Invasão nas fronteiras dos EUA e Europa eleva caos imigratório

Invasão nas fronteiras dos EUA e Europa eleva caos imigratório

O drama de refugiados nas fronteiras da Europa se assemelha a situação de hondurenhos, salvadorenhos, guatemaltecos e mexicanos que arriscam a vida, todos os dias, para transpor a fortificada fronteira Sul dos EUA e construir nova vida longe da pobreza extrema, da violência das gangues e do narcotráfico

HUNGARY-SERBIA-EU-MIGRANTS

O drama de refugiados nas fronteiras da Hungria, Itália, Grécia, entre outros países da Europa, desestabilizou a questão imigratória, pois não há solução imediata para conter a onda avassaladora dessas pessoas – vindos da Macedônia, Síria e África -, que fogem das guerras e das atrocidades do grupo extremista Estado Islâmico. Mas a questão das chamadas invasões ilegais nas fronteiras é um pesadelo enfrentado pelos EUA, desde a década de oitenta. Centenas de hondurenhos, salvadorenhos, guatemaltecos e mexicanos arriscam a vida, todos os dias, para transpor a fortificada fronteira Sul do país e construir uma nova vida longe da pobreza extrema, da violência das gangues armadas e do narcotráfico, da instabilidade política e até dos desastres naturais dos seus países. Em contrapartida, o magnata do imobiliário, Donald Trump, na corrida pela presidência – que logo no anúncio da candidatura, denegriu os imigrantes mexicanos como “criminosos e violadores”, insiste no discurso em mudar as leis imigratórias. Ele prometeu deportar todos os imigrantes que vivem ilegalmente no país e construir um muro de separação entre o México e os EUA ao longo dos 3182 quilômetros da fronteira Sul – um projeto que orçou em 3,5 mil milhões de dólares.

E os que vêm do chamado Triângulo Norte da América Central, mas também da Nicarágua, Colômbia e Venezuela: são considerados, para todos os efeitos, como imigrantes que deixam os seus países em busca de trabalho, mesmo os menores de idade. Isto apesar de a maioria dos recém-chegados citar motivações políticas para a sua jornada, e pedir ajuda para solicitar asilo. Um fenômeno desde a década de 80, com picos de procura e períodos de calmaria, foi sendo alimentado pela sucessão de guerras civis e conflitos militares na região. Sucessivas administrações norte-americanas “encorajaram” a sua viagem, com regras especiais ou autorizações extraordinárias de residência por razões humanitárias para as populações afetadas. Mas, entretanto, a agulha virou, quando a procura passou a ser de imigrantes econômicos e o movimento fez prosperar redes de trabalhadores clandestinos.

Tal como os fugitivos da guerra da Síria, do Iraque, da Eritreia ou do Afeganistão que se acumulam às portas da União Europeia, também os latino-americanos que procuram a “terra prometida” dos EUA usam rotas testadas para o “contrabando” humano, e pagam a organizações criminosas para encetar a viagem em condições de extremo risco e enorme fragilidade.

Fuga da violência

Têm sido mulheres e menores que tentam fugir da violência de Honduras, El Salvador e Belize, os países com a maior taxa de homicídios do mundo segundo os números oficiais das Nações Unidas. Em 2013, havia 3,2 milhões de cidadãos naturais de países da América Central residindo nos EUA, 90% dos quais provenientes do Triângulo Norte formado por El Salvador, Guatemala e Honduras. Segundo os números do “Migration Policy Institute”, correspondiam a 7% do total de 41,3 milhões de imigrantes no país. Ao contrário de outros grupos de diferentes geografias – principalmente asiáticos e europeus –, estes imigrantes têm poucas habilitações escolares e profissionais, falam o inglês precário e têm rendimentos muito inferiores à restante população: 22% das famílias imigrantes da América Central vivem em situação de pobreza nos EUA, mais do que os restantes imigrantes (18%) e os norte-americanos (10%).

A Administração Obama foi obrigada a tomar medidas extraordinárias para responder a um êxodo latino-americano sem precedentes, e particularmente à chegada de milhares de menores desacompanhados das famílias (cerca de 68 mil, em 2014). O Presidente Barack Obama, classificou a situação como uma “crise humanitária”. Disse o presidente que, “é difícil imaginar os riscos que estas crianças e adolescentes corriam, para que as suas famílias arriscassem mandá-los sozinhos para um país estranho”, refletiu o dirigente, justificando o “realojamento” extraordinário destas crianças com familiares já nos EUA.

De acordo com os dados oficiais do Centro de Imigração e Proteção de Fronteiras, no mês de julho registou-se um novo recorde anual de detenções de menores que tentavam cruzar sozinhos a fronteira, uma média de 135 por dia. Desde o início do corrente ano fiscal (em Outubro de 2014), já foram detidos 30.862 menores – em Julho, foram 4177. Em comunicado, o departamento atribui este aumento à “degradação das condições de vida na América Central, com a pobreza e a violência a serem os fatores primários”.

Drones contra imigrantes

A questão da imigração e controle das fronteiras é politicamente explosiva e tomou de rompante controle do debate. Além de Donald Trump, vários concorrentes falam na revisão da lei que atribui a cidadania automática a todas as crianças nascidas em território americano, e o antigo cirurgião Ben Carson, em segundo nas intenções de voto dos conservadores, até já avançou com a possibilidade de ataques com drones para “proteger” a fronteira da invasão das populações latino-americanas

Desde o ano 2000, apesar do reforço significativo dos meios de combate à imigração e da construção do muro na fronteira com o México, o número de apreensões caiu 80%, enquanto a probabilidade de detenção aumentou para o dobro. “Cerca de metade daqueles que tentam cruzar a fronteira a salto são detidos pelo menos uma vez”, disse Marc Rosenblum, diretor do “Migration Policy Institute”, ressalvando que isso não quer dizer que não voltem a tentar as vezes que forem precisas até conseguirem finalmente entrar nos EUA.