Doce de Mãe

Doce de Mãe

Fernanda Montenegro (Foto: Globo/Alex Carvalho)
Fernanda Montenegro (Foto: Globo/Alex Carvalho)

Uma mulher de 85 anos, forte, bem de saúde e principalmente de cabeça que, depois de perder a companhia da empregada doméstica e amiga fiel, não se deixou abater. Finalmente sozinha em casa depois de 27 anos, tudo o que queria era viver tranquilamente, sem ninguém lhe vigiando.

Difícil foi convencer os quatro filhos que tentaram, em vão, arrumar outra pessoa para morar com a mãe. Ela sempre dava um jeitinho de fazer o que queria, espantando quem fosse. Bem-humorada, amante de um bom jogo de futebol, de uma boa comida e de um bom samba, chegou a virar a noite cozinhando, bebendo e dançando em um animado pagode na casa de uma das novas companhias. Acabou no hospital, tomando glicose na veia e deixando a família de cabelo em pé.

Errado estava quem pensou que sossegaria com o susto. Mesmo ciente das barreiras que a idade lhe impunha, não deixava de fazer nada. Nada mesmo. Tão longe do impossível, decidiu realizar o desejo do falecido marido e, depois de “roubar” seus ossos do cemitério onde estava enterrado, os levou de ônibus, dentro de um case de violão, a outra cidade para que repousasse ao lado de seus pais. Enganou até mesmo a polícia, acionada pelos filhos após o desaparecimento da mãe. Mereceria sim voz de prisão não fosse a boa intenção da aventura, a doçura de seu ato, quase uma travessura de criança.

Se a comparação é possível, assim é Maria Isabel de Souza, nossa querida Dona Picucha. Eternamente jovem, de alma leve, coração aberto e olhos que só enxergam o lado bom das coisas, ela dá exemplo aos mais novos ao encarar qualquer dificuldade como um aprendizado. Ela é a vovó 2.0, que deixa os netos no chinelo ao viver suas tradições em perfeita conjunção com os avanços tecnológicos do novo século.

Picucha volta agora a encher nossos lares de alegria. A partir de 6 de fevereiro, nas Américas e, dia 13, na Europa, África e Japão, estreia o seriado ‘Doce de Mãe’, de criação de Jorge Furtado e Ana Luiza Azevedo e direção geral de Jorge Furtado, em uma coprodução da Globo com a Casa de Cinema de Porto Alegre. Lá estará ela com suas disputadas panquecas flambadas, entre filhos, genros, nora e netos, demonstrando que não há idade para ser feliz. E, se um personagem assim já é um presente para quem assiste, imagine perpetuado por uma atriz extraordinária como Fernanda Montenegro que, em novembro de 2013, tornou-se reconhecida mundialmente com o merecido Emmy de Melhor Atriz.

Elenco de Doce de Mãe chega à coletiva de imprensa (Foto: Ellen Soares / TV Globo)
Elenco de Doce de Mãe chega à coletiva de imprensa (Foto: Ellen Soares / TV Globo)

“Eu fui para a cerimônia de entrega do prêmio, em Nova Iorque, sem muita expectativa. Já estava envolvida nas gravações do seriado, pensando nas cenas, no texto. Aí, cheguei lá e ganhei. Foi uma alegria imensa, é claro. Principalmente por ver que a Picucha tocou mesmo as pessoas. É uma mulher muito altruísta, de um coração enorme, que faz as coisas sem muito conhecimento, sem pensar nas possíveis consequências, mas sempre com muita humanidade e pensando no bem do outro. Foi e, para minha felicidade, está sendo novamente um prazer imenso realizar esse trabalho”, conta Fernanda, do alto dos seus 84 anos.

A atriz encantou o mundo com sua Picucha, tão real, tão humana, tão próxima de cada um de nós. Com o prêmio, Fernanda mostrou que a personagem, escrita especificamente para ela, não é meramente ficção. Nessas duas mulheres tão especiais, vemos a mesma sabedoria de viver uma vida plena, de fazer o que se gosta e de não deixar que o peso da idade vença os desejos da alma.

 

Quanto mais gente, melhor!

A família continua a mesma, aumentada apenas pelo nascimento de Isaurinha (Letícia Sampaio), filha de Suzana (Mariana Lima) e Jesus (Daniel de Oliveira). Depois de um empurrãozinho da mãe, a dentista finalmente encontrou o amor ao lado do ex-mendigo (e brilhante aluno do falecido Fortunato), que Picucha levou para morar em sua casa.

A novidade agora é que este número pode subir ainda mais. Depois de escarafunchar alguns velhos papéis no armário, Picucha (Fernanda Montenegro) vai desconfiar de que o marido teve uma filha fora do casamento. As evidências são claras: recibos mensais, sempre com o mesmo valor, de um curso de Medicina em nome de Rosalinda Bauer (Drica Moraes). Não coincidentemente o mesmo sobrenome de uma antiga babá de Suzana, que Fortunato despediu sem muitas explicações.

Médica analisa proposta de alugar apartamento da viúva (Foto: TV Globo/Fábio Rebelo)
Médica analisa proposta de alugar apartamento da viúva (Foto: TV Globo/Fábio Rebelo)

Como sempre, com a ajuda de Jesus, único a saber do segredo, Picucha localiza a moça no hospital da cidade e aproxima-se dela para, então, tentar confirmar o parentesco. Ao contrário do que aconteceria com muitas mulheres traídas, a raiva passa longe do coração desta senhora. Comovida, o que ela sente é pena da médica, que não conviveu com o pai. Assim, para compensá-la de alguma forma, Picucha pensa numa maneira de ajudar materialmente.

O primeiro que faz é alugar seu apartamento a Rosa (Drica Moraes) por um valor irrisório, apesar do desacordo dos filhos que sabem quanto vale um aluguel naquele bairro. Mas Picucha não faria diferente, sabendo das dificuldades financeiras pelas quais a médica passa. E ela teria, de qualquer maneira, que alugar o imóvel. Após correr um risco danado, Picucha acaba se convencendo de que não pode mais morar sozinha. Não é que ela recebeu em seu apartamento um total estranho? O homem se apresentou como advogado e a fez assinar uma batelada de papéis de um suposto terreno em nome de Fortunato, que Picucha nem sabia que existia!

Silvio (Marco Ricca), que cuida da vida financeira de Picucha desde que ela ficou viúva, reúne os irmãos Fernando (Matheus Nachtergaele), Elaine (Louise Cardoso) e Suzana (Mariana Lima) para pensarem na situação da mãe. Cada um, de sua maneira e com seus motivos, explica porque não pode tê-la em casa. Não há alternativa, a solução é uma só. Mas, qual não é a surpresa dos quatro, quando Picucha se adianta e pede exatamente o que os filhos lhe comunicariam: quer ir para uma casa geriátrica.

Não pensem em asilo. A palavra não é apropriada para o lugar onde Picucha passa a viver. Também, pudera! Você imaginaria esta mulher presa, em um lugar triste, escuro e sem vida? Vida é o que ela mais tem e o que mais vai doar aos novos amigos. Instalada, revoluciona a casa com longas madrugadas de jogatina – proibido o dinheiro, as apostas vão de doce de abóbora, a cavalinhos de rolha e diuréticos – e com apresentações musicais aos familiares dos moradores. É de lá também que sai a criativa ideia da empresa que vai ajudar Silvio (Marco Ricca) quando o primogênito estiver desempregado: a Velhas S.A. ganhará dinheiro explorando o direito a atendimento prioritário e estacionamento preferencial a idosos. Os funcionários? Ninguém mais que a própria Picucha, seus amigos Alfredinho (Emiliano Queiros), Dora (Camila Amado), Carlinda (Irene Brietzke) e qualquer idoso disposto a trabalhar.

“Doce de Mãe” é apresentada a imprensa (Foto: Globo/Renato Rocha Miranda)
“Doce de Mãe” é apresentada a imprensa
(Foto: Globo/Renato Rocha Miranda)

Picucha acaba se dando conta de que prefere estar com a família e pede para sair da casa geriátrica. A nova morada é o apartamento do filho mais velho, de onde continuará aprontando das suas. Por aí vem a organização de um flash mob e a apresentação de um programa de TV… sempre pensando no bem de todos, é claro.

‘Doce de Mãe’, uma comédia humanista que valoriza as relações familiares, tem criação de Jorge Furtado e Ana Luiza Azevedo, redação final de Jorge Furtado e Mauro Wilson, direção geral de Jorge Furtado e direção de Ana Luiza Azevedo e Olivia Guimarães. O seriado, uma coprodução da Casa de Cinema de Porto Alegre com a Globo, estreia no canal internaional da Globo quinta-feira, 6 de fevereiro, nas Américas e, dia 13, na Europa, África e Japão.