Microcefalia vira epidemia e ameaça recém-nascidos

Microcefalia vira epidemia e ameaça recém-nascidos

O aumento de casos da doença e o zika vírus, transmitido pelo Aedes aegypti, mosquito que transmite quatro tipos de dengue, deixa população em pânico. Cerca de 1700 casos de bebês que nasceram com o cérebro menor foram registrados até o momento

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Como se não bastasse à crise econômica e política, o processo de destituição da presidenta Dilma Rousseff e a onda de corrupção, deflagrada pela “Operação Lava Jato”, o Brasil enfrenta um outro fator agravante: a microcefalia que virou epidemia no país – afetando recém-nascidos -, com quase dois mil casos registrados até o momento, segundo dados do Ministério da Saúde. A microcefalia é uma malformação congênita em que o cérebro do feto não se desenvolve de maneira adequada. O bebê, quando nasce, apresenta um perímetro cefálico menor do que os 33 centímetros considerados normais. Além de trazer risco de morte, a condição pode ter sequelas graves para os bebês que sobrevivem, como dificuldades psicomotoras (no andar e no falar) e cognitivas (como retardo mental). O Governo federal afirmou que há uma correlação entre o aumento dos casos de microcefalia e o zika vírus, transmitido pelo Aedes aegypti, mosquito que também transmite quatro tipos de dengue e outra doença nova, a chikungunya. Às mulheres em período de gestação são aconselhadas a se protegerem – roupas fechadas -, e também fazer uso de repelentes. Segundos os médicos, a picada do mosquito transmissor faz com que o zika vírus entre na corrente sanguínea, penetrando a placenta, indo se alojar no cérebro do feto.

O número de casos suspeitos de microcefalia neste ano é mais de 400% maior do que o registrado no ano passado, quando 147 bebês nasceram com o problema – em 2013, foram 167 casos. Até o momento, o aumento anormal foi registrado em 160 municípios de oito Estados do Nordeste e em Goiás, com um óbito possivelmente relacionado. A maior parte dos casos (487) se concentra em Pernambuco. “Uma vez que a causa da microcefalia ainda não é conhecida, as mulheres que planejam engravidar neste momento devem conversar com sua família e a equipe de saúde sobre a conveniência de engravidar neste momento ou não”, chegou a afirmar o diretor do Departamento de Vigilância de Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde, Claudio Maierovitch, no portal do órgão, em orientação às mulheres do Nordeste.

O país aumentou os esforços para combater a proliferação dos mosquitos e passou a contar, em muitos Estados, com a ajuda do Exército no apoio dos agentes que visitam as residências. Alguns Estados também estão elaborando mecanismos legais que permitam a entrada em domicílios fechados ou nos quais a visita dos agentes foi impedida, o que atualmente é proibido.O zika é um vírus novo, e sua chegada ao Brasil passou a ser confirmada em abril deste ano, apesar de já existirem registros de alguns casos no ano passado. Vista inicialmente como uma “dengue leve”, por ter sintomas mais brandos, ela não foi considerada uma doença de notificação compulsória – aquelas que os sistemas de saúde são obrigados a informar. E, em muitos casos, as próprias pessoas infectadas não procuraram os hospitais por não considerarem que os sintomas eram graves ou por não terem desenvolvido qualquer sintoma (estima-se que isso ocorra em 80% dos casos). Com isso, não se sabe atualmente qual o número exato de pessoas que contraíram zika no país. Os casos só ganharam notoriedade quando começou a nascer um número maior do que o normal de bebês com microcefalia. Essas mães relataram, então, terem tido na gestação sintomas parecidos aos do zika. Para afetar o cérebro do bebê, o mais provável é que o contagio pelo vírus tenha ocorrido entre o terceiro e o quarto mês de gestação.

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O Governo também adotará novos critérios para considerar os casos suspeitos de microcefalia – até o momento, eram contabilizados os bebês com perímetro cefálico menor ou igual a 33 centímetros e, a partir de agora, só serão incluídos na estatística de casos suspeitos os que nascem com 32 centímetros ou menos, medida adotada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). “Adotamos – no início do surto da doença -, 33 centímetros porque o objetivo era que pudéssemos ter margem de segurança ampla para saber o que estava acontecendo”, explicou Claudio Maierovitch, diretor do Departamento de Vigilância de Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde. Mas isso, segundo ele, levou a um número grande de notificações de crianças que poderiam não ter microcefalia. “Agora teremos mais precisão e passaremos a captar com mais segurança”. Os casos entre 33 e 32 centímetros continuarão a ser monitorados pelas equipes de saúde.

Um relatório da coordenação do Programa Nacional do Controle da Dengue, também do Ministério da Saúde, trazia uma estimativa, provavelmente bastante subestimada, dos casos suspeitos de zika. Segundo o documento, haviam sido notificados no Brasil até outubro 84.931 casos do vírus, a grande maioria deles na Bahia, onde a Secretaria Estadual da Saúde já havia confirmado a suspeita de 62.635 casos até 18 de novembro. O Estado também notou no meio deste ano um aumento de casos de síndrome de Guillain-Barré, uma doença neurológica que já havia sido associada à infecção por zika em outros países.“A Bahia desde o início adotou a estratégia de registrar as notificações. Foi o primeiro Estado, acredito, a registrar os casos suspeitos de zika”, explicou Ita de Cácia Aguilar, superintendente de Vigilância e Proteção da Saúde da Secretaria Estadual da Saúde da Bahia.

Proliferação do Aedes aegypti

O período de proliferação do Aedes aegypti muda de um Estado para outro, o que ajuda a explicar o porquê, por exemplo, locais como São Paulo, que registraram uma incidência enorme de dengue neste ano (com pico entre março e abril), ainda não terem registrado um grande número de casos de microcefalia, dizem pesquisadores. Uma das teses mais prováveis é que o Sudeste ainda não tenha tido muitos casos de zika, porque o vírus provavelmente entrou no país pelo Nordeste. Ela só deve chegar ao Sudeste, com força, no próximo período de proliferação do mosquito, esperado para o início de 2016. O mosquito já poderá ser vetor, portanto, da já chamada “tríplice epidemia” (dengue, zika e chikungunya).

Alguns epidemiologistas, no entanto, dizem que ainda não se sabe como o vírus se comporta e, portanto, ainda seria cedo para dizer que a epidemia chegará com força no Sudeste. “A gente não sabe quanto esse vírus tem potencial de se espalhar. Duas coisas podem acontecer: ou esse vírus deu esse surto e parou por aqui no Nordeste ou ele continua se espalhando”, ressalta Rafael França, pesquisador da Fiocruz em Recife que desenvolve uma pesquisa sobre o zika. “Mas, realmente, é preocupante, não apenas no Sudeste, mas no país como um todo. No Nordeste a gente tem uma questão econômica. A pobreza aqui é muito maior e a população de baixa renda geralmente não tem coleta de lixo, água encanada e tudo isso é um fator complicador para a proliferação do mosquito.”