Do It Yourself e a Formação do Caráter

Do It Yourself e a Formação do Caráter

Edição de fevereiro/2020 – p. 22 e 30

Do It Yourself e a Formação do Caráter

Virgilio Galvão
Jornalista e mora em Nova York desde 2015

Logo no primeiro capítulo do meu livro “Estados Unidos na Prática”, eu comento sobre a fixação dos americanos por acrônimos. Um deles representa um dos grandes pilares do modo de vida nesse país: DIY. Ele não significa apenas “Do It Yourself” (Faça Você Mesmo), mas é parte de um contexto muito mais amplo e importante.

Originalmente, DIY quer dizer que você deve fazer aquilo que normalmente pagaria outra pessoa para fazer. Pode ser a construção de uma guitarra, o conserto da máquina de lavar, a troca do pneu da bicicleta ou a manutenção de um blog. Mas por que ele está presente de maneira tão intensa na sociedade americana?

Ao contrário da Europa, os Estados Unidos não possuem um histórico de sociedades feudais. Isso quer dizer que a nação formou-se sem uma divisão de classes tão nítida. É bem verdade que houve escravidão por aqui, mas ela não foi adotada por todos os estados e tampouco foi unanimidade. A Guerra Civil Americana não só foi o resultado dessa discórdia como encerrou o ciclo escravocrata. Uma nação que conta com uma classe média numerosa significa que muitos possuem condições sociais semelhantes e, portanto, não é muito fácil encontrar alguém para prestar um serviço a custo acessível. Se eu e você temos o mesmo nível social, você não terá dinheiro para me contratar, concorda? O custo do meu trabalho é muito parecido com o custo do seu, por isso você certamente vai preferir fazer o serviço. Aqui entra o DIY. Outro motivo que ofereceu caminho livre para a prática é o livre mercado que permite acesso democrático a ferramentas e manuais técnicos. Material de trabalho e informação é tudo que precisamos para encarar um desafio, não é?

O melhor exemplo que eu posso dar para ilustrar tudo isso é a minha própria história. Eu nunca fui uma pessoa habilidosa – no máximo trocava uma lâmpada queimada –, mas tudo mudou quando comprei uma moto de marca americana ainda morando no Brasil. O custo de manutenção da moto era surreal e um belo dia decidi que não gastaria mais rios de dinheiro com isso. Após entender melhor a cultura do DIY, passei a comprar ferramentas e manuais a cada viagem para os EUA, além de assistir vídeos online. Comecei a fazer tarefas simples como troca de óleo e em pouco tempo já me arriscava em serviços mais avançados. Isso me contagiou e passei a cuidar da manutenção do meu apartamento também.

Naturalmente, após a mudança para os EUA, isso foi crescendo exponencialmente. Compramos muitos móveis na Ikea onde é possível economizar um bom dinheiro dispensando a mão de obra da montagem. Foi exatamente o que eu fiz, afinal eu tinha uma caixa de ferramentas respeitável, manuais de montagem e alguns anos de experiência. Posso dizer orgulhoso que montei praticamente todos os móveis do nosso primeiro apartamento. Hoje moramos em uma casa e ela é um eterno playground para eu brincar de MacGyver (se você é muito jovem, procure esse nome no Google para entender melhor a frase).

Mas por que o DIY vai muito além da montagem e manutenção das coisas? Porque, além de movimentar muito dinheiro e distribuir conhecimento, ele nos dá a sensação de capacidade. Ele nos dá o estímulo para encarar desafios. Ele estreita relações. Ele empodera o cérebro. Ele forma caráter.

Imagine um pai e um filho consertando um problema do carro da família. Eles terão a chance de entender o significado de um trabalho em conjunto em busca de um objetivo em comum. Vão conversar, trocar ideias e chegar a conclusões juntos. Vão entender que duas cabeças pensam melhor que uma. Vão aprender a argumentar no caso de uma discordância. Vão perceber que nenhum dos lados está totalmente certo ou totalmente errado. Vão saber falar e ouvir na hora certa. No final, vão estreitar laços e brindar a superação do desafio.

O DIY também nos permite ver nossos bens com outros olhos. Quando a montagem e manutenção deles é de nossa responsabilidade, o apego é maior e a conservação mais cuidadosa. A frieza de mandar os outros fazerem o serviço cria uma distância que nos incentiva a trocar o bem com mais frequência. O adepto do DIY, ao contrário, possui casa, carro, móveis e outros bens mais antigos que a média e – em geral – muito bem tratados. Ele enxerga esses bens como filhos que devem ser zelados para sempre. É por isso que é muito comum um adepto do DIY ser motivo de piada: “Ninguém pode tocar no Fusca do Rafael”; “Não chegue perto do jardim da Sílvia”; “É proibido entrar no escritório do Fernando”. Pois é, só quem suja as mãos para manter suas coisas sabe o valor real delas.

Outro detalhe importante é que o DIY nos leva de volta ao fascinante mundo do aprendizado de diversas ciências que deixamos para trás quando saímos da escola. Ao botar a mão na massa, também botamos em prática princípios da física, química e matemática. Lembramos de detalhes das aulas que achávamos que jamais seriam úteis em nossas vidas. O DIY traz de volta o que a loucura da vida atual nos roubou, a prática de ensinamentos que moldaram nossas vidas nos anos de formação escolar.

Obviamente, o DIY existe no Brasil, mas em uma escala infinitamente menor. A grande maioria se acostumou a chamar um profissional porque a alta desigualdade social desvalorizava a habilidade e, assim, o custo do serviço era acessível à classe média e alta. O preço das ferramentas era um outro problema, seria preciso utilizá-las dezenas de vezes até o dinheiro investido dar retorno. Somente quem trabalhava diariamente com as ferramentas era capaz de fazer dinheiro com elas. Assim, contratar o serviço de um especialista sempre foi mais vantajoso. A classe baixa, obviamente, era a exceção da regra e tinha que se virar com condições de trabalho longe das ideais, o que popularizou o termo “gambiarra”.

Hoje as coisas são diferentes. O custo de vida subiu, a classe média encolheu, cursos técnicos valorizaram o serviço de profissionais e o mundo online permitiu maior acesso a conhecimento e ferramentas. O DIY cresceu no Brasil e, para muitos, não há outra opção. É natural que a primeira onda do DIY brasileiro seja motivada por economia de dinheiro, mas uma segunda onda não deve demorar e vai atrair pessoas com outros interesses. Ao contrário do que muita gente pensa, o principal motivo por trás do DIY entre os americanos não é dinheiro. Uma pesquisa da plataforma de marketing digital Venveo descobriu que apenas 39% dos adeptos do DIY o fazem para economizar. A maioria simplesmente tem prazer em arregaçar as mangas e fazer projetos personalizados.

Outro detalhe interessante é que 50% dessas pessoas são mulheres. Em uma época em que a força feminina é mais visível do que nunca, o DIY é um excelente canal para mostrar igualdade de capacidade entre os gêneros. Também é importante notar que o DIY não elimina a demanda por profissionais. Muitos projetos não são possíveis sem a ajuda deles, por isso é normal chamar um especialista para uma tarefa específica. O DIY não causa desemprego.

Eu espero que o Brasil e os brasileiros percam o preconceito e entendam que o DIY está muito longe da “gambiarra”. Também torço para que o mercado atenda às necessidades desse público como acontece aqui nos EUA. Com o tempo, os brasileiros vão descobrir que esse conhecimento os leva longe e nada melhor do que começar a usá-lo em casa.

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