Dois tópicos interessante sobre Diabetes

Dois tópicos interessante sobre Diabetes

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NOV/2016 – pág. 36

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O paciente com diabetes está mais propenso a sofrer infarto e derrame cerebral?

Quem tem diabetes tem algum sintoma diferente ao sofrer um infarto? As mulheres costumam ser as principais vítimas? Durante o último congresso da Socesp (Sociedade Brasileira de Cardiologia do Estado de São Paulo), realizado no fim de maio deste ano, fizemos uma entrevista rápida com o cardiologista canadense David Fitchett, do Hostpital St. Michael’s, de Toronto, que ministrou uma palestra sobre a relação entre diabetes e doenças cardíacas. A seguir, ele esclarece algumas questões importantes sobre a doença e como ela pode e deve ser evitada. Acompanhe:

1 – Por que o diabetes aumenta o risco de sofrer infarto e AVC?

O diabetes resulta em um número de fatores que aumentam o risco de infarto e AVC. A parede interna ou revestimento interno da artéria (endotélio) perde suas propriedades protetoras, permitindo que células anormais entrem no vaso. Essa disfunção endotelial é a anormalidade inicial na formação de aterosclerose de qualquer etiologia.

O metabolismo do diabetes resulta em partículas de gordura que são quimicamente modificadas e tóxicas à parede da artéria. Essas partículas de gordura modificadas e tóxicas são absorvidas pelas células dentro da parede da artéria. Por fim, elas matam essas células, o que resulta em uma reserva de gordura: a placa aterosclerótica.

As plaquetas, células sanguíneas que iniciam a formação de coágulos no sangue, são mais aderentes em pacientes com diabetes, aumentando a probabilidade de obstrução do endotélio anormal. O endotélio anormal e a inflamação aumentada dentro da parede da artéria vão resultar em um estado que faz com que o revestimento da artéria tenha maior risco de romper, expondo o sangue à placa gordurosa dentro da parede. Isso é um estimulante poderoso para a formação de coágulos que obstruam a artéria, resultando em infarto (artérias coronárias obstruídas) ou derrame (artérias cerebrais obstruídas).

2 – Os sintomas de infarto são diferentes em quem tem diabetes? Ou costumam ser mais silenciosos?

Na verdade, cerca de 20% ou 30% dos pacientes com diabetes têm sintomas atípicos [durante o infarto]. Muitas vezes, eles apenas se queixam de falta de ar ou tontura. Por isso,  muitos não se dão conta de que estão tendo um ataque cardíaco.Na verdade, é fundamental que o paciente com diabetes faça acompanhamento cardiológico frequente.

 3- É verdade que as mulheres têm mais risco de sofrer um infarto do que os homens?

Não, isso não é real. Até os 60 anos os homens são muito mais propensos a ter um ataque cardíaco do que as mulheres, pois elas possuem um protetor natural hormonal, o estrógeno, que confere certa proteção às coronárias. Entretanto, após essa idade os riscos se equivalem e a prevenção vale para ambos os sexos.

4 – Falando em prevenção, por que é tão difícil para as pessoas mudar alguns hábitos de vida que são considerados de alto risco para doenças cardíacas, como sedentarismo e má alimentação, por exemplo? 

Porque são hábitos. Por exemplo, se você adotar determinado estilo de vida  por 30, 50 anos, e tudo estiver indo bem (mesmo que nem tudo vá muito bem do ponto de vista de uma vida saudável), dificilmente você vai mudar. É por isso que temos de começar desde cedo, com as crianças. Educação para a saúde é tão importante, mas nem sempre a discussão sobre a importância de se adotar um estilo de vida saudável faz parte da grade curricular das escolas. Até aulas de educação física foram tiradas de muitas escolas. Conscientizar desde cedo sobre a importância de ter hábitos saudáveis é fundamental.

A International Diabetes Federation reconhece a cirurgia bariátrica como tratamento adequado para os casos de diabetes do tipo 2

O diabetes segue na esteira da epidemia de obesidade.  No mundo, cerca de 8,3% dos adultos sofrem da doença, prevalência que aumentará para 10% em 2030. Nos casos de obesidade grave, a prevalência chega a 23%.

O tratamento com medicamentos permite controlar os níveis sanguíneos de glicose, desde que os pacientes percam peso, sigam dietas rigorosas, abandonem a vida sedentária e tomem os remédios com regularidade, prescrições que poucos conseguem seguir à risca.

O descontrole da glicemia está associado a complicações graves: infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral, insuficiência renal, cegueira, neuropatia periférica e amputações de membros. Paradoxalmente, a insulina e outros medicamentos empregados no tratamento hipoglicemiante provocam aumento de peso, condição que dificulta a normalização dos níveis de glicose. É pensamento mágico imaginar que alguém seja capaz de controlar a glicemia por muitos anos, unicamente à custa de remédios. Nos anos 1990, quando as operações para redução de volume do estômago (cirurgias bariátricas) começaram a ser indicadas para tratamento da obesidade, os cirurgiões verificaram que muitos pacientes entravam em remissão do diabetes sem haver necessidade de medicá-los.

Essas observações demoraram mais de dez anos para serem levadas a sério, porque havíamos aprendido na faculdade que a doença é incurável. Naquele tempo, quem poderia imaginar que os cirurgiões curariam diabetes?

No fim de abril, foram publicados dois estudos randomizados no The New England Journal of Medicine, nos quais um grupo de diabéticos obesos recebeu tratamento medicamentoso convencional, enquanto o outro foi encaminhado para cirurgia bariátrica.

O primeiro estudo, coordenado por um grupo da Cleveland Clinic, acompanhou, durante dois anos, 150 adultos obesos, com diabetes descontrolado. Eles foram sorteados para receber os medicamentos convencionais ou cirurgia bariátrica realizada segundo duas técnicas diferentes. Depois de dois anos, o grupo submetido à cirurgia havia emagrecido de 25 kg a 29 kg, enquanto os que foram tratados clinicamente perderam em média 5,4 kg. Entraram em remissão completa do diabetes 75% a 95% dos pacientes operados (variação de acordo com o tipo de cirurgia), contra nenhum dos casos tratados clinicamente.

O segundo estudo foi conduzido por um grupo da Universidade de Roma em conjunto com colegas da Cornell University. Sessenta portadores de diabetes diagnosticado há mais de cinco anos, também foram divididos em dois grupos: as mesmas duas técnicas de cirurgia bariátrica versus tratamento clínico convencional. Depois de um ano, a glicemia estava rigorosamente controlada em 37% a 42% dos operados; naqueles tratados clinicamente, menos de 6% apresentavam glicemias normais.

Em ambos ensaios, a cirurgia bariátrica obteve controle metabólico superior ao dos hipoglicemiantes. Em nenhum deles houve óbitos ou complicações cirúrgicas graves.

Isso quer dizer que devemos reduzir o estômago de todos os portadores de diabetes?

A resposta é ainda não. Os resultados publicados até agora se referem a pequeno número de pacientes acompanhados durante um ou dois anos, períodos curtos para avaliar uma condição crônica como o diabetes.

Embora seguras em mãos experimentadas, cirurgias bariátricas não são desprovidas de complicações; deficiência de micronutrientes como vitamina B12 e ferro são algumas delas. Há pacientes que se adaptam mal à nova realidade e desenvolvem quadros psiquiátricos; a incidência de alcoolismo entre os operados aumenta.

Há ainda a dúvida sobre o significado das remissões induzidas pela cirurgia: seriam temporárias ou representariam curas definitivas?

A International Diabetes Federation reconhece a cirurgia bariátrica como tratamento adequado para os casos de diabetes do tipo 2 em obesos, nos quais a glicemia não é controlada pelos tratamentos medicamentosos disponíveis. Fonte: drauziovarella.com.br/diabetes/cirurgia-para-diabetes


Elaine Peleje Vac
elaine@nossagente.net
(Médica no Brasil)
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