O dom da fúria

O dom da fúria

Infância como brigão foi a origem do pugilista baiano Robson Conceição

por Luiz Humberto Monteiro Pereira

jogoscariocas@gmail.com

Pugilista baiano Robson Conceição – Fotos: Luiz Humberto Monteiro Pereira
Pugilista baiano Robson Conceição – Fotos: Luiz Humberto Monteiro Pereira

Nos final dos anos 90, o pequeno Robson Conceição era o terror de Boa Vista de São Caetano, bairro da periferia de Salvador. Era raro o dia em que não arrumava uma briga. “A garotada de lá sofria comigo. Brigava por qualquer coisa. Queria seguir os passos de meu tio, que também brigava muito”, lembra o boxeador que, aos 27 anos, representante do Brasil nas Olimpíadas do Rio de Janeiro na categoria leve, para atletas com até 60 kg. Mas nem só de brigas se fez a infância de Robson, que costumava acordar às 4 h da madrugada para ajudar a avó na banquinha de verduras. “Vendi picolé na praia, carreguei compras e trabalhei como ajudante de pedreiro”, conta o pugilista que, em 2015, foi medalha de bronze no Mundial de Doha, no Qatar, ouro no campeonato da American Confederation Boxing em Vargas, na Venezuela, e ouro no Torneio Internacional de Boxe, evento-teste para as Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro.

Robson participou das Olimpíadas de Pequim, em 2008, e de Londres, em 2012, mas nas duas vezes foi eliminado por atletas “da casa”. Nas Olimpíadas do Rio, o boxeador anfitrião, que terá todo o apoio da torcida, é ele. “Vai ajudar sim! Teremos tudo a favor: ambiente, torcida e muita energia positiva”, comemora Robson, que é casado com a boxeadora Erika Mattos – que em 2012, em Londres, tornou-se a primeira brasileira a subir num ringue de boxe nas Olimpíadas – e pai da pequena Sofia. Após os Jogos Rio-2016, pretende se profissionalizar no boxe. “Quero ser campeão mundial no profissional. Uma medalha olímpica seria um ótimo incentivo e ajudaria muito no patrocínio”, acredita o terceiro-sargento da Marinha, integrante do Programa de Atletas de Alto Rendimento das Forças Armadas. “Esse programa foi fundamental para a evolução do boxe brasileiro”, avalia.

Jogos Cariocas – Como foi o seu começo no boxe?

Robson Conceição – Sempre fui um moleque muito brigão na rua. Tinha um amigo, o Luiz, que treinava em uma academia. Como eu não tinha condições de ir com ele, tudo que aprendia lá ele me ensinava no quintal de casa. Eu não tinha luvas, mas improvisava usando sandálias de borracha, presas nos punhos com bandagens. Um dia, essa mesma academia criou um projeto social para meninos dos 13 aos 16 anos. Pedi para minha avó me inscrever e foi ali que tudo começou, com os conselhos do meu técnico Lino. Como eu não tinha dinheiro para pagar o transporte, ia correndo, treinava e voltava correndo para casa, que ficava a 9 km. No início, treinava para poder brigar melhor na rua. Depois, a cabeça foi mudando e decidi que queria ser atleta.

Jogos Cariocas – Como é a sua rotina diária de treinos?

Robson Conceição – Treino em São Paulo, junto com a Confederação Brasileira de Boxe, e em Salvador, na academia Champion. Faço treinos técnicos pela manhã e treinos físicos à tarde. Gosto de treinar muito forte. Acho que favorece a minha resistência. Vou “comer” treino para poder trazer uma medalha para o Brasil nas Olimpíadas do Rio de Janeiro.

Jogos Cariocas – Qual foi seu momento mais emocionante, dentro do esporte?

Robson Conceição – Foi nas oitavas de final do Mundial de 2011 em Baku, no Azerbaijão, quando ganhei do ucraniano Vasyl Lomachenko. Ele era considerado na época o melhor atleta da categoria e só havia perdido uma luta das 300 que havia disputado. Ganhei por 20 a 19. Mas depois da luta, na madrugada, fizeram uma reunião e inverteram o resultado para 21 a 20 a favor dele, alegando que ele havia sido penalizado injustamente por um golpe baixo. Foi lamentável!

Jogos Cariocas – Como estão as chances do Brasil no boxe para as Olimpíadas de 2016?

Robson Conceição – Temos chance de sair com várias medalhas. Estamos nos preparando muito bem. O boxe está muito nivelado. Quem estiver melhor no dia, leva! Vou bem mais confiante que nas Olimpíadas de 2008 e 2012. Estou mais experiente, maduro e vou ter a torcida toda a meu favor. O objetivo é superar a prata do Esquiva Falcão nas Olimpíadas de Londres, em 2012. Estou trabalhando para ser campeão olímpico.

Jogos Cariocas – Já sonhou com os Jogos Rio 2016?

Robson Conceição – Sonho todos os dias! Defender o meu país nos Jogos Olímpicos será algo único, um momento especial. Os Jogos do Rio serão muito bons para o público também, pois o povo brasileiro adora receber visitantes. E certamente essa será a grande diferença dessas Olimpíadas.

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