Abismo fiscal, escândalo da CIA, cooperação entre democratas e republicanos, imigração, mudança climática, Síria e Irã  foram os assuntos que dominaram a primeira entrevista coletiva concedida pelo presidente reeleito dos Estados Unidos, Barack Obama, na tarde desta quarta-feira, 14, em Washington.

Após breve explanação dos principais tópicos que irão reger seu segundo mandato — reduzir o déficit fiscal, sem onerar mais a classe média e taxando mais os ricos; continuar promovendo a recuperação da economia bem como o aumento da oferta de vagas de trabalho e agilizar uma legislação sobre imigração, entre outras questões — o mandatário abriu para perguntas.

O diretor e a amante

O primeiro questionamento não foi sobre o principal desafio a ser enfrentado por Obama, neste seu segundo mandato, o abismo fiscal, mas sobre o escândalo sexual que provocou a queda do diretor da CIA, o general reformado David Petraeus, na sexta-feira, 9. Obama reiterou que Petraeus serviu bem seu país e que ele não tinha, ainda, muitas informações até o momento sobre o caso e não queria fazer nenhum pré-julgamento.

“O FBI tem seus protocolos para agir com investigações e estamos aguardando eles serem cumpridos. Não há evidências de que o episódio tenha representado uma ameaça à segurança nacional”, declarou Obama. “Petraeus serviu de maneira exemplar o seu país, seja na condução das guerras com o Iraque e o Afeganistão, seja como diretor da CIA. Se hoje estamos salvos é por causa de seu trabalho.”

Abismo fiscal

Na sequência, o principal assunto veio à baila, e o presidente americano insistiu que, apesar de ter que encontrar uma solução rápida para um iminente abismo fiscal, ele não o faria acachapando mais ainda a classe média com altos impostos.

Obama instou os congressistas a aprovarem, até o fim do ano, a prorrogação do corte de impostos para aqueles que ganham até US$ 250 mil por ano e disse querer um acordo abrangente sobre impostos e gastos.

“Não devemos deixar a classe média como refém enquanto debatemos os cortes de impostos para os ricos”, disse ele. O mandatário afirmou que o fato de os ricos terem de pagar mais impostos, “não irá quebrar a bolsa deles”, uma vez que “continuarão ricos”.

O presidente reiterou que congressistas democratas e republicanos devem trabalhar em conjunto para encontrar uma solução o quanto antes que evite o abismo fiscal — uma série de cortes de gastos e aumentos de impostos, que entrarão automaticamente em vigor no início em janeiro de 2013, podendo levar o país a uma nova recessão, caso não haja consenso entre os dois partidos.

Segundo ele, o risco de um abismo fiscal pode ser eliminado “na semana que vem”, com um acordo entre parlamentares dos dois partidos. “Metade do atual risco para nossa economia pode ser resolvido com esta ação simples”, afirmou Obama, que disse estar aberto a novas ideias sobre como evitar o abismo fiscal. O presidente declarou, inclusive, que pretende convidar, até o fim do ano, o candidato derrotado por ele, o republicano Mitt Romney, para conversar. “Quero ouvir o que Romney tem a dizer. Tenho certeza de que suas ideias serão de grande ajuda.”

Imigração

Depois de ter seu segundo mandato garantido, em boa parte, graças ao voto dos latinos, esse grupo social está sempre na cabeça e nos discursos de Obama. Por isso ele mencionou, logo no seu discurso de abertura da entrevista coletiva, que um incremento na lei de imigração está sendo preparado para enviar ao Congresso, em breve.

“Tenho certeza de que, depois da expressiva participação dos latinos nesta eleição, os congressistas republicanos irão ceder e ajudar a passar essas mudanças”, se pronunciou o presidente americano. Uma grande parte dos congressistas republicanos são contra uma reforma da lei migratória.

Mudança climática

Após a devastação provocada pela passagem do furacão Sandy pela Costa Leste americana — que causou mais de 110 mortes e prejuízos da ordem de US$ 50 bilhões —, um jornalista inqueriu Obama sobre a mudança climática, como causa do aumento da incidência de grandes desastres naturais.

“Não há dúvidas de que a temperatura global está crescendo mais rápido do que o previsto há 10 anos. A mudança climática é real e tem sido impactada pelo comportamento humano, pela emissão de carbono”, disse o presidente dos EUA. “Por isso estamos marcando conversar com cientistas e engenheiros, para que eles nos ajudem a encontrar solução que reduzam a emissão de carbono. Queremos ter a certeza de que não passaremos esse problema às futuras gerações.”

Oriente Médio

Obama concluiu a entrevista afirmando que os EUA estão acompanhando de perto o conflito na Síria, que já dura 20 meses, e estão sempre em contato com os vizinhos do país, como Turquia, Jordânia e Israel. Sobre o temido programa nuclear do Irã, ele disse ainda acreditar numa solução diplomática.

Mudança em eleitorado dos EUA preocupa republicanos

Segundo reportagem do New York Times, há duas décadas o Condado de Prince William era um dos poucos subúrbios predominantemente brancos, rurais e distantes que os candidatos republicanos visitavam para acumular votos para ganhar as eleições no Estado de Virgínia.

Desde então, este condado sofreu transformações. Campos inabitados cederam espaço a casas e condomínios, e o condado – que fica a cerca de meia-hora ao sul de Washington – passou a ter a sétima renda familiar mais alta do país e tornou-se o primeiro condado da Virgínia onde as minorias representam mais da metade da população.

Se este condado se parece com o futuro do país, os democratas têm até agora desenvolvido uma estratégia muito mais bem-sucedida para apelar para esse futuro. Na semana passada, o presidente Barack Obama venceu Mitt Romney por quase 15 pontos percentuais em Prince William, quase dobrando a margem de George W. Bush sobre Al Gore em 2000 e garantindo a Obama uma vitória surpreendente na Virgínia.

Ele fez isso não apenas ao conquistar os eleitores hispânicos, mas também por conquistar as maiorias do crescente número de eleitores asiático-americanos e de eleitores com menos de 40 anos de idade. Uma versão de sua coligação em Virgínia – uma combinação de minorias, mulheres e adultos jovens – também ajudou a vitória de Obama no Colorado, Nevada e na Flórida.O democrata chegou perto de vencer na Carolina do Norte, um Estado quase garantido para os candidatos republicanos à presidência há apenas alguns anos, e onde ele venceu por uma margem pequena em 2008.

As mudanças demográficas no eleitorado dos Estados Unidos aconteceram com uma velocidade impressionante e deixaram muitos republicanos – que há 24 anos não ganham tantos votos quanto Obama ganhou na terça-feira – preocupados com o futuro. A chamada “estratégia do sul” dos republicanos, de apelar principalmente para os eleitores brancos, parece ter se deparado com uma parede demográfica.

“Antes, nós achávamos que era uma importante considerar a questão demográfica”, disse Al Cardenas, o presidente da União Conservadora Americana. “Agora, sabemos que é uma questão essencial. É impossível ignorá-la.”

O problema central para os republicanos é que os maiores eleitorados dos democratas estão aumentando. Asiáticos-americanos, por exemplo, representaram 3% do eleitorado, acima dos 2% de 2008 – e tendem para o lado dos democratas. Com isso, republicanos dependem cada vez mais de eleitores brancos idosos.

O partido “precisa de mensagens e políticas que apelem para um público mais amplo”, disse Mark McKinnon, um ex-estrategista republicano de George W. Bush. “Esta eleição mostrou que a tentativa de expandir um eleitorado pequeno simplesmente não funciona. Está na hora de colocar um pouco de compaixão de volta no conservadorismo. O partido precisa de mais tolerância, mais diversidade e uma apreciação mais profunda em relação as preocupações da classe média “.

Mas a questão imediata para os republicanos, disseram alguns do partido, é como melhorar sua imagem com os eleitores que já estão perdendo.

“Você não precisa necessariamente mudar sua visão em certas questões e, de repente, assumir a posição dos democratas sobre impostos para ganhar o voto dos negros ou o voto dos latinos ou o voto das mulheres”, disse Corey Stewart, republicano que é presidente do Conselho de Supervisores do Condado em Prince William. “Mas você tem que moderar o tom com o qual expressa suas visões”.

Em Prince William, como em outros lugares, o maior desafio para os republicanos pode estar entre os eleitores hispânicos, dado os seus números. Vitórias de Obama no Colorado, Nevada e Virgínia vieram em parte porque os hispânicos compareceram em massa e votaram nele. No Colorado, 14 % dos eleitores eram hispânicos e Obama teve o voto de três quartos deles. Na Flórida, os eleitores hispânicos formavam quase um quinto do eleitorado, e Obama venceu com cerca de três quintos.

Em Prince William, a população hispânica triplicou de 2000 a 2010, a maioria ao longo do corredor da Rota 1 na comunidade do condado da Cidade Dale. Mas Tom Davis, que costumava representar a cidade de Dale como um membro republicano do Congresso, disse que o problema para seus ex-colegas vai além de apenas conquistar os latinos.

A coligação do partido está se contraindo e não se expandindo, disse ele. Ele precisa encontrar uma maneira de ampliar seu alcance, em parte ao encontrar mais minorias e candidatos do sexo feminino para concorrerem sob a bandeira republicana, argumentou Davis. E ele disse que a divulgação precisa ser verdadeira : “Não basta apenas colocá-los em pôsters e levá-los a convenções”

Republicanos como Davis – e alguns da campanha de Romney – foram rápidos em apontar que a eleição desta semana foi acirrada. Davis disse que “não era hora para os republicanos entrarem em pânico”. Mas ele disse que os republicanos devem ser honestos com eles mesmos sobre o futuro.

“É hora de sentarmos e dizer na prática para onde estamos indo e como vamos agregar peças para nossa coligação”, disse ele. “Simplesmente não existem indivíduos brancos de meia-idade suficiente que possamos juntar para ganhar. Isso não é mais uma opção”.