Amor à Vida: Entrevista com os diretores Wolf Maya e Mauro Mendonça

Amor à Vida: Entrevista com os diretores Wolf Maya e Mauro Mendonça

wolfmaiaWolf Maya

Formado no Conservatório Nacional de Teatro, no Rio de Janeiro, Wolf Maya, soma a seu currículo o curso de Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mas a paixão pelas artes falou mais alto. Em 1979, teve sua primeira experiência diante das câmeras participando como ator da novela ‘Memórias de Amor’, de Wilson Aguiar Filho. Como diretor, foi em 1982 que ele esteve à frente de ‘Elas por Elas’, de Cassiano Gabus Mendes e ‘Final Feliz’, de Ivani Ribeiro, na qual também atuou. Tornou-se diretor de núcleo em 1996 e de lá para cá coleciona trabalhos memoráveis como ‘A Viagem’, ‘Mulheres de Areia’, ‘Barriga de Aluguel’, ‘Senhora do Destino’, ‘Hilda Furacão’, ‘Cobras & Lagartos’, ‘Cinquentinha’, ‘Fina Estampa’, entre outros.

Além da televisão, Wolf manteve sua carreira no teatro como ator, diretor e produtor de várias peças.

‘Amor à Vida’ é ambientada em São Paulo.  Que cidade é esta que servirá de cenário para a novela?

Wolf Maya – Há tempos nós estávamos querendo fazer uma novela que se passasse em São Paulo, mas em uma São Paulo contemporânea, miscigenada. O Walcyr Carrasco escreveu uma história que abriga várias etnias, vários formatos, várias famílias. E é esse universo que a gente quer retratar, nesta cidade pop, que é o maior charme. Isso vai aparecer na música, no acento, nos hábitos, na formação da família, nas classes sociais. Na nossa logística, prevemos, pelo menos, dez idas a São Paulo ao longo da novela. Estaremos lá uma vez por mês, no mínimo. Vamos mostrar o que acontecem na cidade, nas ruas. Temos personagens que circulam pelo Pacaembu, pelos arredores, pela periferia. E 80% das externas da novela acontecem em São Paulo.

Como foi a preparação de prosódia dos atores?

Wolf Maya – Além das leituras, eu já venho implantando em meu processo de trabalho o estudo da sonoridade, da prosódia, da forma de falar. Isso tem trazido excelentes resultados. São Paulo é uma cidade plural, rica, com tantas origens diferentes, acentos árabes, italianos, nordestinos… Assim será na novela. Buscamos esse acorde, essa formação fonética, do interior e da capital. Esse foi um dos estudos mais interessantes dos nossos atores, que poderá ser visto no ar.

A história central gira em torno de um hospital, o San Magno. Ele é mais um personagem da novela?

Wolf Maya – O hospital é um microcosmo. A assepsia e a estética dura deste ambiente ficam diluídas diante da riqueza dos personagens, que são coloridos, esfuziantes, cheios de personalidade. O que acontece no hospital é relacionamento. Relação entre pessoas, pessoas muitíssimo diferentes umas das outras. A gente tratará da Medicina, do circuito médico. Mas não sobre o doente, o sangue, a emergência, o pronto-socorro. O hospital é utilizado como seria utilizada uma grande universidade ou um palácio do século passado, onde as pessoas convivem, trocam informações e ideias, vivem amores e entram em conflito. Onde há classes e importâncias diferentes. Onde as pessoas se conquistam e se detestam. O hospital é uma bela locação dramatúrgica.

No elenco de ‘Amor à Vida’ há atores com quem você já trabalhou inúmeras vezes e outros com quem você está se encontrando pela primeira vez. Como é equilibrar esta equação?

Wolf Maya – A formação deste elenco foi especial. Realmente, há muitos atores com quem eu já trabalho faz tempo. Eu estou na Globo há mais de 20 anos, com trabalhos de sucesso e marcantes com vários deles. Para ‘Amor à Vida’, fizemos uma bateria enorme de testes em São Paulo, durante três meses. E muita gente boa passou por lá.  Buscávamos o jovem ator paulistano, que tivesse o acento paulista e o jeito de São Paulo. Conseguimos reunir um elenco com todas as idades e etnias. Há atores desconhecidos, que o público verá na tevê pela primeira vez. Mas a maioria do elenco é essencialmente paulista, uns do teatro, outros importantes no cenário paulistano, como Antonio Fagundes, Eliane Giardini, Luis Melo e Fúlvio Stefanini. O público verá um perfil bastante situado em São Paulo, com acento original, falado por quem nasceu, viveu e fala exatamente daquele jeito.

O que esperar da trilha sonora? O reflexo desta São Paulo contemporânea?

Wolf Maya – A trilha é feita em parceria. O Mariozinho Vaz é o condutor. Trabalhamos em conjunto com Walcyr Carrasco e Mauro Mendonça Filho, o meu diretor-geral, que está presente em tudo. A trilha está ficando muito interessante. Sim, ela situa São Paulo e tem várias vertentes. Tem um lado muito moderno, que mostra a São Paulo pop. O público vai ver e reconhecer quando ouvir uns três ou quatro temas, moderníssimos. Por outro lado, alguns temas foram revisitados. São regravações cantadas por novos intérpretes. Zeca Pagodinho canta Adoniran Barbosa, Lulu Santos canta Roberto Carlos e por aí vai. E além disso tem a trilha composta, incidental. Que é como se fosse a trilha de um filme, com várias inserções. A direção do Maurinho é muito cinematográfica e a trilha faz este casamento.

Como está sendo dirigir uma história escrita por Walcyr Carrasco?

Wolf Maya – Eu estou adorando essa parceria. Já tive grandes parceiros na tevê. A Glória Perez foi a primeira. O Agnaldo Silva é o parceiro eterno. O João Emanuel Carneiro eu adoro e quero reencontrar. Com o Walcyr Carrasco foi uma surpresa maravilhosa. Ele é adorável, inteligente e adaptável. Ele é muito moderno neste sentido. Walcyr tem uma característica super especial, ele é apaixonado pelos personagens, além de ser um semeador de história. Uma história muito boa de se dirigir, que oferece possibilidade de criação para o ator e diretor. É uma trinca interessante. Com ele, temos a força de São Paulo, a força de uma boa história e um elenco bárbaro.

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Entrevista com Mauro Mendonça Filho

Foi de Mauro Mendonça Filho a direção geral de ‘O Astro’ e ‘Gabriela’, seus trabalhos mais recentes na Globo, onde ingressou em 1984 como editor na novela ‘Partido Alto’, de Aguinaldo Silva e Glória Perez. Quatro anos mais tarde, começou como assistente de direção em ‘Vale Tudo’, de Gilberto Braga. Como diretor, Mauro assinou seu primeiro trabalho em 1990, com a minissérie ‘A.E.I.O. Urca’, de Doc Comparato e Carlos Manga. A direção geral de um programa aconteceu em 1995, no especial ‘A Comédia da Vida Privada’. Na televisão, ele também participou de trabalhos como ‘O Dono do Mundo’, ‘Renascer’, ‘Memorial de Maria Moura’, ‘Toma Lá Dá Cá’, ‘Negócios da China’ e ‘S.O.S Emergência’. Mauro Mendonça Filho tem formação em comunicação, cinema, artes dramáticas e direção de teatro.

O San Magno, que é um hospital, vai ambientar grande parte das tramas de ‘Amor à Vida’. O que o público pode esperar dessas cenas que se passarão, por exemplo, em consultórios médicos e salas de cirurgia?

Mauro Mendonça Filho – Usaremos alguns tipos de filtros para que as cenas sejam quentes, tenham cor. Primaremos pelo lado mais poético e divertido dessas cenas. Com isso deixaremos de lado essa história de que o hospital precisa ser sisudo, frio. É a vida está em jogo e a luz ajuda a quebrar com esta marcação. Outra característica da direção é a câmera na mão, que será muitíssimo usada. A câmera entrará nos cenários e passará mais tempo acompanhando os atores.

Esse perfil de direção vai influenciar na sua maneira de trabalhar com o elenco? Como você se avalia como diretor?

Mauro Mendonça Filho – Primeiro um diretor tem que ser fiel à história, acima de qualquer coisa. Ele tem que ser um contador de histórias, tem que estar muito antenado com o que o autor está pensando, escrevendo. E conduzir os atores neste sentido. Eu foco o meu trabalho totalmente na direção de atores e procuro entender como eles estão pensando. Fico cúmplice dos processos deles ao invés de cobrar resultados.

São Paulo tem muita importância como cenário da história. Vocês pretendem voltar a gravar na capital paulistana. Mas de que outra forma a cidade aparecerá em ‘Amor à Vida’?

Mauro Mendonça Filho – A São Paulo da novela não tem nada a ver com essa ideia de metrópole urbana de paredes. O nosso desejo é ilustrá-la de uma forma colorida e tirar essa ideia cinzenta que as pessoas tem. É uma cidade alegre, cosmopolita, quase incontrolável. Uma metrópole de mil esquinas, de mil becos. Por mais que tentemos, não conseguimos mostrar por inteiro. Quando não estivermos gravando por lá, usaremos outros recursos, como a inserção de imagens de São Paulo nas cidades cenográficas. Em uma delas, ficará clara que a localização do San Magno é na Avenida Paulista. De uma maneira ou outra, São Paulo estará sempre presente. Alguns personagens também se debruçarão por janelas que mostram paisagens paulistanas, como Paloma, personagem de Paolla Oliveira.

Com esta proposta de mostrar um outro lado da cidade, qual ritmo você vai imprimir nas cenas de São Paulo?

Mauro Mendonça Filho – É verdade que estamos fugindo um pouco da selva de pedra. Mas não podemos negar que São Paulo é uma cidade que não para. É como se tudo acontecesse ao mesmo tempo e agora. E essa efervescência não vai passar despercebida. As cenas são ágeis, com ação, com ritmo. Em um capítulo, muita coisa pode acontecer. E vamos caminhar juntos com alguns personagens, como Márcia (Elizabeth Savalla), que roda por toda a cidade para vender seus cachorros-quentes.

Como foi o processo de escolha de locações em São Paulo?

Mauro Mendonça Filho – Acompanhei de perto as escolhas feitas pela produção da novela. O Walcyr Carrasco já identifica muitos cenários em seu texto, isso facilita bastante.

Mas a novela também gravou no Peru. A escolha de locações também aconteceu desta forma?

Mauro Mendonça Filho – Viajamos para o Peru duas vezes antes das gravações começarem para a escolha dos cenários. Em setembro do ano passado foi a primeira delas. Fomos eu, Walcyr Carrasco, Wolf Maya e Verônica Esteves, a gerente de produção de ‘Amor à Vida’. Depois voltamos com a equipe de criação. O Walcyr tinha essas imagens muito fortes na cabeça, por conta de uma viagem que ele havia feito anos atrás. Concordo que o começo dessa história só poderia mesmo se passar no Peru. O país é incrível, nos rendeu imagens lindíssimas e histórias interessantes. O nosso elenco é muito conhecido na América Latina. Durante as gravações, Antonio Fagundes, Susana Vieira e Paolla Oliveira foram reconhecidos inúmeras vezes.

Você está repetindo uma parceria com Walcyr Carrasco. Mas desta vez, com a participação de Wolf Maya. Como será este trabalho?

Mauro Mendonça Filho – Venho de um feliz trabalho com Walcyr Carrasco, que foi ‘Gabriela’. Com o Walcyr, a troca é sempre estimulante. Agora, em ‘Amor à Vida’, somos um trio. Temos o Wolf Maya, diretor de núcleo, comandando o nosso time, acrescentando talento, experiência e sabedoria.

‘Amor à Vida’ se propõe a tratar de diferentes assuntos. Como defini-la?

Mauro Mendonça Filho – ‘Amor à Vida’ é uma novela que fala de famílias, amor e histórias recheadas de segredos. É uma novela eletrizante, com emoção e ação. Como teremos um hospital como cenário principal da trama, queremos passar um olhar mais humanizado sobre esses profissionais. Convidei o preparador de elenco Sergio Penna para fazer esse trabalho com os atores, que também fizeram laboratório em um hospital. Isso ajudou bastante a conceituar a novela para cada um, de forma que cada ator pudesse entender profundamente o seu personagem.

Qual a expectativa em dirigir a sua primeira novela das nove?

Mauro Mendonça Filho – É a mesma expectativa e responsabilidade em todos os trabalhos que faço. Dou o meu melhor para que o resultado seja sensacional para o público. Posso dizer que estou muito feliz.