Presidência da república e ambientes empresariais. Alguma relação?

Presidência da república e ambientes empresariais. Alguma relação?

Edição de outubro/2018 – p. 20

Presidência da república e ambientes empresariais. Alguma relação?

Os brasileiros vivem um momento sensível no que diz respeito ao fator “decidir a escolha do próximo presidente do país”. Vamos explorar o tema neste artigo com um ponto de vista mais amplo, fazendo uma breve analogia com ambientes empresariais, sem propósito de apoio a um determinado candidato ou outro, mas sim com objetivo de convidar a reflexão sobre o processo que adotamos para analisar candidatos políticos e como resultado, determinar o nosso voto.

Liderar um país é o mesmo que liderar uma grande empresa? Obviamente que não. Há diversas diferenças, não somente de atividades como de proporção e importância. Mas certamente há algumas exigências e características desejáveis nas duas listas de pré-requisitos, tanto para se contratar um gestor de uma empresa, quanto para se eleger o presidente de uma nação. Essa similaridade nos permite fazer algumas analogias.

Ambos devem ter:

  • Uma visão ampla do negócio com perfil de liderança para atender interesses diversos,
  • Ambos os cargos devem ser ocupados por pessoas com conhecimento em determinados processos e assuntos relativos ao negócio,
  • Devem atender normas determinadas para os seus cargos,
  • Ter comportamento compatível com o perfil esperado para um líder na sua posição,
  • Ambos devem convencer outras pessoas sobre a possibilidade de estarem ocupando tal posição, para isso podem utilizar quaisquer de suas habilidades, incluindo não somente seus conhecimentos técnicos, como também o seu histórico profissional na área e até mesmo o seu próprio carisma.
  • E diversas outras que não vamos citar agora.

Isso significa que quem não conhece o trabalho de um gestor de uma empresa terá mais dificuldades em votar no melhor candidato? Claro que não. Não há limitações que impeçam o eleitor de buscar conteúdo de forma que consiga votar de maneira fundamentada, exercendo seu papel de cidadão. Quando este consegue conciliar informações procedentes com os seus valores pessoais, certamente sua análise tem maiores chances de ser mais completa, mais sensata, mesmo que ainda baseada nas suas crenças e conhecimentos adquiridos ao longo da vida. Certamente existirão maiores possibilidades deste candidato construir um fundamento concreto para o seu voto e então o voto passa a ser o resultado de um estudo.

O problema maior mora na falta de interesse em absorver conhecimento. É o risco que corre aquele eleitor que não reconhece a necessidade de procurar informações, de selecionar as suas fontes de leitura, de compreender que há veículos de comunicação que podem produzir conteúdo em apoio aos seus próprios partidos. É preciso dedicar certo tempo para isso, utilizar fontes diferentes e cruzar dados, estudar de verdade! Assim aumentando as chances de acerto nessas análises. Quando isso não ocorre acaba-se considerando somente os valores emocionais, dados isolados e influências do grupo de relacionamento para se determinar o nome do candidato. Em alguns casos os interesses individuais predominam em detrimento as necessidades coletivas. Para aqueles que não gostam do exercício da análise imparcial, seja pela preguiça de buscar informações ou mesmo pelo orgulho e necessidade de reafirmar o nome do seu candidato publicamente, estes podem acabar tornando seu campo de leitura limitado, se precipitando na decisão. Uma vez que se consideram prontos e suficientemente embasados por suas teorias, não se permitem espaço para conhecer de fato. Surge então a sensação de conforto por ter uma posição política, mesmo que seja infundamentada.

Quando menciono “consciência sobre os interesses dos veículos de comunicação, assim como suas afinidades partidárias”, quero dizer que, podemos sem problema algum ler conteúdo produzido em apoio a um determinado partido, desde que estejamos plenamente conscientes dessas preferências, pois isso fará com que esse conteúdo seja compreendido como “um ponto de vista partidário” e não um dado ou fato.

Voltando a analogia da posição do presidente com o gestor empresarial, devemos compreender que independentemente do setor de mercado, a principal meta de qualquer empresa é garantir o seu resultado financeiro, o que não ocorre diferente em uma nação, que deve ter o controle adequado do dinheiro público para conseguir realizar todas as mudanças que são prometidas durante uma campanha política.

Portanto, a análise do eleitor sobre o grau de competência de um futuro presidente, assim como a análise do histórico da equipe que ficará encarregada de apoiá-lo, deve ter um peso fundamental dentre os critérios de avaliação neste estudo realizado pelo eleitor. Os diretores-gerais das empresas precisam ter uma boa equipe, incluindo seu gerente financeiro, gerente comercial, gerente de RH, dentre outros para atingir seus resultados. A equipe do presidente de um país também deve ter o seu histórico e carreira analisados pelos eleitores para que avaliem se estão habilitados a exercerem seus cargos.

Não existirão promessas realizadas sem que haja uma forte gestão financeira por parte de toda a equipe, não somente do presidente.

Há uma fala de Margareth Thatcher que apesar de ter sido dita há bastante tempo atrás, podemos dizer que é atemporal, em que ela fala um pouco sobre a enorme importância do controle financeiro para alguém que está à frente de um governo. Thatcher faz analogia com a gestão de empresas e até ambientes domésticos:

“O estado não tem outra fonte de recursos além do dinheiro que as pessoas ganham por si próprias, se o estado deseja gastar mais ele só pode fazê-lo tomando emprestado sua poupança ou te fazendo pagar mais tributos, portanto, não existe dinheiro público, existe apenas o dinheiro dos pagadores de impostos. Proteger a carteira do cidadão e proteger os serviços públicos devem ser as principais tarefas de um governante e ambas devem ser conciliadas. Seria muito prazeroso se todos nós pudéssemos escolher gastar mais em uma ou em outra coisa, pois todos temos nossas causas favoritas, eu sei que tenho as minhas! Mas alguém tem que fazer as contas, assim como em toda empresa, assim como toda dona de casa, assim como todo governo”.

Enfim, os números precisam ser “bem gerenciados”. Mas devo lembrar que antes disso, “bem gerenciáveis”. E é aí que entramos infelizmente no problema mais sério que o Brasil precisa superar. Há números gerenciáveis? Se não, por quê?

Certa vez eu assistia uma palestra de um renomado economista inglês, ele fazia uma análise das economias locais de vários países. No telão ele tinha o desenho de um mapa e ia passando por cada uma das regiões do globo enquanto discursava de forma bem técnica o cenário dessas áreas. Como notei que se tratava de um ótimo profissional, eu esperava ansiosamente por ele chegar no momento de analisar o Brasil, queria saber o que ele tinha a falar sobre o meu país. Mas para minha tristeza, nunca me esquecerei aquele dia, quando ele pediu que levantassem as mãos os participantes que ali estavam vindos da América do Sul. Eu e muitos outros levantamos as mãos e ele então fez sua conclusão: “Pedi para levantarem as mãos, pois gostaria de fazer um pedido de desculpas especialmente a vocês, infelizmente não tenho condições de fazer análises com os números dos países da América do Sul, uma vez que são regiões com grande presença de corrupção e não nos trazem números confiáveis, não devo analisar um dado que não é real, não seria justo com vocês”. Assim ele encerrou a sua apresentação.

Ou seja, sequer é possível afirmar se um número é positivo ou negativo, uma vez que ele não é verdadeiro. O fator corrupção impede qualquer análise de resultados financeiros. Ele é a primeira interferência a ser eliminada por qualquer gestor, em qualquer empresa, em qualquer governo. Após termos números “gerenciáveis”, ou melhor, “confiáveis”, podemos então iniciar um bom trabalho de gestão financeira. Em um cenário de corrupção as ações do gestor ou presidente, devem ter sua “ordem de possibilidades”, antes mesmo de dizer sua “ordem de prioridade”, pois aquilo que ainda não é possível, primeiramente precisa se tornar, para depois entrar em uma lista de prioridade. Não há fantasias, nem contos de fadas para eleitores adultos e que conseguem ler, ouvir, assimilar, criticar e então votar.

O bom eleitor deve ter a consciência da grandeza do sistema público que rege o funcionamento da nação, somos uma gigantesca empresa, devemos conhecer a necessidade de se tomar macro ações para somente então serem possíveis outras de menor proporção, nem por isso essas serão menos importantes. O cenário requer responsabilidade. Há temas que só serão atendidos pelo governo, por mais bem-intencionado que seja este governante, depois que solucionadas questões condicionantes. A lista de prioridades de ordem pública certamente será tratada com apoio de uma base administrativa estruturada, daí a necessidade do eleitor se abster de posicionamentos individuais, adotando uma postura racional e visão ampla das necessidades para definir o seu voto.

O estudo da vida e histórico profissional dos candidatos políticos como pré-requisito para gerar o voto deveria ser considerado por nós mesmos uma obrigação, pois como exemplo de outros países, uma população consciente pode realmente transformar a sua pátria.