Manifestações levam às ruas indignação com governo Dilma

Manifestações levam às ruas indignação com governo Dilma

Mais de três milhões de brasileiros foram às ruas pedindo o impeachment da presidenta Dilma Rousseff e o fim da era petista. O grito de Justiça ecoou também nos Estados Unidos onde aconteceram manifestações em sete cidades, destacando-se Nova York, Washington e Orlando

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As manifestações que aconteceram nas capitais e demais cidades do Brasil – 229 -, no último dia 13, mobilizando mais de três milhões de manifestantes – 1,4 milhão na Avenida Paulista, em São Paulo -, mostrou ao mundo a insatisfação dos brasileiros que pedem o impeachment da presidenta Dilma Rousseff; a saída do PT (Partido dos Trabalhadores) do poder e a prisão preventiva do ex-presidente Lula; apoiando a Operação Lava Jato e enaltecendo o Juiz Federal Sérgio Moro. O grito de Justiça ecoou também nos Estados Unidos onde aconteceram manifestações dos brasileiros em sete cidades, destacando-se Nova York, Washington e Orlando. Os deputados e senadores disseram que a voz das ruas deve ser respeitada, o que acelera o processo de impeachment, também agilizando a formação da comissão de deputados que irá monitorar os trabalhos na Câmara Federal. Em contrapartida, até o encerramento desta edição discutia-se em Brasília a possibilidade de Lula assumir um dos Ministérios de Dilma, com intuito de fortalecer o seu governo, o que garantirá ao líder petista fórum privilegiado.

Esta é a maior manifestação de rua da história da democracia do país depois do fim da ditadura, e mostra o fôlego que os movimentos pró-impeachment, que nasceram em 2014, atingiram. A marcha pelas eleições diretas (Diretas Já), uma referência de multidões, levou às ruas 400.000 pessoas em 1984. Se na primeira grande manifestação pró-impeachment em março do ano passado os grupos que pediam a saída de Dilma dividiram espaço na avenida Paulista com reivindicações difusas, como os pedidos da intervenção militar, desta vez o discurso foi mais afinado. O sentimento que se sobressaiu, de maneira geral, é de total rejeição ao PT e ao Governo e que “qualquer coisa” será melhor que Dilma Rousseff na presidência. “Qualquer um é menos pior que Dilma”, disse a dentista Fátima Gerbasi. “Não tem importância se é o Temer que assume o Governo, em um eventual impeachment. Vão fazer um Governo de coalizão e isso vai ser bom”.

Os protestos multitudinários são uma má notícia para a presidenta que está prestes a encarar um processo de impeachment na Câmara e está sob a ameaça de perder o apoio do PMDB, seu principal aliado. O grito nas ruas pode empurrar parlamentares indecisos a votar a favor de sua destituição via impeachment, e pode acelerar até a análise de suas contas de campanha no Tribunal Superior Eleitoral. A mandatária ainda tem o mercado financeiro jogando contra, pois acreditam que a sua permanência impede que a crise política se resolva e desate o nó da economia.

Definitivamente não foi um dia feliz para a presidenta. Mas políticos da oposição também não foram poupados e receberam vaias no meio da massa. Em São Paulo, o governador Geraldo Alckmin, pela primeira vez participando dos protestos, e o senador Aécio Neves, ambos do PSDB, foram chamados de “oportunistas”, o que os obrigou a abreviar sua passagem pela Avenida Paulista para não mais que 30 minutos. Em alguns momentos, o protesto parecia um grito contra todos os políticos. Marta Suplicy (PMDB), caloura na oposição, também foi vaiada e chamada de “vira casaca”. Pré-candidata do PMDB à prefeitura de São Paulo, a senadora deixou o PT em abril de 2015.

Em Brasília, a manifestação reuniu 100.000 pessoas, segundo a Polícia Militar, o início da passeata foi confuso, com locutores de cinco carros de som falando ao mesmo tempo. No percurso, os manifestantes pararam em frente à Catedral da cidade e rezaram um Pai Nosso. No Rio, o ato também foi o maior dos últimos anos e também teve o início marcado pela oração de um Pai Nosso seguido pelo hino do Brasil. E embora a Polícia Militar não tenha feito à estimativa de manifestantes, os organizadores avaliaram que um milhão de pessoas compareceram ao evento. Em Belo Horizonte, os manifestantes se concentraram na Praça da Liberdade, na Região Centro Sul da Capital, e de acordo com a Polícia Militar (PM), a maior concentração de pessoas ocorreu por volta das 11h30, com cerca de 30 mil manifestantes. Os organizadores estimaram 100 mil presentes.

A fragilidade crescente do Governo e as mais recentes notícias da Lava Jato animaram os líderes dos movimentos organizadores do protestos em São Paulo a se sentirem seguros para cravar, inclusive, uma data para o nocaute final de Dilma Rousseff. “Até maio ela cai”, afirmava Renan Santos, do Movimento Brasil Livre (MBL), em um discurso inflamado para uma multidão que o aplaudia na avenida Paulista. O senador Ronaldo Caiado (DEM) também mostrou segurança ao falar da derrubada do Governo, estimando um tempo – um pouco mais generoso que o MBL – “Se Deus quiser, até junho já teremos encerrado este momento da história brasileira e caçado a presidente”, disse no carro de som do Movimento Endireita Brasil.

Juíza abre mão do caso Lula

A denúncia e o pedido de prisão preventiva contra o ex-presidente Lula da Silva feitos pelo Ministério Público de São Paulo serão analisados pelo juiz Sérgio Moro, da Operação Lava Jato, em Curitiba. Em decisão publicada, a juíza Maria Priscilla Ernandes, da 4ª Vara Criminal de São Paulo, que era a responsável por analisar o processo, anunciou que abre mão de julgar o caso e decidiu enviar os autos para Moro. Em 10 de março os promotores Cassio Conserino, José Carlos Blat e Fernando Henrique Araújo denunciaram o petista pelos crimes de falsidade ideológica e estelionato, ambos relacionados ao tríplex do edifício Solaris, no Guarujá. O imóvel também é alvo de investigação pela força-tarefa que investiga corrupção na Petrobras, que apura se o apartamento não seria uma contrapartida da empreiteira OAS ao ex-presidente por contratos obtidos durante seu Governo.

Em seu despacho, a juíza aproveitou para criticar parte da denúncia feita pelo Ministério Público de São Paulo, segundo a qual o petista teria relação com o crime de estelionato cometido pelas empresas responsáveis pelo edifício Solaris. “Não houve demonstração, nem mesmo menção na peça acusatória inicial, de que o ex-presidente tinha ciência dos estelionatos perpetrados pelos denunciados no chamado ‘Núcleo Bancoop’ pelos promotores denunciantes e que daí decorreria a lavagem de dinheiro”, afirmou. Conserino e os demais promotores que assinaram a denúncia contra Lula foram duramente criticados no meio jurídico e até mesmo por políticos da oposição, que consideraram o pedido de prisão preventiva “descabido”.

Nomeação de Lula à Casa Civil revolta e o povo volta às ruas

No momento que encerrávamos esta edição, no Brasil o povo brasileiro mais uma vez demonstrava a sua revolta contra a nomeação do ex-presidente Luiz Inácio da Silva como Ministro Chefe da Casa Civil. Pessoas saíram às ruas com panelaços, buzinaços pedindo renúncia já da presidente Dilma Rousseff e a prisão de Lula. E a situação se agravou quando houve a divulgação do áudio – via telefone -, entre Dilma e Lula. A conversa foi gravada pela Polícia Federal às 13h32, segundo consta em relatório encaminhado ao juiz. No diálogo, Dilma informa a Lula que está enviando a ele o “termo de posse” para que ele utilize o documento “em caso de necessidade”. A interpretação da força-tarefa da Lava Jato é de que Lula foi nomeado ministro como forma de escapar de um suposto pedido de prisão feito pelo juiz Sérgio Moro. Como ministro, Lula só poderia ser preso por ordem do STF (Supremo Tribunal Federal).

Os protestos começaram no início da noite do dia 16 em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Distrito Federal, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Pernambuco, Goiás, Paraná, Pará, Bahia, Amazonas, Alagoas, Paraíba e Ceará. Em Brasília, os manifestantes se posicionaram em frente ao Congresso Nacional, adentrando ao gramado. O Exército foi chamado. Na Câmara, os deputados oposicionistas ao governo Dilma gritaram em coro: “Ladrão” e “Renúncia”.

Em São Paulo, centenas de pessoas se reuniram na avenida Paulista, que foi bloqueada nos dois sentidos. A avenida foi palco dos protestos do último domingo (13), que reuniu 1,4 milhão de pessoas. Cerca de dez manifestantes também protestaram em frente ao Instituto Lula, no Ipiranga, na zona sul de São Paulo, onde se encontrava o ex-presidente Lula. Eles batiam palmas e gritavam ofensas ao ex-presidente, como “ladrão” e “vagabundo”, além de “fora, PT”.

O PRB (Partido Republicano Brasileiro) anunciou que não faz mais parte da base aliada do governo Dilma Rousseff. A sigla deixou à disposição o Ministério do Esporte. O partido comanda a pasta desde dezembro de 2014, quando George Hilton foi nomeado para o cargo. Hilton, aliás, está no Rio de Janeiro cumprindo agenda de Olimpíada. Em pronunciamento no salão verde da Câmara dos Deputados, o presidente do PRB, Marcos Pereira, disse que a decisão foi unânime.

O Clima era tenso no país e os protestos prometiam continuar, pois as vozes das ruas demonstravam indignação. A notícia repercutiu nos principais jornais da Europa e dos Estados Unidos, afirmando que ambos – Lula e Dilma – tentam unir forças em um momento arriscado. Um cenário imprevisível nos próximos capítulos da política no Brasil. Fala-se que com uma bala só, Lula acertou cinco tiros no pé.

STF – Já o Supremo Tribunal Federal julgou recurso contra mudança no rito do impeachment. Com o recurso, a Câmara busca reverter as principais mudanças no andamento do processo determinados pela maioria dos ministros. Na decisão de dezembro, o STF anulou a eleição de uma chapa alternativa de deputados, não indicados por líderes, para a compor a comissão especial que analisará as acusações contra Dilma. O grupo era majoritariamente formado por opositores da presidente.