A anatomia do rótulo

A anatomia do rótulo

Todos nós já ouvimos o ditado popular que diz: “Não devemos julgar um livro pela sua capa”. No mundo do vinho essa regra não é totalmente verdade. A grande maioria das decisões de compras de garrafas, a “capa” – ou no caso do vinho, o rótulo –, te dão as informações necessárias pra saber o que você encontrará dentro da garrafa. Portanto, no mundo enológico, a “capa”, deve sim ser julgada. Veja abaixo como “dissecar” os rótulos de vinhos

Foto destaque: Blend

Edição de novembro/2018 – p. 36

A anatomia do rótulo

Um dos maiores desafios enológicos é ir a uma loja e ver centenas de opções disponíveis de vinhos: brancos, tintos, espumantes, rosé, de sobremesa, etc., de todos os lugares do mundo, com uvas e micro-climas diferentes, alguns rótulos lindos, de alta qualidade, outros nem tanto, e saber, por fim, o que escolher. Por isso saber interpretar o rótulo, ajuda imensamente no processo de seleção e compra. Porém, como praticamente tudo relacionado ao vinho, esse também é um assunto complexo, mas passível de simplificação.

Comecemos pelo fato de que existem 3 tipos de rótulos: por Varietal (tipo da uva), por Região e por Nome. Cada região viticultora impõe regras sobre o que deve ser escrito no rótulo, com o objetivo de passar as informações mais precisas ao consumidor. No rótulo encontramos todas as informações básicas do que tem na garrafa, uma espécie de R.G. do vinho – qual vinícola, ano da safra, região onde foi produzido e/ou uva, denominação/classificação (appelation), porcentagem de álcool (ABV), etc.

Um detalhe que pode confundir um pouco na hora da decisão, é que existem diferenças entre leis de vinhos do Velho Mundo (Europa), e os vinhos do Novo Mundo (EUA, América do Sul, Oceania, África): os vinhos do Velho Mundo são rotulados por região, mesmo que as mesmas uvas sejam usadas, sejam elas sozinhas, ou numa combinação de uvas. Quando o rótulo vem com a região, e não pela varietal (único tipo de casta de uva), é importante que se saiba quais são as uvas usadas nos cortes dessa região. O exemplo mais clássico é o vinho de Bordeaux, na França. O corte de uvas tintas usadas em Bordeaux, será sempre de Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc, Malbec (cada vez menos usada) e Petit Verdot. No caso de Borgonha (Burgundy), eles usam o nome de região, porém uma uva apenas. Por exemplo, vinho branco de Burgundy, é sabido que é da uva Chardonnay. Em caso do tinto, é sabido que é Pinot Noir (raras vezes com parte da uva Gammay). Existem alguns produtores Europeus que parecem entender a dificuldade das pessoas leigas sobre essa rotulagem apenas por região, e por isso, têm acrescentado ao rótulo o nome das uvas usadas para fabricação do vinho.

Veja a seguir exemplos de rótulos do Velho Mundo, e como interpretar suas principais informações.

França – classificação por região (Bordeaux)

  1. Classificação do vinho (no caso acima, é o melhor vinho do produtor, indicado pela expressão “Grand Vin”)
  2. Nome do produtor/vinícola
  3. Região (Bordeaux tinto, logo deve ser subentendido que o corte é de Cabernet Sauvignon, Merlot, Carbernet Franc, Malbec, Petit Verdot)
  4. Safra (Ano que as uvas foram colhidas)
  5. Informação sobre onde o vinho foi engarrafado (neste caso, na própria vinícola)
  6. Nível de Álcool do vinho – 13% ABV (Alcohol By Volume)

Espanha – classificação por região (Rioja)

  1. Nome do produtor/vinícola
  2. Região (Rioja, logo deve ser subentendido que o corte é de Tempranillo – principal e mais usada-, Garnacha, Mazuelo e Graciano)
  3. Tempo de envelhecimento em barrica e safra, indicado pelos termos Crianza, Reserva e Gran Reserva.

Vinhos do Novo Mundo são normalmente rotulados de acordo com o Varietal, ou seja, a uva usada pra fazer aquele vinho. Vale lembrar que para ser classificado desta forma, o vinho deve conter um percentual mínimo da uva indicada no rótulo (em média 70%) – poucos vinhos são 100% produzidos a partir da mesma uva:

EUA – classificação por varietal (Cabernet Sauvignon)

  1. Nome do produtor/vinícola
  2. Safra da colheira da uva
  3. Sub-região/localização do vinhedo
  4. Tipo da uva (varietal) – neste caso, a informação indicada que o vinho foi feito com pelo menos 70% de cabernet sauvignon
  5. Região viticultora
  6. Nível de Álcool do vinho – 14.5% ABV (Alcohol By Volume)

Por fim, existe a classificação por nome quando o vinho é um Blend, ou seja, quando produzido com mistura de uvas diferentes, até mesmo de regiões diferentes, porém harmonizadas na fabricação. Nesses Rótulos, a informação aparece apenas como RED ou WHITE Blend (vinho “tinto” ou vinho “branco), sem maiores detalhes sobre as uvas que foram usadas em sua fabricação.

Nos blends de maior qualidade, as uvas usadas no vinho são listadas já no rótulo, mas normalmente, nos vinhos pro dia a dia, aparecem apenas como BLEND.

Saber o que encontrar no rótulo é um passo muito importante para quem está começando a desfrutar do mundo do vinho, descobrindo seus gostos e desgostos dentro do contexto enológico, além de ser de grande valia quando buscando algum produtor ou uva nova.

Como visto anteriormente, muita coisa é revelada na “capa” do vinho, mas vale lembrar que por se tratar de um produto vivo, que varia com as condições climáticas, com o passar do tempo, com a luz, dentre outros fatores, nenhuma garrafa será idêntica à outra, mesmo sendo do mesmo produtor, mesma safra, mesma região ou uva. E essa é uma das belezas do vinho: mesmo quando se sabe o que está escrito no rótulo, cada garrafa aberta pode vir a ser uma surpresa.

Esperamos que essas dicas os ajudem na procura da sua próxima ida às compras.

Cheers!