O trabalho voluntário

O trabalho voluntário

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FEV/14 – pág. 52

“Eis que o semeador saiu a semear” – Jesus (Mateus, 13:3)

Foto: Reprodução
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O desemprego é um fantasma que ronda a casa de muitos. Chefes de famílias, colocados em firmas sólidas, importantes, com um ganho assegurado, de um momento para outro veem tudo a desmoronar. E isto ocorre não só aqui, mas em todo mundo.

Para os trabalhadores voluntários, nas instituições beneficentes, serviço não remunerado naturalmente, ocorre um fenômeno oposto. Sempre falta gente para a realização das tarefas. Muitos são ocupados. Trabalham o dia todo, às vezes em mais de um emprego, não sobrando tempo para o trabalho voluntário. Mas há pessoas com disponibilidade de tempo e que poderiam trabalhar em favor do próximo e não o fazem porque ainda não perceberam o valor desse trabalho, para elas próprias, para o seu próprio bem. E há pessoas, com muitos compromissos, e que arranjam tempo para dedicar algumas horas em favor do próximo.

Doando-se em favor do próximo, algumas horas por semana, muito ganhariam em realização pessoal, sentindo-se úteis. Ajudando o semelhante, ajudamos a nós mesmos, porque aprendemos a servir, aprendemos a amar. E quem ama é feliz. Um cabeleireiro, nosso conhecido, uma vez por semana, num período do dia, deixa de atender a clientela em seu estabelecimento, e vai cuidar de crianças excepcionais, em casa beneficente da cidade. Um amigo nos contou que, certo dia, em São Paulo, quando saía de uma Entidade Beneficente alcançou um senhor de certa idade que ia na mesma direção. Parou o carro e lhe deu carona, entabulando conversa. Não se tratava de um assistido, como pensara nosso amigo, e sim de alguém que ali ia, uma vez por semana, para fazer a contabilidade da Entidade, como voluntário. Aquele senhor, após as tarefas que ali desenvolvia, se dirigia a um hospital, onde passava o período da tarde, ajudando os enfermeiros a cuidar dos doentes. Nosso amigo aplaudiu sua dedicação, dizendo-lhe que ele vivia os princípios espíritas, servindo o próximo. Porém, para sua surpresa, o bom samaritano lhe informou que não era espírita. Admirava o trabalho caritativo dos espíritas, mas pertencia a outra escola religiosa. Sentia prazer em ser útil, e onde encontrava oportunidade de trabalho, procurava atender. Temos muito que aprender com pessoas assim. Já compreenderam o valor do trabalho no Bem. Não estão preocupadas com teorias, nem em aparecer. Não gastam tempo com conversas inúteis.

O trabalho voluntário deve ser realizado com amor e responsabilidade. No momento em que o voluntário assume o compromisso de comparecer em tais dias e horas é necessário honrar o compromisso, com disciplina e dedicação. Não é porque o serviço não é remunerado que pode não ser levado a sério. Não se deve faltar, chegar atrasado, enfim por qualquer motivo deixar de comparecer, o que acaba comprometendo a execução das tarefas.

O compromisso é o mesmo. O voluntário não recebe pagamento em dinheiro, mas não é por isso que o dever pode deixar de ser cumprido. Não há a figura do patrão material, mas os mentores espirituais nos observam e avaliam nosso desempenho. O compromisso, seja para um trabalho voluntário, seja na realização de tarefas administrativas, na divulgação, ou na participação das atividades doutrinárias da casa precisa ser tratado com a mesma responsabilidade, e até com mais seriedade, que dedicamos aos compromissos materiais.

Emmanuel, analisando o versículo do evangelho citado de início (lição 64, do livro Fonte Viva), lembra que Jesus “não nos fala que o semeador deve agir, através de contrato com terceiras pessoas, e sim que ele mesmo saiu a semear”. Necessária a participação direta no trabalho. É fazendo que aprendemos. Enquanto ficamos na teoria, na conversa, nada acontece. Não ocorrem mudanças em nosso íntimo. Precisamos encontrar o nosso lugar de trabalho. Necessário abrir mão de nossos pontos de vista para nos devotarmos ao serviço do próximo, diz Emmanuel.

Semear, como fala o Evangelho, não é só ensinar. Semeamos mais pelos atos, por atitudes, do que pelas palavras. O que fazemos tem uma força persuasiva muito maior do que as palavras. A diferença entre Jesus e outros mestres que vieram antes e depois d´Ele é exatamente esta: Jesus não só ensinou, mas sobretudo viveu o que ensinou.

José Argemiro da Silveira
Autor do livro: Luzes do
Evangelho, Edições USE