“Eu venci o câncer”

“Eu venci o câncer”

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OUT/15 – pág. 49

A empresária Rosana Almeida superou um melanoma, câncer de pele agressivo, e venceu o câncer de mama, considerada a doença de século. Uma luta acirrada, pontuada pela fé e a vontade avassaladora de viver

Rosana Almeida

Outubro é o mês de prevenção ao câncer de mama – Outubro Rosa -, período de conscientização às mulheres quanto a importância de se prevenir contra a doença considerada o mal do século. Dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca) mostram que 22% dos casos novos de câncer no Brasil são de mama. Esse tipo já é o segundo mais frequente no mundo e o mais comum entre as mulheres. Porém, quando diagnosticado e tratado precocemente as chances de cura aumentam de forma expressiva. Apesar de fundamental, o autoexame das mamas não deve ser o único meio de diagnóstico precoce, a mamografia é essencial para um diagnóstico completo e mais eficaz. E para evidenciar o exemplo de quem venceu a doença, no embate acirrado pela sobrevivência, “Jornal Nossa Gente” conversou com a empresária brasileira, Rosana Almeida, presidente da “Florida Connexion”, em Orlando, que superou o câncer de mama, enfrentando momentos de tensão e incerteza. Uma mulher forte, emotiva, que se manteve confiante, mesmo quando tudo parecia irreversível.

“A estrutura familiar foi muito importante na minha recuperação, mas devo a Deus a minha cura”, relata Rosana Almeida. “Às vezes me pergunto o porquê de as coisas terem dado certo para mim, enquanto outras mulheres perderam a vida na luta contra o câncer de mama. Têm mulheres que lutam há anos contra a doença. Antes do câncer de mama, tive um melanoma, um câncer de pele agressivo, aos 33 anos de idade, quando morava no Brasil. Poucas pessoas sabem disso. Precisei fazer uma cirurgia nas costas, mas não tive de fazer sessões de radioterapia. E a partir dai fiz um controle rigoroso da minha saúde, com exames periódicos. Os meus exames eram feitos no Brasil, mesmo quando me mudei para Orlando, em 99, por motivos de segurança das minhas filhas – Tatiana e Gabriela. E antes de vir definitivamente para cá, visitava Orlando com frequência, pois tínhamos casa de férias aqui. Em 2003 fui ao Brasil,convidada para um casamento, então aproveitei e fiz os meus exames periódicos quando foi diagnosticado o câncer de mama, acusado na mamografia”, a empresária silencia por alguns segundos. “O que me levou a ter câncer, tenho absoluta certeza disso, foi uma tristeza profunda que mexeu com o meu emocional”, desabafa sensibilizada.

A entrevista acontece no escritório central da empresa “Florida Connexion”. Rosana interrompeu a agenda abarrotada de compromissos para falar com a equipe do “Nossa Gente”. Dinâmica e atenta ao que ocorre a sua volta, demonstra ser uma mulher de comando. Afixados na parede da sala presidencial estão expostos diploma de faculdade e certificados de especialização, conquistados pela brasileira ao longo de sua carreira bem sucedida.

“Eu tinha tudo para nunca ter câncer”, continua Rosana. “Não fumava, nunca estive acima do meu peso, tive duas gravidezes e amamentei durante nove meses, duas filhas, o que ajuda a diminuir a chance de desenvolver o câncer de mama. Sempre fiz exercícios e não tenho histórico familiar. Eu não sentia dor, não tinha caroço, mas o diagnóstico me fez chorar, perder o chão. A sensação era de que o mundo iria acabar. Eu não queria acreditar e chorei uma noite inteira, sem parar, depois que eu soube da doença, no final do dia. Eu queria ir para outros lugares, ouvir alguém dizer que aquilo não estava acontecendo comigo. Mas era o momento de parar e enfrentar o problema de frente. Tinha duas filhas adolescentes, estava morando em Orlando, quer dizer, muito complicado. Decidi que faria todo o meu tratamento no Brasil. Não tinha me acostumado com a medicina dos Estados Unidos. Falei para o meu médico, Ademir Torres Abrão, que estava em Orlando e não queria voltar para o Brasil. Ele tinha cuidado de mim quando tive o melanoma, mas me apresentou outra médica para acompanhar o meu tratamento. A médica me aconselhou a voltar para o Brasil, alegando que eu ficaria fraca, pegaria infecção e passaria pela quimioterapia. Eu não pretendia voltar, então resolvi fazer o tratamento lá, mas retornaria para Orlando após as sessões de quimioterapia. Achei que fosse algo normal, mas o procedimento foi bem mais intenso. Fiquei indo e voltando, durante um ano, a cada vinte um dias, depois que um outro médico que consultei, Jacques Tabakov, do Hospital Sírio Libanês em São Paulo, concordou que eu continuasse morando aqui”, relata.

A escalada pela cura

“Eu ia para o Brasil na segunda-feira, fazia os exames de sangue, antes de me submeter à sessão de quimioterapia. Começava a quimioterapia por volta da uma da tarde e às cinco horas, quando terminava o procedimento do tratamento, acordava elétrica. Os medicamentos me deixavam agitada. A mucosa ficava sensível e eu não podia tomar nada quente, então ia para o shopping com a minha mãe tomar sorvete. À noite, por volta das onze horas, já estava no aeroporto para embarcar para Orlando. Passava a noite viajando, chegava aqui na terça pela manhã, me sentindo bem. O efeito mais duro da quimioterapia acontecia na quarta-feira. Eu dormia o dia todo, com muita dor no corpo. Na quinta acordava melhor e, na sexta, estava mais disposta. E quando eu me recuperava já era hora de voltar ao Brasil para continuar o tratamento”, conta.

E após seis meses de quimioterapia a empresária ficou totalmente careca, com a queda dos cabelos, extraiu o seio afetado, mas manteve-se firme e confiante em Deus, sem vaidades. Não deixou esmorecer a força que a impulsionava continuar na escalada pela cura, pois o foco era a sua recuperação. “Na ocasião, tive um intenso crescimento espiritual. A minha família me apoiou muito, em todos os momentos cruciantes, assim como os amigos especiais. Li vários livros, mas confiei em Deus principalmente, no seu poder de cura, de mudar o impossível. E a maior lição de vida que tive é que você controla a sua vida até certo nível, depois disso você não tem o controle algum”, alerta. “Não dou valor às besteiras da vida. Têm pessoas que fazem alarde por coisas menores. Hoje tudo é lindo para mim”, sorri.

E após um ano de tratamento, Rosana voltava ao Brasil a cada três meses para fazer todos os exames, posteriormente, seis meses, espaçando-se o período de acordo com a sua recuperação. E durante cinco anos continuou tomando medicamentos preventivos contra o câncer de mama. “Ainda hoje sinto o meu coração acelerar, fico nervosa quando vou ao médico fazer um check-up. A pressão sobe, embora a minha pressão seja baixa”, diz. “A medicina está muito avançada neste aspecto. Às mulheres que passam pelo problema do câncer de mama, saibam que existe muita vida após o câncer. Não é o fim do mundo. Você precisa encontrar um médico que você confia e gosta. Busque apoio nas pessoas que você admira. Respeite o seu momento e não tente agradar ninguém. Eu, por exemplo, tinha dias que não queria falar com ninguém e as pessoas a minha volta respeitavam isso. Os amigos ligam preocupados, mas às vezes você não está com vontade de falar sobre a doença. E se dê o tempo que for necessário. Eu reservei um ano da minha vida para cuidar de mim. Trabalhei muito pouco, tinha os meus negócios, claro. Recebi apoio dos médicos, mas sempre ligada nas novidades sobre a doença. E tudo o que era favorável no combate ao câncer, eu experimentava, mas sob orientação médica”, comenta. “O câncer é uma coisa dura de encarar, mas é possível vencê-lo. Conta a sua garra e fé em reverter à situação e retomar a sua vida”, determina.

“Adoro esporte e sou faixa- preta de judô”, confessa à empresária, denotando bom- humor. “Adoro o taekwondo. Pratico a modalidade desde o ano de dois mil. Óbvio que precisei interromper o esporte para o tratamento, mas retomei as minhas atividades, normalmente. Continuo na minha empresa trabalhando muito, os cabelos cresceram e a vida segue. Têm pessoas que ficam preocupadas com a alta do dólar, mas isso é tão menor diante das coisas que passei. É como eu disse antes, não vou deixar me abater por situações assim. Sou feliz e isso basta”, finaliza.


WaltherAlvarenga

Walther Alvarenga