Ele reaprendeu a viver. Um exemplo de superação

Ele reaprendeu a viver. Um exemplo de superação

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OUT/15 – págs. 07, 08 e 10

Pedro Pimenta escreveu um livro, dirige normalmente, dá palestras de motivação no Brasil e nos EUA. Aos 18 anos teve meningite bacteriana (meningocócica), amputou os dois braços e as pernas. Lutou incessantemente para abandonar a cadeira de rodas

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O maior desafio da vida é superar a si mesmo. Transpor as barreiras do inconveniente, dar a volta por cima para encontrar a sua própria resposta. Imagine um garoto, aos 18 anos, ser diagnosticado com infecção generalizada – em consequência de meningite bacteriana (meningocócica)-,e ter de amputar os dois braços e ambas as pernas – acima dos joelhos e dos cotovelos. O fatídico veredito de amputação, anunciado pelo médico ortopedista, Marcos Guedes, mediante a não reação dos órgãos afetados, foi determinante. Provocou um tsunami emocional que mudaria para sempre a trajetória do jovem paulistano, Pedro Pimenta, hoje com 24 anos. “Quando você perde os membros do seu corpo a sua identidade fica ferida. As histórias que você contava para descrever quem você era, o Pedro que tocava violão, que jogava futebol, que jogava tênis e frequentava a academia, ficaram comprometidas na sua essência. Forma-se uma ferida emocional. E quando as próteses foram colocadas me restabeleci psicologicamente, pois eu não era mais o garoto que deixava as pessoas penalizadas em locais públicos, empurrado em uma cadeira de rodas, dependente”, afirma Pimenta.

Pouco mais das duas da tarde quando Pedro Pimenta chega para a entrevista. Antes, vai ao balcão de atendimento do “Sugar Loaf Emporium”, em Pinellas Park, conversar com os funcionários, com desenvoltura impressionante. As próteses mecânicas nos braços e nas pernas não o incomodam ou provocam constrangimento, pelo contrário. Ele é ágil e falante. Um paradigma que rompem tabus e deixa evidente que tudo é possível e que nada poderá deter o sonho de quem quer que seja. Pimenta está pronto para falar com exclusividade ao “Jornal Nossa Gente”, após um cordial ritual de cumprimentos. Senta-se à mesa ajeitando as próteses. O olhar determinado e as palavras fortes são resultados de quem sobreviveu aos caos e tornou-se um exemplo de superação, mesmo nas delicadas condições de tetra amputado. Ele sorri e espera pela pergunta. Era o início de uma escalada de revelações surpreendentes.

Entenda a história

São Paulo, sexta–feira, 11 de setembro de 2009. Um dia normal para o jovem Pedro Pimenta, com 18 anos, que frequentava academia, tocava violão, jogava futebol e partidas de tênis, além de se ocupar com as aulas diárias do cursinho intensivo para o vestibular de Administração de Empresas. No ano anterior, tinha concluído o colegial, na Escola Mackenzie. O rapaz levava uma vida social intensa, cercado pelos amigos e apoiado pelos pais e pelos dois irmãos. Naquela sexta, havia combinado de almoçar com os colegas, mas o inesperado aconteceu. “Comecei a sentir um mal estar”, lembra. “Eu sentia tontura, febre, dor no corpo e vômito. A princípio pensei que seria uma gripe forte. À noite a situação piorou e fui levado às pressas para o Hospital Albert Einstein, já em estado de choque, com um por cento de chance de sobrevivência. Fiquei em coma uma semana. Tive infecção generalizada, provocada por meningite bacteriana. E quando acordei do coma, os meus braços e pernas estavam gangrenados. A infecção se espalhara pela corrente sanguínea e os meus rins se desligaram. E depois de um mês batalhando pela vida, contraí infecção hospitalar e os meus braços e pernas tiveram de ser amputados às pressas. Os braços foram amputados acima dos cotovelos e as penas acima dos joelhos, o que caracteriza uma situação única porque as amputações dos quatro membros foram acima das articulações, com isso a recuperação fica muito mais complicada. Após as cirurgias, fiquei duas semanas em coma”, lembra Pedro, enquanto ajeita as próteses dos braços. “Permaneci cinco meses e meio no hospital. Passei o Natal e ano novo hospitalizado. Tive alta uma semana depois do meu aniversário, em fevereiro de 2010, sem os braços e sem as minhas pernas”.

O diagnóstico fatal do ortopedista Marcos Quedes, que o levaria para a sala de cirurgia para as amputações, acrescenta Pimenta, foi recebido com alívio. “Eu sabia que a situação era irreversível e aquele sofrimento tinha de acabar. Eu não suportava mais a rotina terrível de hospital. As dores fortes, muita morfina, e, duas vezes ao dia as faixas que envolviam os meus braços e pernas eram removidas para a limpeza dos membros gangrenados. E tudo o que eu queria naquele momento era me livrar daquela situação”. Relata Pedro que o sofrimento manteve a família unida, “isso foi muito importante para a minha recuperação”.

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Próteses nos Estados Unidos

Oito meses após deixar o hospital, “sentia-me fragilizado e totalmente dependente”, enfatiza Pimenta. “Nos primeiros meses de fisioterapia não conseguia me levantar ou me deitar sem ajuda. Os médicos no Brasil diziam que eu ficaria o resto de minha vida em cadeira de rodas. Foi nesse período que recebi a visita da psicóloga, publicitária e deputada federal (PSDB) Mara Gabrilli, que é cadeirante – acidente de automóvel, em 1994, a deixou tetraplégica. Ela é uma pessoa muito especial, uma amiga querida”, conta com emoção. “Eu a conheci no hospital, através de um médico que a levou até o meu quarto. Foi a Mara quem me falou das próteses e me incentivou a vir aos Estados Unidos para colocá-las. O plano era que eu me fortalecesse na fisioterapia no Brasil e, que quando estivesse revigorado, viesse para cá”, comenta.

Em outubro de 2010, Pedro Pimenta foi para Chicago fazer tratamento em um renomado Centro de recuperação, onde são feitas próteses biônicas com alta tecnologia para pessoas amputadas. “Nem sabíamos como iríamos pagar as próteses, mas acabei me adaptando com as próteses mais simples, pois nem sempre o que é caro e tecnológico é o mais adaptável. Os médicos sugeriram a prótese de um braço designe da Segunda Guerra Mundial, que é esta que estou usando agora (mostra a prótese). As próteses das pernas são mais tecnológicas. Ainda assim, os médicos queriam que eu ficasse na cadeira de rodas porque dar dez passos com próteses como esta é considerado um milagre, pois o gasto energético é de três a cinco vezes mais energia quando a amputação é acima dos joelhos. Disseram que eu precisaria de um cuidador ao meu lado, o tempo todo, e que eu nunca conseguiria ficar cem por cento independente”, diz.

Mas Pimenta não desistiu e continuou a sua busca pela independência de clínica em clínica. Foi para Oklahoma para treinamentos de três semanas, comandados por especialistas que reabilitam veteranos de guerra que lutaram no Afeganistão e no Iraque, e que perderam pernas e braços. Um tratamento agressivo ao extremo, voltado para pessoas jovens que querem se reabilitar, encarar o problema de frente. “Em Oklahoma fizeram novas próteses dos meus braços e das minhas pernas. Os treinamentos eram com soldados amputados pela guerra. Um ritmo brutal, no estilo militar. Teve gente que desistiu do tratamento alegando não ter condições físicas para continuar”, conta. “O procedimento é assim: quando você chega, entrega a sua cadeira de rodas para o pessoal do treinamento e eles a trancam e uma sala. Em vez de você ficar andando apoiado em barras paralelas, fazendo sessões de fisioterapia, você coloca as próteses de manhã e só as retira às onze da noite. Um martírio. Foram bolhas, sangue, suor e muita vontade de criar uma nova identidade. Eu lutei com bravura para reconquistar a minha liberdade. Eu que sou esportista, federado em tênis, que jogava bola e frequentava academia, nunca tive um desprendimento energético tão grande na minha vida como aconteceu durante os treinamentos. No terceiro dia, me libertei da cadeira de rodas. A data de seis de dezembro de 2010 é significativa para mim porque foi o último dia que eu sentei em uma cadeira de rodas. Eu doei a minha cadeira”, fala com orgulho. “Três meses depois voltei para mais três semanas de treinamentos”.

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Livro e palestras de autoestima

Atualmente, Pedro Pimenta dá palestras de autoestima para pessoas amputadas e participa de conferências. Viaja para várias cidades do Brasil e dos EUA a convite de empresas. Ele dirige carro normalmente, anda por todos os lados, sem cuidador. Tornou-se independente. É autor do livro “Superar é Viver” (Editora Leya), entre os mais vendidos no Brasil, que escreveu com ajuda das próteses. “Pelo sucesso de minha reabilitação, quase que única no mundo, sou convidado para dar palestras em várias empresas, e passei a ser uma espécie de mentor para as pessoas amputadas.Faço palestras para médias e grandes empresas e viajo mensalmente para o Brasil. Antes,eu vinha com frequência para os Estados Unidos,mas, atualmente moro na Flórida, tenho minha casa, meu carro e sou patrocinado por empresas”, diz.

Cursando o último ano de Economia, Pimenta segue a sua trajetória atuante, voltado para novos empreendimentos. O jovem que superou desafios diante de um futuro que parecia sombrio e sem perspectivas, é referência para os que se acreditam e lutam para superar os seus próprios limites. “Tenho um pensamento muito pragmático da vida. O que aconteceu comigo me fez analisar muito bem a situação. Procurei entender de onde eu vim, o que estava acontecendo comigo. Foi preciso aceitar as coisas que pudessem ser modificadas e também as situações que eu não eu não poderia mudar. E se alguém está em situação difícil nesse momento,à única forma é unir-se com pessoas que você ama e procurar apoio dos que possam te ajudar nessa caminhada. Ter atitude é importante, tenho dito isso nas minhas palestras. Às vezes a gente pensa que a nossa caixinha de ferramentas não é o suficiente para consertar os nossos problemas, mas é. Vale a pena ter pensamento de autossuficiência. Eu poderia inventar mil desculpas, mas procurei o caminho do trabalho, do foco e da superação. Foi uma meta que coloquei para mim mesmo, ser independente, contribuir com a sociedade em vez de usufruir dela”, finaliza.

Serviço

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WaltherAlvarenga

Walther Alvarenga