Uma conversa com o ator brasileiro Guile Branco, que vive em Hollywood há quase 10 anos

Edição de fevreiro/13 – pág. 61

Guile Branco vive nos Estados Unidos desde 2003. Hoje, o ator brasileiro mora em Los Angeles, pertinho de Hollywood. Logo que colocou seus pés em solo norte-americano, Branco não fazia a menor ideia de como a profissão dele funcionava por lá, por isso teve que entrar no business na base das tentativas e erros. A primeira agente, Dorothy, ele conheceu em uma festa, frequentada por atores, diretores, por pessoas do meio artístico. A partir dali, de simples convidado de uma festa, Guile se tornou estagiário da agência onde ela trabalhava. O ator havia galgado o primeiro degrau rumo à carreira estadunidense. Depois os testes vieram e, hoje, Guile Branco já tem no currículo participações em diversas produções. Na conversa que teve com o Expresso, ele fala sobre o início da carreira, as dificuldades de ser um ator brasileiro lá fora e a perseverança necessária para conquistar um espaço em Hollywood.

Expresso WG: Como foi o começo de tudo, qual o processo pelo qual você teve que passar?

Branco: Quando eu me mudei para Nova Iorque, procurei por websites com testes para filmes de estudantes e pequenas produções independentes. Assim, eu ganharia experiência e conseguiria vídeo falado em inglês. E muito importante: tentei entrar em eventos nos quais agentes vão para conhecer atores, foi assim que conheci a minha primeira agente, Dorothy Palmer. Imediatamente, eu fiquei amigo dela e passei a frequentar a agência todas as semanas. No processo, aprendi como as coisas funcionam, porque, além disso, também me tornei um estagiário na agência. Infelizmente, a teoria de que aqui as pessoas são descobertas nas ruas em um curto tempo é mito. Claro que, às vezes, a sorte vem, mas, geralmente, são muitos anos de batalha para conseguir entrar no ramo, principalmente porque a importância de “networking” (conhecer pessoas do ramo que possam te ajudar) é essencial e isso leva tempo.

Expresso WG: O seu primeiro teste, como aconteceu? E como funcionam esses testes?

Branco: O meu primeiro teste, eu encontrei em um desses websites de produções pequenas, acredito que foi no Mandy.com. Lembro que me enviaram o roteiro para o teste e fiquei tão contente que pulava no ar. Peguei o trem até a locação e li as falas do personagem enquanto o diretor me gravava. Fiquei mais contente ainda quando peguei o papel. No mesmo ano, a minha agente Dorothy me enviou para um teste na Dreamworks, para o filme Guerra dos Mundos, para fazer um vizinho do personagem principal (Tom Cruise), que era para ser brasileiro. Infelizmente, não peguei o papel, mas, na minha memória, fica a emoção daquele momento. Hoje, eu sempre consigo os testes das produções grandes através dos meus dois agentes: Media Artists Group e Brogan Agency. Geralmente, eles me ligam com os detalhes; depois, me enviam o roteiro e o endereço. Muitas vezes, tenho que ir aos estúdios, como Warner Bros, Paramount, Fox… Eu tenho por volta de 24 horas para me preparar, é muito importante saber o roteiro completamente memorizado. Se fui um dos melhores, eles me chamam para o call-back que, basicamente, é uma segunda visita, mais pessoal, às vezes com os produtores e o diretor.

Expresso WG – Ser ator e conseguir bons trabalhos não é tarefa fácil. Quais os maiores impasses que você enfrentou? E o fato de ser um brasileiro nos EUA, é uma dificuldade a mais?

Branco: Em 2004, quando minha vida já estava mais organizada, fui a vários eventos nos quais você paga uma taxa e se encontra com os managers na tentativa de que eles te escolham (não confundir o manager com os chamados agentes de atores, são coisas diferentes). Managers são pessoas que, quando você as tem, elas te guiam na sua carreira e têm contatos importantes. Conseguir um bom agente é muito difícil, muitos atores conseguem agentes pegando um manager primeiro, daí ele te ajuda a conseguir um agente. Conseguir um manager é mais fácil, mas sempre digo para atores terem muito cuidado, pois eles não são governados por leis e, dependendo do contrato, podem dominar a sua vida e pagar uma porcentagem injusta do seu salário. Tive managers que me disseram que, se eu não falasse com sotaque americano, eu nunca (aqui uma ênfase do ator) iria conseguir dar certo aqui nos Estados Unidos. Gastei muito dinheiro em aulas para adquirir sotaque americano, mas isso não é fácil. Reduzi muito o meu sotaque, mas é quase impossível ter 100% de sucesso.

Expresso WG – Mas, há de ter um lado bom de ser brasileiro.

Branco: Os meus melhores papéis, eu peguei por causa do meu sotaque! Conheço muitos americanos talentosos que não conseguem agentes, eu nunca fiquei sem agentes desde 2003. Eu tive seis e todos me quiseram porque, como brasileiro, eu sou diferente, portanto interessante. O maior impasse é que a maioria dos papéis disponíveis é para latinos que falam espanhol, ou europeus. O que ajuda é que, com bom inglês, eu faço testes para papéis de europeus, como italiano, francês (Guile fala um pouco de francês também). Estudei como fazer um sotaque francês e até russo, isso me ajuda muito. Mas vejo cada vez mais papéis para brasileiros, estamos ficando mais populares, as coisas estão mudando.

Expresso WG – O que um ator brasileiro, que pensa em construir uma carreira nos Estados Unidos hoje, precisa ter? Qual dica você daria?

Branco: Determinação. 99% das pessoas que vêm para cá, para se tornar atores, voltam para o país de origem em 2 anos. O que será muito importante é conseguir um visto de trabalho para que você possa trabalhar tempo parcial, para sobreviver enquanto você luta para atingir seu objetivo. As chances de vir e conseguir alguma coisa em tempo curto são muito raras. O ator precisa de tempo para fazer conexões importantes e dinheiro para pagar aluguel, comer, se locomover. No início, ajuda fazer trabalhos, como figurante, para observar e aprender como as filmagens acontecem e conhecer pessoas. Em 2003, fiz uma figuração na qual conheci, e fiquei amigo, um técnico de efeitos especiais que, mais tarde, tornou-se técnico de um filme que ganhou o Oscar, ele trabalha nos maiores shows aqui. Falo isso, porque já encontrei atores que falam que nunca vão fazer figuração, pois estão acima disso. A atitude de vir para cá e se tornar ator significa que você está começando do zero, mesmo que já seja ator no Brasil, como eu fui. Faça filmes de estudantes e produções independentes, porque você vai conseguir créditos e vídeos em inglês, mostrando seu talento. E lembre-se: não existem fórmulas em Hollywood.

Expresso WG – Pretende voltar para o Brasil?

Branco: Não pretendo voltar a morar, mas visito o Brasil pelo menos uma vez por ano. Eu me tornei um cidadão americano (em 2011), portanto tenho a minha vida toda estruturada aqui. Para o futuro, eu gostaria muito de trabalhar como ator no Brasil, fazer filmes ou novelas. Mas voltar para cá e continuar conquistando Hollywood.