O que fazer quando a depressão é iminente

O que fazer quando a depressão é iminente

Todos, indistintamente, atravessam a linha tênue entre o isolamento e a inquietação. O perigo é iminente. Em 2016, na Flórida, mais de três mil pessoas cometeram suicídio, a décima causa de morte, mais do dobro dos homicídios. O “Jornal Nossa Gente” ouviu especialistas no assunto

Edição de junho/2017 – pág. 16

Na era da mecanização e da desumanização o individuo se distancia, impulsionado pelo avanço da tecnologia, na maioria dos casos, vivendo em função de compromissos excessivos, esquecendo-se às vezes de prestar atenção nas pessoas do seu círculo de amizade. Os mecanismos de comunicação – Facebook, whatsApp -, são armas poderosas – de duas vertentes -, pois se há facilitação em resolver situações de interesse, abre-se uma cratera no convívio familiar. Por algum motivo, cada um foi para o seu lado, criando precedentes perigosos para a depressão e o suicídio. A depressão é um problema de saúde pública, e é o mal do século 21, junto a síndrome do pânico. Todos, indistintamente, atravessam diariamente a linha tênue entre o isolamento e a inquietação. O perigo é iminente.

Em 2016, na Flórida, mais de três mil pessoas cometeram suicídio, a décima causa de morte, mais do dobro dos homicídios. No grupo, pessoas entre os 25-34 anos de idade, segundo dados da Psicóloga, a Dra. Rosário Ortigao. Em meio aos inconvenientes, que têm causado depressão e levado pessoas ao suicídio, o “Jornal Nossa Gente” foi ouvir especialistas no assunto para saber o que de fato vem ocorrendo. Quais as causas para essa fatalidade que nos surpreende a cada dia. Desistir do viver, “jogar a toalha”, é um caminho nebuloso, com resultados desastrosos. Uma trajetória sem volta. Afinal, a quem devemos recorrer?

Para a terapeuta familiar, Sandra Freier – que cursou Terapia Familiar – a depressão vem atingindo principalmente mulheres e adolescentes, com efeitos devastadores. “O problema enfrentando por mulheres e adolescentes é a carência muito grande com a falta dos pais, a distância da família, solidão e a cultura do país. E se você vive em um ambiente onde as pessoas são depressivas, isso gera frustração. O fator social é muito importante para o equilíbrio emocional”, complementa Sandra. “Os pais, por exemplo, devem conversar mais com os filhos e procurar entendê-los. Têm adolescentes depressivos e que precisam de apoio familiar”.

“A mulher é mais sensível, busca muito mais a conexão. E conta nesse contexto à realização pessoal e profissional. O excesso de responsabilidade, o marido fora porque trabalha demais, e às vezes é a própria mulher não tem tempo pelo trabalho exaustivo, o que acaba gerando a insatisfação. Há um desgaste físico e emocional e isso leva à depressão”, alerta Sandra. “A partir dos trinta e cinco anos a mulher precisa se cuidar mais. Ás vezes ela fica constrangida em pedir ajuda, sente vergonha. Esse o caminho para o caos emocional porque se sente culpada e entra para o isolamento. Infelizmente uma condição que pode levar ao suicídio”.

“Na América pessoas não têm tempo para lazer”

“Aqui na América as pessoas não têm tempo para o lazer pelo excesso de compromissos. Aí fica sem tempo para a família e se descuida da própria saúde. E quando a pessoa fica entra em depressão, enxerga as coisas com negativismo, acreditando que não há solução para o problema”, enfatiza Sandra. “A dor da alma é muito forte e a pessoa não consegue e não quer lidar com a dor da alma. Isso requer ajuda de terapia porque o indivíduo entra para o isolamento, o que poderá ser fatal”.

“Tenho tido contato com os brasileiros, através do meu trabalho com terapia e vejo o quanto precisam de ajuda. Somente a psicologia não preenche o vazio que a dor da alma deixa em nós, então é pertinente se ocupar com o trabalho voluntário, ajudar pessoas. Essa iniciativa de se solidarizar com quem precisa, ajuda a preencher o vazio, além do tratamento psicológico”, prossegue a terapeuta. “Precisamos da realização pessoal, mas a fé em Deus é de extrema importância”, avisa.

“Não podemos classificar os casos de depressão, há uma série de fatores que contribuem para o avanço da depressão. Por exemplo, quem está chegando ao país, vem com muita expectativa de vida, entretanto, a realidade é bem diferente. E isso causa frustração e o vazio não é preenchido. Temos também o caso da bipolaridade e isso atinge a todas as classes, seja rico ou pobre. A depressão não faz acepção de classe social. Todos nós estamos sujeito a ela”, prossegue Sandra.

Perguntada sobre o alerta, ou seja, os cuidados nos prevenirmos contra a depressão, Sandra foi enfática: “É preciso prestar atenção no sintoma. A pessoa que não dorme direito ou que dorme em excesso, que se isola e não se alimenta, pode ser indício de depressão. Busque os amigos, fale com o pastor ou o padre de sua igreja. Não tenha vergonha de buscar ajuda. Às vezes os amigos e os familiares fazem um prejulgamento, mas é preciso ouvir a pessoa. Hoje os mecanismos de comunicação como o WhatsApp, o Facebook nos distanciam. Ficamos individualistas e não estendemos às mãos para quem precisa de ajuda. Os pais ignoram os filhos adolescentes. Todos estes mecanismos isolam pessoas e as levam ao suicídio. Temos de prestar mais atenção nas pessoas”, finaliza a terapeuta Sandra Freier.

Suicídio, caminho sombrio

Segundo dados da Psicóloga Dra. Rosário Ortigao, em 2016, na Flórida, mais de três mil pessoas cometeram suicídio, a décima causa de morte; mais do dobro dos homicídios. No grupo pessoas entre os 25-34 anos de idade é a 2ª causa de morte, e entre os 10-24 anos, a 3ª causa de morte. Sabemos que o suicídio é o ato de se tirar a vida voluntariamente. Mas quem voluntariamente chega a tal desespero? Quem, ao contrário de qualquer outro animal, escolhe morrer de propósito?

“Como muitas outras caraterísticas genéticas, o suicídio, a depressão, a psicose e outras doenças, mentais ou não, são hereditárias; o alcoolismo, ou tendências para comportamentos aditivos, também. O abuso de drogas ou álcool potencializam os suicídios. Não misture antidepressivos ou remédios para a ansiedade, ou para outras condições, com álcool, substância, em si, depressiva”, alerta.

“O suicídio é um ato de angústia profunda e através do qual, deturpadamente, a pessoa que se suicida busca alívio ou vingança; no caso de psicose, é um ato congruente com o que o cérebro entende que deve fazer, numa realidade ilógica e torturadora. Infelizmente, muitos dos suicídios na adolescência são o resultado de ‘bullying’ (perseguições físicas ou mentais por outros adolescentes ou adultos), muitas vezes porque atravessam a difícil e corajosa jornada de identificação sexual. Também não é uma escolha a identificação heterossexual ou homossexual ou bissexual ou transexual”, informa.

“A maior parte das pessoas tem uma depressão, pelo menos uma vez na vida. E diferente de nos sentirmos aborrecidos ou tristes, de vez em quando. Se se sente consistentemente assim, talvez esteja deprimido. E melhor averiguar se o caso é crítico. Se o está afetando no trabalho, nas suas relações ou nos seus autocuidados (como alimentação). Neste caso, fale com um profissional de saúde. O tratamento para a depressão pode variar. Tal qual qualquer outra doença cujo tratamento depende do seu grau e do médico ou do indivíduo”.

“Inscreva-se em aulas que lhe interessem, faça voluntariado, envolva-se em comunidades sociais. A depressão contribui para o isolamento. A participação social é um antidepressivo, natural. O ser humano só está satisfeito quando encontra paz espiritual, busque-a, leia, converse, participe”, orienta Dra. Rosário Ortigao.