Defensor da causa dos imigrantes, religioso atende fiéis em Orlando

Defensor da causa dos imigrantes, religioso atende fiéis em Orlando

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NOV/14 – pág. 43

O padre Carlos Anklan, recém chegado à cidade, celebra missa aos domingos, na Paróquia da Ressurreição, levando a palavra de fé e fortalecendo a luta dos indocumentados para a legalização no país

DSC_7832Recém-chegado à Orlando, o padre Carlos Anklan é o porta voz da Comunidade Brasileira na Paróquia da Ressurreição, ao lado do padre Germano Vargas, levando a palavra de fé e esperança aos fiéis durante a missa celebrada aos domingos, às 19h30. Ele é o substituto do padre Moacir Balen, convocado para comandar a sede da Congregação Missionária Scalabriana em New York. Uma missão extremamente importante do sacerdote, junto aos emigrantes, em continuidade ao trabalho missionário nos Estados Unidos, após atender em outras paróquias no país. “São 17 anos de estrada e tenho feito a minha missão com amor e dedicação aos imigrantes que tanto precisam do nosso apoio”, diz.

Paranaense da cidade de Sabaúdia, o padre Anklan atendia na cidade de Delray Beach, na Flórida, onde permaneceu durante seis anos. “A missão do pároco é ajudar os fiéis, seja americano, hispânico ou brasileiro. Não há acepção de pessoas. Um trabalho evangelizador e a nossa meta é dar apoio, ir de encontro às necessidades de cada um deles”, completa. “Na paróquia da Ressurreição eu e o padre Germano Vargas, que é colombiano, celebramos missas aos domingos à noite. Às onze horas da manhã, ainda no domingo, a missa é celebrada na cidade de Altamonte Springs, na Paróquia da Anunciação, situada na grande Orlando”, avisa.

Indagado sobre as necessidades do imigrante em meio aos desafios do idioma e a expectativa de mudanças nas leis de imigração, o religioso foi categórico. “Grande parte dos imigrantes que vive nesse país está longe dos familiares no Brasil e, na maioria dos casos, não tem ninguém próximo o que gera insegurança. O laço familiar é muito forte e temos a necessidade dessa proximidade com a família”, fala. “O imigrante fica abalado porque não pode viajar para rever os seus familiares pela falta de documentos. A insegurança ainda é maior para os residentes que não possuem a drive license e que não podem dirigir com confiança, receosos de serem pegos nas rodovias. Muita gente foi surpreendida dirigindo sem a carteira de motorista, e, em alguns casos, ocorreu a deportação”, lamenta Anklan. “A igreja é o elo de fortalecimento entre o imigrante e a família”.

Quanto ao encargo da igreja diante do panorama de incertezas no dia a dia, o padre Carlos Anklan atentou-se para o seguinte fato: o alerta. “O papel da igreja é o de alertar. Temos conversado com os imigrantes, principalmente os jovens, para que estejam atentos, acompanhando os acontecimentos do país, principalmente no que se refere às leis de imigração. Não podemos ficar alienados aos fatos. O nosso alerta também se estende aos emigrantes prestes a se aposentarem. Eles precisam cuidar da aposentadoria seja aqui – no caso os legalizados – ou mesmo no Brasil. A idade vai chegando e a energia já não é a mesma. As pessoas devem se preparar para o futuro. Não podem deixar as coisas acontecerem aleatoriamente”, comenta. “Eu tenho feito com determinação o trabalhado de conscientização junto aos brasileiros”, diz. Em sua trajetória religiosa, explica, “atendi na Igreja Nossa Senhora da Vitória, em Mount Vernon, em New York, durante três anos. Trabalhei em Miami por dez anos, depois fui para Pompano Beach, enfim, uma árdua trajetória missionária”, conta.

Empenho da igreja junto a Imigração

Perguntado sobre qual o empenho da igreja junto aos oficiais de imigração, o padre Carlos disse que tem sido relevante. “As leis de imigração nos Estados Unidos são duras porque criminalizam e penalizam os ilegais. Mas a igreja é participativa na causa dos imigrantes, uma voz conciliadora junto aos órgãos de imigração no país”, alerta. “Temos feito reuniões nas igrejas com a participação da brasileira, Vanessa de Aguiar Danley, que é advogada de imigração. Ela tem orientado a nossa Comunidade quanto a preparação da documentação para aplicar para o green card. A doutora Vanessa é muito eficaz e tem feito um ótimo trabalho, esclarecendo a posição do Congresso Americano junto as novas leis de imigração “, disse Anklan.

Outro tópico enfatizado pela doutora Vanessa, lembrou o missionário, é sobre a Lei “Dream Act”, sancionada pelo Presidente Barack Obama no dia 15 de Junho de 2012, que dá proteção temporária contra deportações e que permite aos jovens de trabalharem legalmente nos Estados Unidos. A lei beneficia os jovens até 30 anos, que entraram no país antes dos 16 anos, acompanhados dos pais. “Todos querem palavras de esperança e a nossa preocupação é motivar os jovens e os adultos a tirarem a documentação para se legalizarem no país. Isso devolve ao imigrante a auto-estima e a confiança, também permitindo que ele recupere a sua identidade e que possa se reintegrar ao Brasil. A Pastoral do Imigrante tem feito um excelente trabalho nesse sentido”, complementa o religioso.

“O imigrante está pagando por um crime que não cometeu. Enfrenta as duras questões imigratórias diariamente e permanece em posição de espera para ter liberdade no país, o direito de ir e vir. Agora, algo que abomino é a construção de muros na fronteira entre os Estados Unidos e o México. Algo muito questionável. Óbvio que o país tem o direito de defender a sua fronteira, mas a construção de muros é discutível”, opina preocupado.

Nos Estados Unidos a religião é caracterizada por uma grande diversidade de crenças e práticas. As religiões que abrangem a herança multicultural dos imigrantes levaram o país a se tornar o de maior diversidade religiosa do mundo. E segundo o padre Carlos Anklan, quando questionado sobre o assunto, “é preciso saber dialogar com as diferenças e denominações. A igreja tem feito isso. O Papa Francisco visitou a Albânia – a Capital Tirana -, um país muçulmano, mas prevaleceu o diálogo. Um país que há 50 anos atrás se declarou ateu hoje busca o diálogo e recebeu o pontífice. Pelo bem da comunidade é preciso que haja o ponto de convergência”, conclui.

WaltherAlvarenga

Walther Alvarenga