Por Rita Pires

CoverAtravés dos dados da reportagem de Alison Vekshin, na página do Bloomberg Politics, as autoridades estimam que o comércio de maconha no Colorado movimentará 578 milhões de dólares por ano, sendo 67 milhões em arrecadação para o Estado.

Mas até que ponto liberar a maconha fará com que o país lucre ainda que com números como o acima. Será que facilitar a atuação do departamento policial na questão do tráfico de drogas é realmente um argumento legítimo para a legalização? Nossos jovens saberão usar esta droga, sem que ela sirva de trampolim para outras drogas mais fortes, ainda que ilegais? Os dependentes do álcool ou da nicotina levam mais tempo para sofrer as consequências maléficas que os vícios oferecem, enquanto que uma overdose de drogas como a cocaína ou crack pode ser fatal na primeira experiência.

Neste momento histórico, a análise deve se basear também nos riscos que a liberação da maconha pode gerar na vida de milhares de jovens e nos prejuízos da nossa sociedade.

Para o uso da medicina, pode ser grande avanço. Como lazer, as consequências podem ser trágicas. Apesar da legalização da maconha nos Estados Unidos tornar-se uma polêmica no ponto de vista moral, em muitos estados, a legalização já é fato real. Por outro lado, observa-se uma resistência maior quando o simples porte de maconha caracteriza crime, além de ser passível de severa punição. Texas, Oklahoma, Missouri, Tennessee, Louisiana, Alabama e Flórida são alguns dos estados onde o uso da maconha não é aceito, nem enquanto recurso médico.

Os eleitores da Flórida, sudeste dos Estados Unidos, puderam decidir por votação popular a legalização da maconha para uso medicinal, segundo decisão da Suprema Corte do estado, em uma votação apertada, no dia 27 de janeiro.

‘A emenda proposta tem uma identidade ideológica e natural de propósito, que é especificamente permitir o uso restrito da maconha, em casos de doenças debilitantes’, destacou a sentença, decidida por 4 votos a 3.

A decisão representa uma vitória para o advogado John Morgan, impulsionador da campanha para a legalização da maconha para doenças catastróficas e crônicas, realizada pela organização People United for Medical Marijuana (Pessoas Unidas pelo Uso Medicinal da Maconha ou PUFMM, na sigla em inglês), com sede em Orlando (região central da Flórida).

A campanha favorável ao uso medicinal da maconha na Flórida coletou as assinaturas necessárias para ser submetida a um referendo em novembro, mas a decisão da Suprema Corte estadual era crucial para fazer a consulta.

Os defensores da medida tinham prazo até 1º de fevereiro para reunir 683.149, mas, segundo dados oficiais divulgados pela Divisão de Eleições do governo da Flórida, até a sexta-feira passada tinham sido coletadas 722.416 assinaturas.

O governador do estado, o republicano Rick Scott, assim como os legisladores locais, majoritariamente conservadores, expressaram sua oposição a esta emenda. Em outubro de 2013, pela primeira vez, em uma consulta do instituto Gallup, a maioria dos americanos (58%) se disse a favor da legalização da maconha. No início do ano, New York foi o vigésimo primeiro estado do país a liberar o uso da droga para fins medicinais. Enquanto isso, em alguns estados, lojas para venda da maconha com fins recreativos, sob licença do Estado, já abriram suas portas. Alguns estados já cultivavam a maconha para fins medicinais, mesmo com a repressão da Lei Federal. O presidente Barack Obama defende a liberação e dá apoio a legalização. Segundo matéria feita pela www.yahoo.com, a maconha já é comercializada nos EUA em forma de uma espécie de goma, do tamanho de uma bala tic tac, chamada BHO. O preço varia de 25 a 100 dólares. As propriedades da maconha, no uso medicinal, ajudam a amenizar dores em pacientes com câncer, aids, esclerose múltipla e glaucoma, segundo tese defendida por estudiosos. Para mais informações, dois médicos esclarecem os dois lados da moeda.
Segundo Dr. Dráuzio Varella, a maconha age no organismo assim que a fumaça é aspirada, caindo nos pulmões que a absorvem rapidamente. De seis a dez segundos depois, levados pela circulação, seus componentes chegam ao cérebro e agem sobre os mecanismos de transmissão do estímulo entre os neurônios, células básicas do sistema nervoso central. Os neurônios não se comunicam como os fios elétricos, encostados uns nos outros. Há um espaço livre entre eles, a sinapse, onde ocorrem a liberação e a captação de mediadores químicos. Essa transmissão de sinais regula a intensidade do estímulo nervoso: dor, prazer, angústia, tranquilidade. As drogas chamadas de psicoativas interferem na liberação desses mediadores químicos, modulam a quantidade liberada ou fazem com que eles permaneçam mais tempo na conexão entre os neurônios. Isso gera uma série de mecanismos que modificam a forma de enxergar o mundo.

Segundo Dr. Wagner Cezário, os benefícios e os malefícios da maconha são:

Os benefícios: ajuda na circulação do sangue e regula os batimentos cardíacos; pode ser usada como tratamento contra o câncer (alívio contra as dores); pode ser usada contra a desnutrição e anorexia, já que o seu consumo estimula o apetite; para as mulheres, ajuda a aliviar a TPM; ajuda a acalmar pessoas que têm síndrome de Tourette (tiques, espasmos e movimentos repentinos); pesquisas revelam que é favorável ao combate da dependência do crack e da cocaína, devido ao seu eficaz combate à ansiedade.

Os malefícios: o consumo da maconha diminui a produção de testosterona (hormônio masculino responsável pela produção de espermatozoides); durante longo uso, diminui a capacidade de memorização, além da falta de motivação para realizar tarefas; reduz a imunidade das pessoas em relação às doenças; causa taquicardia, ou seja, elevação crítica dos batimentos cardíacos; os usuários são mais vulneráveis a ter câncer de pulmão devido à fumaça produzida pelo consumo da maconha; perda de noção do tempo e do espaço; pode causar também a falta de atenção aos acontecimentos ao seu redor.

Vale ressaltar que tanto os benefícios quanto os malefícios terão efeitos de diferentes graus, dependendo tanto do organismo do indivíduo, como também da dose consumida.

Confira a opinião de alguns brasileiros:

ClaudiaFonsecaClaudia Fonseca (Mãe do Yan de 19 anos e do Felipe de 16 anos)
Em primeiro lugar, acho que a legalização da maconha será de extrema importância nas pesquisas médicas e ajudará não somente pacientes em tratamentos de drogas mais pesadas, mas também doenças crônicas, câncer, Aids e outras. Acredito também que, com a legalização, irá diminuir o número de usuários, principalmente jovens, uma vez que tudo que é proibido é muito desejado. Em segundo lugar, acredito que a legalização irá diminuir ou, com sorte, acabar com o mundo do tráfico de drogas, que, além de não gerar impostos e empregos, só faz circular drogas realmente pesadas e até mesmo letais para os nossos adolescentes e também toda população mundial. Legalização já!

GregoryNicolasGregory Nicolas (Empresário)
A questão deveria ser: “Por que a maconha ‘já’ não foi legalizada e descriminalizada mundialmente há muito tempo?”.
Os inúmeros estudos científicos não deixam dúvida de que a maconha é segura para uso recreativo, além de medicinalmente benéfica para muitos.

Os argumentos a favor são diversos, mas vou me concentrar, a meu ver, nos mais proeminentes:

  1. ninguém nunca morreu de overdose de THC, mas cerca de 40.000 morreram com outras drogas (60% dessas com prescrição médica), e cerca de 25.000 morreram de overdose com álcool, isso só no ano passado nos EUA;
  2. o número de dependentes é consideravelmente menor, somente cerca de 9% (30% dos fumantes de cigarro são dependentes);
  3.  já foi comprovado que a maconha NÃO leva ao uso de outras drogas. Esse mito já foi abolido pela comunidade científica;
  4. as cadeias americanas, sustentadas com dinheiro público, estão lotadas com simples usuários e desproporcionalmente atingem as comunidades negras e hispânicas. Mais de 17 bilhões são gastos anualmente só para prender usuários e pequenos traficantes de rua. Dos 80 bilhões gastos para manter essas prisões, 40% (32 bilhões) são somente para esse tipo de “criminoso”;
  5. é estimado que 40% da população americana já experimentaram maconha. A criminalização nunca ajudou a diminuir esses números. Só quem lucra são os traficantes e os cartéis. Eu vou continuar no meu vinho, minha “droga” de escolha, mas deixo a decisão de fumar maconha ao indivíduo.

Resumindo: “Legalize it, don’t criticize it” (Bob Marley).

RafaelPiresRaphael Pires (Estudante de Telejornalismo pela UF)
Acredito no lado positivo e negativo da liberação da maconha na Flórida. O lado positivo seria na economia do país. O governo poderia então cobrar as taxas deste produto, o setor turístico iria crescer e menos pessoas iriam para a cadeia como criminosos, por serem usuários da maconha. O lado negativo seria que a legalização poderia despertar o interesse de outras pessoas por esta droga, considerando que, uma vez usuário da maconha, o indivíduo pode se permitir a experimentar novas sensações, usando outros tipos de drogas mais fortes. Principalmente no caso dos adolescentes.

MeireSilvaMeire Silva (Professora da Olympia High School)
A legalização da maconha recebeu o apoio de 55% dos americanos entrevistados em uma pesquisa divulgada pela rede de televisão CNN e o instituto ORC. Esta é a primeira vez em décadas que a maioria dos americanos apoia a liberação da droga. Entretanto, apesar de estar cercada de pessoas que apoiam a liberação da droga, eu sou totalmente contra. Como professora de high school em uma escola de ensino público do estado da Flórida, eu me sinto responsável pelos meus alunos. Eu dou aula para alunos da faixa etária de 16 a 18 anos. Nessa fase, é muito comum o adolescente ser apresentado às drogas. Felizmente, devido à dificuldade de obtenção de drogas, o adolescente não consegue obter substâncias proibidas com facilidade. Porém, com a liberação da maconha, eu receio que menores de idade venham ter acesso a essa droga. Apesar de sua venda ser proibida para menores de 21 anos, a maconha vai circular mais livremente no mercado, tornando-a mais acessível a todos, inclusive aos menores de idade. Além disso, sabe-se que um grande número de pessoas começa com o uso da maconha e depois sente a necessidade de experimentar substâncias mais fortes. Esse é o meu receio quanto aos meus alunos. Eu não quero ter que passar pelo sofrimento de ver os meus alunos sucumbindo a drogas. Eu os quero felizes, saudáveis e puros. “What repeatedly enters your mind occupies your mind, eventually shapes your mind, and will ultimately express itself in what you do and who you become”, John Ortberg.

Rita_Cassia B Portugal2Cassia Portugal (Médica)
Uma visão pediátrica do uso da maconha: a maconha, ou “haxixe”, é uma substância que altera o estado mental, portanto, pode colocar em risco a saúde e segurança dos que a usam e/ou os que estão ao redor dos usuários. Infelizmente, os efeitos agudos não se restringem à sensação de êxtase. Aumento da demanda cardíaca associado à taquicardia é perigoso a quem tem problemas circulatórios ou está usando outros remédios/drogas (precipitar um ataque cardíaco ou AVC). Outro risco é a diminuição do sensório e capacidade de julgamento, especialmente crítico se alguém vai dirigir um veículo, ou tem acesso a armas de fogo, facas, ou está responsável pelo cuidado de outra pessoa. O uso crônico da maconha, puro ou associado com o tabaco, causa inflamação nas vias respiratórias, expressada por tosse e produção de muco. O sujeito fica mais propenso a colecionar infecções respiratórias devido ao continuado catarro. A maconha tem poder de causar hábito, especialmente se o uso se inicia na adolescência. Estudos mostram que os anos de uso são claramente associados à deterioração do QI, e isso é irreversível – mesmo depois de cessado o hábito. Esse alerta é em especial para as queridas mulheres grávidas, o uso da maconha pode afetar o QI do neném, assim como causar problemas de comportamento.

Quanto à liberação da maconha com fins medicinais: a maconha não pode ser usada para fins medicinais, exceto alguns de seus subprodutos químicos que precisam ser extraídos e preparados industrialmente. Em outras palavras, uma pessoa não pode usar a folha da planta artesanalmente com benefícios medicinais, inalando, ingerindo ou de qualquer outra maneira.
Quanto ao uso liberal da maconha para “lazer”, acredito que a substância altera o estado mental e inibe o sensório e capacidade de julgamento, aumenta o catarro e propensão a infecções respiratórias, diminui o QI, causa problemas de memória e de comportamento nos usuários e nos recém-nascidos, cujas mães usam maconha.

Concordo que, se alguém é a favor desse uso liberal, deve também arcar com todas as consequências, inclusive financeiras para a sociedade.

Felipe-Alexandre-421x500Felipe Alexandre (Advogado)
www.alexandrelaw.com
Não sou a favor de nenhum tipo de abuso de substâncias danosas. Isso pode levar a pessoa a comportamento que não somente prejudica a si mesmo, mas também a outras pessoas inocentes ao seu redor. Extremismo nenhum funciona e o consumo exagerado de qualquer substância só leva a pessoa à destruição e à miséria, por exemplo: o álcool é uma substância legalizada (mas que era ilegal durante o período conhecido como a “proibição”). Isso quer dizer que agora o cidadão tem o direito de consumir esse produto de maneira responsável. Mas isso não quer dizer que ele tem o direito de dirigir um automóvel em estado embriagado. Esse comportamento pode resultar em traumas irreparáveis, tanto para si quanto para outros inocentes.

A maconha é a mesma coisa. É uma substância que tem seus benefícios medicinais e também “recreativos”. Usado de maneira apropriada, o consumidor pode receber alívios para certas dores e também atingir certas sensações como calmantes bem conhecidos na comunidade de usuários (e completamente desconhecidas pelo autor). O consumidor deve também saber que os efeitos da maconha afeta a habilidade de fazer certas atividades corretamente, tal como dirigir um carro. Existem leis que castigam esse tipo de comportamento. Mas é importante lembrar que esse é um país livre e a consequência dessa liberdade é ter que tolerar comportamentos e expressões que nos incomodam e até nos ofendem. Pessoalmente, não gostaria de ver os membros da minha família fumando maconha no nosso próximo churrasco. Porém, também fico muito perplexo em ver as consequências que o código penal e imigratório traz aos usuários desse produto natural. Atualmente, temos um cliente na comunidade jamaicana que está enfrentando deportação por possuir, em duas ocasiões, menos de 20 gramas de maconha. Ou seja, o fato de ter possuído uma quantidade mínima de folhas (há quase vinte anos) está agora ameaçando separar esse homem honesto e super trabalhador da sua família. O castigo é muito desproporcional e a hora já chegou para que usuários dessa planta, de maneira responsável, não tenham que pagar com suas vidas por essa escolha.

DanielVanzelliDaniel Vanzelli. Surfista
Eu sou a favor da legalização da maconha, pois acredito que, dessa maneira, nós diminuiremos a criminalidade, aumentaremos a segurança dos usuários e impostos serão cobrados – como é feito com álcool e tabaco, que são drogas piores e legais.