. Assim como a semente, que germina, nasce, cresce e se transforma em árvore, o Espírito vai despertando, conhecendo as Leis Divinas e aprendendo a obedecer-lhes, porque compreende que este é o seu destino. Esta a finalidade da vida: a evolução espiritual.

Como conseguir isto? Jesus nos ensina que não é com palavras, com aparências, mas com ação, com vivência. Não é dizendo “Senhor, Senhor”, ou seja, ostentando rótulo religioso, mantendo aparências de quem acredita e observa os ensinos, mas sim se empenhando, efetivamente, em conhecer e viver de acordo com o que Jesus nos ensinou no evangelho. Fazer a vontade do Pai, que está nos Céus, implica conhecer essa vontade, que são as suas Leis, e viver de acordo com essas mesmas Leis, que são de solidariedade, de perdão, de tolerância, de amor e justiça.

No Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec, comentando o versículo citado de início, considera: “Todos os que confessam a missão de Jesus, dizem: Senhor, Senhor! Mas de que vale chamá-lo Mestre ou Senhor, quando não se seguem seus preceitos? São cristãos esses que o honram através de atos exteriores de devoção e, ao mesmo tempo, sacrificam-no no altar do egoísmo, do orgulho, da cupidez e de todas as paixões? São os seus discípulos esses que passam os dias a rezar e não se tornam melhores, nem mais caridosos, nem mais indulgentes para com os seus semelhantes? Não, porque à semelhança dos Fariseus têm a prece nos lábios e não no coração”.

Se estamos interessados em buscar evolução e aprimoramento, podemos estar certos de que a vida nos coloca nos lugares mais apropriados para trabalhar por esse objetivo. Não adianta cobiçarmos a situação dos outros ou alegar dificuldades. “Floresça onde está” – ensinam os que conhecem as leis divinas. Não vale estabelecer condições para iniciar o esforço. Se eu tivesse saúde, se tivesse dinheiro, se possuísse mais cultura, se contasse com companheiros melhores… Os recursos de que dispomos, as situações que nos envolvem foram planejadas para nos oferecer as lições de que necessitamos, os exercícios apropriados ao nosso aperfeiçoamento. Emmanuel, no “Livro da Esperança”, lição número 60, lembra-nos que outras pessoas, com maiores dificuldades que as nossas, conseguiram realizar trabalhos extraordinários. E conclui o sábio instrutor: “(…) é necessário aceitar a nós mesmos, tais quais somos, sem acalentar ilusões a nosso respeito, mas conscientes de que a nossa recuperação, melhoria, educação e utilidade no bem dos semelhantes, na sustentação do bem de nós mesmos, podem principiar, desde hoje, se nós quisermos”.

José Argemiro da Silveira
Autor do livro: Luzes do
Evangelho, Edições USE