O Brasil depois da Copa

Os turistas adoraram o reduto brasileiro e prometem voltar. E segundo estatísticas, 70% dos estrangeiros que estiveram no país para acompanhar os jogos consideraram ótimo o Mundial. E passadas as competições inicia-se escalada para as eleições presidenciais

Walther Alvarenga

Foto: Ricardo Corrêa
Foto: Ricardo Corrêa

O Brasil volta a respirar a sua realidade, após a realização da Copa do Mundo de 2014, que abriu espaço para seleções de 32 países, mostrando ao mundo que as depredações, os assaltos e o risco de sequestro foram contornados pelo forte esquema de segurança, dentro e fora dos estádios. Evidente que não faltaram atos de protesto em alguns pontos de São Paulo, do Rio de Janeiro e de Belo Horizonte, inexpressivos aos olhos mídia tupiniquim, que optou em fazer vista grossa, evitando o fortalecimento destes confrontos. Isso garantiu tranquilidade aos turistas que estiveram em terras brasileiras e puderam desfrutar da música, da culinária e até mesmo do pastel de carne que, surpreendentemente, agradou o paladar dos estrangeiros. Os pasteizinhos foram à bola da vez, procurados pelos jogadores europeus, atraídos pelo sabor considerado “fantástico”.

Entretanto, os 32 bilhões investidos no Mundial com a construção de estádios e das obras não concluídas, voltou a ser questionado nos meios de comunicação. O equívoco neste contexto é de que o Brasil preparou uma grande festa, mas os donos da casa ficaram à mercê das comemorações, diante do fiasco da Seleção Brasileira, que tomou dez gols em apenas dois jogos, frustrando o título de hexacampeão. Nada saiu a contento e o chamado país do futebol ficou relegado ao quarto plano, sem contar com o deboche que invadiu as redes sociais. O apelidado time dos chorões – o Brasil, óbvio – tornou-se referência negativa na história das Copas do Mundo como a equipe mais vazada na final das competições. Uma desonra pertinente à corrupção e ao subfaturamento, administrados por governantes e pelos cartolas da bola. Há que diga que a derrota esmagadora para a Alemanha, foi um castigo dos céus.

BRT (Bus Rapid Transit) - Recife - Foto: blogs.diariodepernambuco.com.br
BRT (Bus Rapid Transit) – Recife – Foto: blogs.diariodepernambuco.com.br

O Brasil aspira às eleições presidenciais, exigindo do cidadão brasileiro reflexão na hora do voto. É o recomeço de uma escalada de ímpeto entre os que pleiteiam o poder e que falam em mudanças. Uma árdua missão nos vindouros quatro anos, diante de uma população arredia e do staff político desacreditado. A corrupção desagregou a confiança do povo, portanto, é preciso aparar arestas e colocar o país nos trilhos. Mas é pertinente que haja consenso para conter a ira dos injustiçados, pela falta de trabalho e de perspectivas em um contexto corruptivo.

E apesar dos inconvenientes, houve trégua do povo brasileiro que respeitou os turistas e contornou as insatisfações, em meio a uma enxurrada de investimentos mirabolantes em obras inacabadas, exemplo de Recife. O BRT (Bus Rapid Transit) construído para agilizar o acesso de torcedores à Arena Recife, entrou em operação às vésperas do Mundial, mas de forma incompleta. Das 45 estações prometidas, apenas três funcionaram.

Outro exemplo drástico foi o viaduto em construção na capital mineira, que desabou na Avenida Pedro I, na Pampulha, matando duas pessoas, revoltando a população. Descontrolado, um jovem de Belo Horizonte fez da sua indignação um alarde a céu aberto, questionando as autoridades e pedindo justiça aos que perderam a vida embaixo dos escombros. Por pouco o rapaz exaltado, não morreu soterrado. O assunto, entretanto, foi pouco difundido pelos meios de comunicação – principalmente nas redes de televisão – evitando ofuscar o brilho do Mundial. Havia um pacto velado para não propagar a violência.

especial2E enquanto a bola rolava no gramado, do lado de fora dos estádios o que se via era semblante equivocado de brasileiros, inconformados com o descaso das autoridades. Os homens do poder se calaram diante da tragédia em Minas Gerais. Eles – os políticos – não se manifestaram, repousando no mais absoluto silencio, típico de quem deixa para indignar-se depois. A cobrança tardia foi estratégica, afinal, reclamar em plena Copa do Mundo é incorrer no erro de não ser visto e ouvido, pois os holofotes se voltavam para as seleções e seus respectivos países. E na guerra de egos é preciso estratégia até mesmo na hora de pressionar. Que não esqueça o nobre leitor de que é tempo de campanha eleitoral no Brasil, dos discursos infundados, e plateia é essencial nesse glorioso momento para compensar os devidos “esforços”.

E por falar em campanha política no Brasil, o período da busca pelo voto nas ruas e na internet começou desde o dia 6 de julho. As eleições acontecem no dia 5 de outubro para presidente, senador, deputado federal e estadual e governador. No rádio e na televisão, a propaganda institucional de candidaturas e partidos está proibida desde o dia 1º – o horário eleitoral gratuito começa somente em 19 de agosto. O período das campanhas é marcado por uma série de normas que buscam dar igualdade de oportunidade às candidaturas.

Lucros & dividendos

E se por um lado aconteceram fatos inesperados, que protagonizaram o caos, em outro prisma dos acontecimentos há uma parcela de brasileiros satisfeita com a realização da Copa do Mundo. Para estes cidadãos, o lucro foi rentável em seus respectivos negócios e não há do que reclamar, pois as contas foram abastadas com a moeda estrangeira. Trata-se de hoteleiros e de favelados que alugaram suas casas e quartos para turistas nos morros do Rio de Janeiro, incluindo neste contexto de ganhos os cidadãos que abriram mão do conforto de seus lares nas cidades que sediaram os jogos da Copa. Não faltaram as caravanas de torcedores que conseguiram acomodar seus carros e trailers. E até mesmo as areias de Copacabana, na Zona Sul do Rio, viraram abrigo para sacos de dormir. Um grupo considerável de proprietários de imóveis na cidade maravilhosa está de olho nas Olimpíadas de 2016, pois acredita que as competições irão movimentar os seus empreendimentos.

Os turistas adoraram o Brasil e prometem voltar. E segundo estatísticas, 70% dos estrangeiros que estiveram no país para acompanhar os jogos, consideraram ótimo o Mundial. O sucesso da gastronomia brasileira foi o ponto alto para tanta comilança entre europeus e americanos. Farofa, pão de queijo, churrasco e outras comidas típicas fizeram sucesso dentro e fora dos estádios. Estrangeiros invadiram os restaurantes e bares, e entenderam porque os brasileiros comem tanto. A grande descoberta foi o pastelzinho de carne, consumido a todo instante, e o tacatá amazonense.

Foto: FABRICE COFFRINI/AFP
Foto: FABRICE COFFRINI/AFP

O país acorda de uma ressaca indigesta. A triunfal celebração do título coube aos alemães. O Brasil ficou de lado. Acuado no seu canto, assistindo de braços cruzados o que de fato era o sonho de milhões de brasileiros. Mas é no clima de revolta que se reflete melhor. Em pensar que os bilhões de reais gastos em obras faraônicas, poderiam ter sido melhor aproveitados na Educação, na Saúde e no preparo dos jovens para ingressarem nas universidades. E bastava alguém – na espera do poder, óbvio – dizer que não era esse o momento para arcar com a Copa do Mundo e o desfecho seria conveniente, alegam os mais céticos.

O Brasil tornou-se importador de mão de obra no setor da Saúde, por exemplo, alegando escassez de profissionais na área. E Cuba enviou médicos ao país para suprir a necessidade de um povo sofrido, relegado a um condicionamento degradante no atendimento em hospitais e nos postos de saúde. Há quem aguarda na fila de espera até dois anos para ser atendido por um especialista.

Entretanto, os 30 bilhões de reais desembolsados pelo país para atender os gastos com estádios e obras complementares seria o suficiente para formar cerca de 20 mil novos médicos em território brasileiro, além de construir postos de saúde, universidade e escolas do ensino médio. E fica a pergunta: valeu a pena o Brasil sediar a Copa do Mundo de 2014? A festa acabou, levaram a taça embora. O que ficou para o povo foi à frustração. Por sua vez, a FIFA –organizadora do Mundial – não precisou pagar impostos ao país e teve um lucro de 15 bilhões de reais.

O Brasil representa a sétima economia mundial, confirmando sua importância crescente entre os países emergentes, mas os resultados ainda não refletiram no povo. As seis maiores economias de renda média – China, Índia, Rússia, Brasil, Indonésia e México – equivalem a 32,3% do PIB global, enquanto as seis maiores economias de renda alta – EUA, Japão, Alemanha, França, Reino Unido e Itália – respondem por 32,9%”, aponta o relatório. A China deve se tornar a maior economia do mundo em 2014 porque o PIB chinês cresceu muito mais rápido do que o americano, desde 2011. Em termos de PIB per capita, porém, a situação é muito diferente. Em 2011, os EUA tinham o 12º maior PIB per capita pelo critério da paridade do poder de compra, enquanto a China aparecia apenas no 99º lugar. O Brasil aparecia em 80º neste ranking, liderado por Qatar, Macau, Luxemburgo, Kuwait e Brunei.

É chegada a hora de o Brasil resolver de vez questões primordiais que possam melhorar a condição de vida dos seus cidadãos. Empurrar com a barriga é esdrúxulo! E não há como deixar para depois o emergencial. Acabou a Copa do Mundo e os motivos são outros. Imprescindíveis para uma nação que tem pressa e que clama por justiça social. A questão, agora, é fora do estádio, pertinente aos anseios dos brasileiros que estão de olho no que virá.