Culpa e Vergonha

Culpa e Vergonha

Edição de julho/2019 – p. 32

Culpa e Vergonha

“Você não tem vergonha?”, minha mãe dizia quando eu fazia algo errado e ela queria me corrigir. Rapidamente, eu sentia uma energia pegajosa que escorria da minha cara vermelha e baixa, passava por meu pequeno corpo e terminava no chão, ensinando-me a lição desse dia para sempre.

Dr. Dispenza refere-se à emoção como “energia em moção”, em seu livro “The Brain That Changes Itself”; com tradução em português “O cérebro que se automodifica”.

Eu acredito que o sentimento de culpa é aquele que nos ajuda a reconhecer o que fizemos de mal e nos move em direção a melhorias, seja pedindo perdão, fazendo um ato de restituição ou um plano mental de como fazer melhor na próxima. A vergonha, ao contrário, é uma energia parada que nos faz mal e da qual não podemos fugir, tipo água estagnada que cheira mal, sobre a qual evitamos até mesmo falar. No entanto, nada é solucionado sem um diagnóstico, um reconhecimento e uma confrontação.

Em meu caso, quando era criança, a vergonha era mais parecida com o reconhecimento de culpa. Às vezes, a vergonha é um sentimento que não nos pertence, mas que adotamos como se fosse nosso. Aí, a situação complica-se. Por exemplo, a vergonha de ter um pai alcoólico, um irmão viciado em drogas, uma mãe com doença mental, um abuso sexual em criança ou uma violação em jovem são situações que trazem sentimentos que nos foram em parte impostos, pois eles não são nossos. Para resolvê-los, precisamos “airá-los” (como quem abre as janelas da casa de vez em quando para deixar sair o ar carregado e entrar o oxigênio da rua).

Embora contraintuitivo, devemos nos ventilar em primeiro lugar – pensando, escrevendo, lendo sobre a vergonha – e depois conversar com alguém de confiança, um profissional, por exemplo. Precisamos acalmar-nos, ganhar a capacidade de raciocinar sobre os acontecimentos e impactos na nossa vida e perdoar-nos. Nenhuma criança quer ser abusada, sendo a ingenuidade “roubada” mesmo que existam aspectos do abuso que sejam positivos (como a reação física agradável à determinada estimulação). Os sentimentos alheios que proporcionam circunstâncias disfuncionais não são nossos, mesmo que os partilhemos em algum momento.

“A vergonha é a emoção mais debilitante, a que nos traz piores consequências, a mais difícil de identificar e sobre a qual falar (…). Rói a visão de nós próprios, a nossa responsabilidade e habilidade de melhorar as relações quebradas”, levando muitas vezes a “atitudes defensivas e de negação, fazendo-nos incapazes de ouvir os outros, de nos orientarmos à realidade e de nos responsabilizarmos pela dor que causamos”. Harriet Lerner em “The Secret of Shame: transforming buried pain into authenticity and voice”. Em português:  “O Segredo da Vergonha:  transformar a dor enterrada em autenticidade e voz”.

“A vergonha é uma reação emocional, sinal de uma avaliação negativa (de nos próprios) em relação a padrões sociais e morais”. Peter Fonagy em “The Feeling that Destroys the Self:  The Role of Mentalizing in the Catastrophic Sequelae of Shame”. Em Português: “O Sentimento que se Autodestrói:  o papel de mentalização na sequela catastrófica da vergonha”. Dr. Fonagy refere-se ao papel importante da mentalização, isto é, “uma cognição social geralmente apoiada por um sistema social.  A vergonha força o indivíduo a desconectar-se desse sistema e perder apoio para poder entender a experiência (…) levando à destruição do ego”.

Sem apoio, sem alguém que ajude a traduzir as circunstâncias, sem proteção, correção ou justiça, ficamos sós e confusos; e o desespero pode levar à dependência de substâncias, desordens de alimentação, depressão e suicídio e trauma. Nesses e em outros casos, a vergonha pode motivar a pessoa a querer desaparecer ou ser agressiva com ela mesma ou com os outros.

Pessoas com identidades homossexuais, bissexuais ou transgêneros são, muitas vezes, vistas como anormais ou incorretas.  Há vergonha dentro de uma negatividade interiorizada, produto de um estigma social. O mesmo poderá acontecer com pessoas que já estiveram presas ou migrantes e suas famílias.

Luciana Fialho falou sobre o tema e referiu-se a situações bem mais comuns como a “educação, renda, corpo, estado civil etc.” (https://maisfe.org/para-refletir/diferenca-entre-culpa-e-vergonha26484/ ). Elas podem potencialmente proporcionar pensamentos negativos que afetam a autoestima.  A vergonha “é a mãe da conversa negativa sobre si mesmo”, disse Fialho.

Até em nível laboral ou corporativo, a vergonha pode ser utilizada como meio manipulativo de disciplina, comportamento e controle. Conforme me referi – no artigo do mês passado – sobre a fetiche de um senhor, devemos ultrapassar o medo de confrontar as circunstâncias que levam à vergonha, o que, infelizmente, raramente é feito. Como portuguesa, crescida na Península Ibérica, vejo “a vergonha” desta maneira: deve-se confrontá-la como uma tourada e olhá-la e dominá-la, mas com compaixão e empatia. Ao contrário da Espanha, as touradas têm “pegas” em Portugal. Um homem com mais sete pessoas imobiliza o touro. É necessário ter coragem, mas tudo se torna mais fácil quando temos um grupo de amigos ou aliados. Também nós precisamos dos outros para crescer saudavelmente e, se mais tarde for preciso, imobilizar a vergonha, situação oposta a criar e manter segredos, bem como à preocupação do que as pessoas pensarão ou o que elas dirão se descobrir algo a nosso respeito.

Os codependentes anônimos ensinam que “o que os outros pensam e dizem sobre você não interessa”. Obrigada mãe por me proteger, amar e ter me guiado a desenvolver a minha consciência e conduta.

Em 27 de setembro, em Houston, Brené Brown (colega e autora de vários livros e de Ted Talks) dissertará sobre o tema tratado aqui. Para mais informações, visite: http://bit.ly/2QcUr14.
Para qualquer pergunta ou comentário, contate-me: http://www.ortigao.com