A vida de caminhoneiro nas estradas dos EUA

A vida de caminhoneiro nas estradas dos EUA

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JAN/16 – pág. 24

Ele já percorreu vários estados do país e, atualmente, transporta cargas na Flórida. O gaúcho, Mário Renato Flores da Silva, faz um relato impressionante, abordando sobre roubo de cargas, os desafios das estradas e a polêmica do uso de rebites

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Ele percorreu os principais estados americanos, transportando cargas secas – alimentos, produtos químicos -, em atividades que requer energia e conhecimento das rodovias. Mário Renato Flores da Silva é caminhoneiro, atualmente trabalhando no Estado da Flórida pela sua companhia de transportes, mantendo contato com os agentes de cargas da região. “Eu tenho contrato de trabalho com os agentes de cargas, eles me passam a carga e faço transportes diários. Eventualmente as cargas são feitas no mesmo dia, com raríssimas exceções”, explica. Ex-técnico químico, tendo atuado como analista de laboratório da Braskem, na cidade de Triunfo, no Rio Grande do Sul, Mário chegou aos EUA em março de 1998, a convite do irmão que tinha uma concepção da Disney. “Ele me convidou para trabalhar e eu aceitei, na ocasião tinha saído da Braskem. Quando cheguei aqui vi uma propaganda sobre caminhões que me chamou a atenção. Eu gosto de aventuras. Não quero local fixo, prefiro estar em movimento, conhecer pessoas novas, então me identifiquei com a profissão de caminhoneiro”, relata.

“No ano de dois mil abri a minha companhia em Orlando, – “Lasertoner Exchange” -, mas não era de transportes de cargas. A companhia manufaturava cartuchos de impressoras. Essa empresa me levou ao green card e a cidadania. Posteriormente eu criei um ramo de transportes nessa mesma companhia, a ´MDS TruckLine´, então passei a fazer transportes de cargas para alguns amigos e viajei para vários estados americanos”, lembra Renato. “Depois voltei a trabalhar na Flórida, durante quatro, transportando contêineres. Em 2008 retornei às estradas, e, a partir de 2010 passei a trabalhar na Flórida”.

Em suas viagens pela Flórida, conta Renato, ele aproveita para conhecer as cidades, transformando uma tarefa de trabalho em algo prazeroso. “Eu gosto de conhecer lugares novos, então aproveito para andar pela cidade e contemplar as suas belezas naturais. Eu adoro experimentar comidas, afinal, caminhoneiro tem que comer bem (sorri). Observo a cultura do lugar”. E quando perguntado sobre as histórias curiosas da profissão, que chamaram a sua atenção, Mário foi enfático: “no Texas, em Amarillo, tem um restaurante muito interessante então fui até lá com o meu amigo, o Pacheco, isso há dez anos. Lá é servido o maior bife do mundo, cerca de dois quilos e meio de carne para uma pessoa. O restaurante desafia os clientes com uma competição bizarra, ou seja, quem conseguir comer a carne, além dos complementos do prato, não paga a conta. Pouquíssimas pessoas conseguiram essa façanha. E por mais que eu seja gaúcho, que gosta de carne, não encarei o desafio (risos)”.

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“A primeira viagem que fiz fora do estado da Flórida, foi para Louisville, no Tennessee. Eu ainda estava me familiarizando com o caminhão e carregava cascas de nozes moídas para fazer cola. Na ocasião chovia muito. Em meio à chuva torrencial o meu caminhão estragou a embreagem a dez metros do local de descarregamento. Isso ocorreu na sexta-feira e precisei contratar guincho para tirar o caminhão de lá e só pude sair na terça-feira seguinte. Isso me custou mil e setecentos dólares”, fala com desolação. “Na segunda viagem para Hatfield, Massachusetts, eu peguei uma nevasca, a partir da Pensilvânia, e levei nove horas e meia até o meu destino. Pela minha falta de experiência eu não levei aditivo para o diesel e não tinha o produto para não congelar o vidro, e o para-brisa acabou congelado, foi um caos. Eu confundi a cidade de destino e achei que Hartford, em Connecticut, fosse Hartfield. Liguei para o pessoal de recebimento e disse que estava em Hartford, bem próximo, mas, para a minha surpresa me informaram que eu me encontrava a setenta milhas do meu destino (Renato sorri com saudosismo). Estas foram as minha primeiras e tumultuadas viagens”.

Roubos de cargas e caronas

Quanto à segurança nas estradas, contra roubos de cargas, entre outras ocorrências, disse o caminhoneiro que, “existem os roubos de cargas, mas nós temos aqui uma rede de paradas de caminhões muito bem estruturada. Geralmente são áreas grandes onde têm seguranças rondando. O parâmetro de segurança nos Estados Unidos é diferente do Brasil, então quando paro para descansar, durmo com tranquilidade porque sei que há um sistema eficiente de proteção ao caminhoneiro, compreende? Agora, existem os lugares onde acontecem os roubos de cargas como em Chicago e Miami, porém, quando ocorrem estas estatísticas de roubos, geralmente o motorista está envolvido”, alerta. “Aqui acontece também o roubo de partes de caminhão. Quando acorreu o Furacão Sandy, em Nova York, que inundou Nova Jersey, aqui na Flórida um grupo de pessoas roubou computadores de caminhões para vender. Os computadores eram vendidos por até dois mil dólares”, relata.

Indagado sobre as caronas nas estradas, disse Renato que “eu não dou caronas. É uma norma da empresa e não posso fazer isso, exceto para a minha esposa e o meu filho – Cláudia e Victor. É um risco muito grande porque se algo ocorrer com o carona e eu não tenho o seguro, vou ter que arcar com as consequências. O meu seguro não cobre caronas, não cobre os danos pessoais daquela pessoa”, enfatiza. “Outro fator primordial é que o caminhoneiro na estrada tem de prestar atenção na sinalização para evitar transtornos. E quando existe um acidente o policial pressupõe que a culpa é do caminhoneiro. Eu sou profissional e tenho de estar atento” conclui.

Com o objetivo de dirigir horas seguidas, o caminhoneiro geralmente faz uso de rebites, anfetaminas prejudiciais à saúde do motorista, pois são drogas estimulantes do sistema nervoso central e fazem o cérebro trabalhar mais rápido. Consultado sobre o assunto, Mário Renato Flores foi contundente, afirmando que “eu conheci no Texas um senhor que usava rebites. Mas ele era da antiga, ocasião em que a lei não era tão rigorosa. Hoje existe um controle determinante quanto ao tempo de trabalho do caminhoneiro. É permitido que o caminhoneiro trabalhe apenas quatorze horas ao dia, sendo que três horas, dentre essas quatorze horas, deve ser para abastecimento e manutenção do caminhão. Hoje o caminhoneiro tem a obrigatoriedade de apresentar um relatório sobre o seu trajeto, incluindo as horas de parada para comer e abastecer o caminhão. É tudo computado. A fiscalização nas estradas é rigorosa e você não pode infringir a lei, caso contrário será punido. Tudo deve ser relatado com precisão”, finaliza.


WaltherAlvarenga

Walther Alvarenga