Mangueira e Mancha Verde, campeãs do Carnaval da polêmica

Mangueira e Mancha Verde, campeãs do Carnaval da polêmica

Críticas, duelo entre Deus e o diabo marcaram os desfiles das escolas de samba do Rio e de São Paulo, que definiram como campeãs Mangueira e Mancha Verde, respectivamente

Edição de março/2019 – p. 17

Mangueira e Mancha Verde, campeãs do Carnaval da polêmica

O Carnaval no Brasil esse ano aconteceu com muitas surpresas, controvérsias e o forte apelo político que desfilou pelas avenidas, mostrando que o povo quer mesmo justiça. A Estação Primeira de Mangueira, campeã do Carnaval do Rio de Janeiro apostou no enredo politizado “História para ninar gente grande”, e conquistou 270 pontos, a nota máxima possível na apuração, comemorando o seu 20º título. A Unidos do Viradouro – desfilando com bruxas voadoras, livros encantados, motoqueiro fantasma, poções mágicas, princesas e outras figuras de histórias infantis – foi à vice-campeã com 269,7 pontos, enquanto que a Beija-Flor, campeã do ano passado, terminou na 11ª posição.

Em São Paulo, que mostrou um Carnaval de rua e avenida amadurecido, arrastando multidões, a Mancha Verde foi à campeã pela primeira vez do Grupo Especial com o enredo “Oxalá, salve a princesa! A saga de uma guerreira negra”, homenageando a figura de Aqualtune, princesa congolesa e avó de Zumbi dos Palmares. A Dragões da Real foi vice-campeã, ficando a 0,1 ponto da campeã Mancha Verde. Surpreendentemente, a Escola Vai Vai que coleciona o maior número de títulos de campeã do carnaval paulistano foi rebaixada para o Grupo de acesso junto com a Acadêmicos do Tucuruvi.

Outra polêmica que sacudiu os desfiles no Sambódromo da Avenida Tiradentes foi à escola Gaviões da Fiel, quando a Comissão de Frente apresentou uma encenação na qual Jesus era vencido por Satanás, em uma “batalha do bem contra o mal”. Houve contestação de religiosos em todo o país, condenando o tema que exaltava o diabo.

 

A escola de samba paulista reeditou o samba-enredo de 1994, “A Saliva do Santo e o Veneno da Serpente”, sobre a história do tabaco. “O foco era chocar. Essa comissão de frente foi incrível e alcançou nosso objetivo, que era mexer com essa polêmica de Jesus e o diabo, com a fé de cada um”, afirmou o coreografo Edgar Junior em entrevista.

Mangueira, soberana na avenida

Na Marquês de Sapucaí, no Rio, a taça de campeã da Mangueira foi erguida por Robson Negão, porteiro do barracão, já que o presidente da escola, Chiquinho da Mangueira, está em prisão domiciliar – ele foi preso no final do ano passado na operação Furna da Onça. A disputa foi acirrada com a Unidos do Viradouro, mas prevaleceu a garra e impetuosidade da Verde e Rosa.

“Eu acho que o desfile da Mangueira é um recado para a sociedade brasileira, que tem passado por um momento que não reconhece a força da identidade indígena, a força da identidade negra e dos pobres deste país”, disse Leandro Vieira, carnavalesco da escola. “Levamos para avenida à contestação da ‘história oficial’ brasileira e recontá-la a partir de heróis anônimos”.

Outro ponto polêmico do enredo da Verde e Rosa foi a abordagem do assassinato da vereadora do Rio, Marielle Franco – morta em 14 de março do ano passado –, lembrado pela rainha de bateria da Mangueira, Evelyn Bastos. “A gente precisa de justiça. É um direito que cabe a nós. Quando a gente fala da Marielle, a gente fala de uma mulher negra que venceu na vida. E quando ela se viu numa posição em que ela podia fazer pelos outros, ela fez”, frisou a rainha.

Já a Viradouro, que lutou acirradamente pelo título, trouxe para a avenida o enredo “Vira Viradouro”, com bruxas voadoras, livros encantados, e outras figuras de histórias infantis que encantou o grande público. Foi também volta do carnavalesco Paulo Barros a Viradouro após 11 anos.

Já a Império Serrano, que foi rebaixada para o Grupo de Acesso, apresentou muitos problemas antes de ir para a avenida. Com dificuldades financeiras na preparação de seu Carnaval, desfilou com alegorias e fantasias com deficiência de acabamento. Nem o apelo popular de “O que é o que é”, grande sucesso da carreira de Gonzaguinha – samba enredo adaptado pela escola –, conseguiu sensibilizar o público, que se limitou a assistir a passagem da Verde e Branca da Serrinha. A Imperatriz Leopoldinense também foi rebaixada.

Musas do Carnaval

Após votação para a escolha da Musa do Carnaval 2019, reunindo beldades que desfilaram em São Paulo e Rio de Janeiro, estavam no páreo personalidades como Sabrina Sato, Juliana Paes, Bruna Marquezine, Anitta e Viviane Araújo – as mais cotadas. A representante da Mancha Verde em São Paulo e da Salgueiro no Rio de Janeiro, Viviane Araújo, conquistou o título com 35% dos votos válidos. Logo atrás da modelo e influencer ficou a cantora Anitta , com 26%, que é sucedida por Bruna Marquezine, com 15%, Sabrina Sato, com 13%, e Juliana Paes, com 11%.