Decisões difíceis

Decisões difíceis

Edição de agosto/2018 – p. 38

Decisões difíceis

De repente, ao refletir sobre a minha nova realidade, aquela perspectiva de segurança conhecida trouxe-me tristeza. Há 50 anos, eu me sentava no café da frente e olhava para a varanda dos meus pais, que ficava do outro lado da rua, com as suas janelas meio abertas, projetando uma casa cheia de vida, afazeres domésticos e projetos de amor. Muitas vezes, a minha mãe ou o meu pai acenava-me lá de cima e, quando os nossos olhos se encontravam, sorríamo-nos prolongadamente, cultivando ligações aconchegantes de pertencimento.

Hoje, as janelas fecharam, a varanda não tem ninguém e, em breve, tudo o que pertenceu aos meus pais será dividido. A casa, com mais de 60 anos, vai ficar vazia; aquela “minha” chave será entregue a quem não vai entender nada sobre nós.

Como emigrante, pergunto-me: “Levo tudo, um pouco ou nada para os Estados Unidos? Transfiro certos objetos para outra casa em Portugal e mantenho um pouco de mim aqui? Ou aceito que emigrei e a minha vida (amigos, trabalho, nova família) está naquele outro continente?” Se assim eu decidir, reterei apenas boas memórias da minha infância e da adolescência.

Durante anos, praticamente todas as minhas férias foram em Portugal, para onde iam todos os extramonetários. Será que eu quero me manter ainda “obrigatoriamente” ligada a esse país, comprando uma casa e colocando as “nossas coisas” lá? Ou posso decidir tudo isso, um dia… quem sabe mais tarde?

A minha mãe faleceu há dias. Até o fim, eu não conseguia pensar muito em “coisas” referentes a pertences e partilhas, pois custava-me olhar para tudo com olhos oportunistas e ela ainda viva (no entanto, acho saudável fazê-lo, especialmente em conjunto, para quem é capaz). Eu já sabia que não queria aquela casa em um quarto andar sem elevador. Minha mãe ficava triste com essa perspectiva, por isso sempre saíamos desse assunto rapidamente.

Meu luto já começou mesmo antes de minha mãe falecer. Hoje tocar em tudo que foi dela é uma honra. Eu sei que mais luto virá depois, quando eu já não estiver mais distraída com os afazeres e as decisões que necessitam ser tomadas.

Não gosto de fases indecisas, porém entendo que, para a melhor escolha, é preciso estar presente, ouvir o que sinto e confiar na revelação clarificadora a cada dia. Em pouco tempo, estarei de volta à rotina diária e terei calma, porque escolhi o melhor que pude em um dos momentos mais difíceis da minha vida.

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