Padre Fábio de Melo: “estou amparado por mãos humanas, as mãos de Deus”

Padre Fábio de Melo: “estou amparado por mãos humanas, as mãos de Deus”

Espiritualizado e determinado nas respostas, Padre Fábio de Melo fala de música, do novo livro, “Crer ou não Crer”, e dos desafios para lidar com a Síndrome do Pânico. O Nossa Gente esteve com o religioso em Orlando

Edição de novembro/2017 – pág. 05 e 06

Padre Fábio de Melo: “estou amparado por mãos humanas, as mãos de Deus”

Meia hora antes do show, realizado dia 13 de novembro, no “Holy Land Experience”, em Orlando, o Padre Fábio de Melo concedeu entrevista, falando da trajetória musical e do carinho do público – que ele não considera assédio. Perspicaz nas respostas, ele opina sobre intolerância religiosa, aponta o abuso de poder e a conduta de líderes religiosos mediante a fragilidade de fiéis. “E quando eu vejo que tudo está nas mãos de religiosos, que incitam o ódio em vez de incitar solidariedade com aquele que errou, e que foi pego em fragilidade, eu sinto que nós regredimos muito”, questiona.

Sem hesitar, Fábio de Melo resgata um dos momentos cruciantes que viveu no Brasil, com a Síndrome do Pânico, e admite que não está curado, mas fala do trabalhar de Deus através das pessoas, o que tem lhe ajudado a lidar com a doença. “E eu não vejo diferença entre o vínculo emocional e a minha fé em Deus. Eu acredito que Deus se manifesta na minha história através das pessoas que cuidam de mim. Não vejo diferença entre a ação de Deus e a ação humana”.

Abordando sobre o início da carreira musical, em 1995, Padre Fábio de Melo disse que a primeira gravação profissional aconteceu através do convite que recebeu do Padre Joãozinho para uma participação no CD da “Associação Senhor Jesus”, que marcou o começo da Rede Vida de Televisão – emissora católica com transmissão nacional. “O CD intitula-se ‘Adoremos’, e quando fui para o estúdio gravar, não tinha a intenção de ser cantor, embora o CD fosse uma reunião de novos autores”, lembra.

“A Rede Vida ainda não tinha uma programação na ocasião, e sempre tocava o nosso CD porque era uma parceria da emissora com ‘Associação Senhor Jesus’. Com isso, a minha música passou a ser muito cantada, durante um ano, mais ninguém sabia quem eu era. A minha música ficou muito conhecida, mas o meu rosto não. E por ser uma música litúrgica, era cantada nas igrejas. Eu era seminarista, o autor da música e intérprete”, conta. “Eu considero que foi o meu primeiro trabalho de penetração na igreja no Brasil, no ano de noventa e cinco”.

Quanto à intolerância, a discordância nas questões religiosas, os preconceitos, e a publicação recente de seu livro, “Crer ou Não Crer”, com o historiador ateu, Leandro Karnal, Padre Fábio de Melo foi enfático: “hoje o nosso desafio nem é religioso. Ingenuamente dizemos que falta Deus no mundo, mas o que falta é o que deveríamos ter aprendido como homens e mulheres, algo humano, que nos coloca na frente do outro, diferente de nós, mas de forma respeitosa. E não importa suas convicções, a sua condição não é diferente de nós, somos todos humanos”.

Padre Fábio de Melo: “estou amparado por mãos humanas, as mãos de Deus”

“Eu tenho muito medo do discurso religioso, que esquece essa humanidade. Algo que faz questão de salientar aquilo que nos diferencia, enquanto condições, enquanto práticas rituais, e esquece de colocar que nós todos necessitamos das mesmas coisas. O meu encontro com o Karnal (Leandro) veio no momento muito desafiador para nós no Brasil, onde temos uma crescente religiosidade, que não significa uma crescente espiritualidade”, aponta o padre.

“E nem toda pessoa religiosa é espiritualizada, ao passo que nem toda pessoa espiritualizada é religiosa. A espiritualidade é o valor que vamos alcançando enquanto pessoa, seja pelo caminho da fé ou pelos caminhos do humanismo, que nos dão sustento. Isso nos dá condições de viver a nossa humanidade, sem considerar o outro como nosso inimigo, nosso opositor. E às vezes, em nome de Deus, nós temos ressuscitado os nossos instintos tribais, com todo respeito às tribos. Mas aquilo que há de mais ancestral em nós, que é justamente a necessidade de destruir o outro, porque nesse outro encontramos as diferenças”.

“E hoje toda espécie de intolerância, pode-se observar, tem como pano de fundo, discursos religiosos. Isso seria contraditório porque se religião é esse exercício humano – não podemos retirar a dimensão humana das religiões -, por mais que nós acreditamos que seja inspiração divina, aquilo que nós compreendemos das religiões é humano. São organizações humanas, temos líderes humanos, e quando nós percebemos que a instrumentalização do discurso religioso está para nos separar como pessoas, aí existe um acidente de caminho que precisamos corrigir”.

“Ao longo da minha vida eu aprendi que nós temos o direito de crer diferente. E não há nenhum problema se numa mesma rua temos várias igrejas, diferentes denominações religiosas. Mas seria interessante se nesta mesma rua, de várias igrejas e de diferentes denominações, tivéssemos um único restaurante. E depois que nós rezássemos, que ritualizássemos de forma diversificada, nos reuníssemos para matar a mesma fome. Nós somos tão iguais”, sorri. “E se todos tivessem acesso aos bastidores da humanidade, como eu tenho, das confissões que eu ouço, chegariam à conclusão de que não faz sentido o nosso preconceito. A cada dia alguém é crucificado na Internet, como forma de burgar as vergonhas particulares que carregamos dentro de nós”, alerta.

“E quando eu vejo que tudo isso está nas mãos de religiosos, que incitam o ódio em vez de incitar solidariedade com aquele que errou, que foi pego em fragilidade, eu sinto que nós regredimos muito. Eu, particularmente, como estudioso do Cristianismo, professor universitário, formando em Teologia, trabalhei como professor numa universidade católica durante muitos anos, conhecendo o Cristianismo como tive a oportunidade de conhecer, digo que não há nenhuma passagem no Evangelho que me autorize a ser melhor que alguém”, explica Fábio de Melo.

“Não estou fazendo uma crítica a outros discursos, mas me compete, como líder religioso cristão, dizer do âmbito que me cabe. Tenho muito receio desse Cristianismo vaidoso, que me faz olhar para o outro como um decrépito espiritual, como alguém que vive em vergonha que eu repudio. É um Cristianismo caricato, a serviço de um poder econômico, de igrejas que não estão interessadas no crescimento espiritual de seus fiéis, mas na manutenção de suas contas”.

Assédio

“Vi uma senhora aconselhando a neta a dar em cima de mim”

Quanto ao assédio de fãs e admiradoras, que o tornaram uma espécie de “pop star” da igreja, de como lidar com a situação, Padre Fábio de Melo disse que, “Eu geralmente não tenho esse assédio que as pessoas acham que existe. Ele pode ser até virtual porque como optei por ser eu mesmo nas redes sociais, eu, particularmente, levo a vida com muita leveza e humor”, diz.

“Agora mesmo eu vi uma senhora, com seus noventa anos, aconselhando a neta a dar em cima de mim (risos). Eu não me senti ofendido com aquela senhora, mas achei no mínimo interessante. A garota olhou para mim e disse que me achava bonito, mas que achava absurdo a avó incentivá-la a dar em cima de mim. Esse assédio não é verdadeiro, não é uma realidade na minha vida, ele é mais virtual, de alguém que se encoraja falar coisas. O meu trabalho hoje no Brasil me aproximou das pessoas, por falar uma linguagem que elas entendem. As pessoas têm muito carinho por mim, não vejo isso como assédio”, complementa.

Síndrome do Pânico

“Hoje eu trabalho o pânico, todo dia, a cada momento..”

Sobre a Síndrome do Pânico, doença que trouxe problema seríssimo na vida pessoal e carreira do Padre Fábio de Melo, ele não hesitou em responder quando perguntado: “Eu não me considero curado, ainda estou administrando um desconforto que me ocorre quando eu menos imagino. Eu não sei exatamente dizer o que tem me sustentado. Não, sei (faz pequena pausa). Não sei se foi o medicamento que deu certo, inclusive, confesso que não estou mais fazendo uso. Eu estava me sentindo uma pessoa que não era eu”.

“Hoje eu trabalho o pânico, todo dia, a cada momento, cercando-me de pessoas que me dão segurança. Acho que o vínculo emocional é importante demais para darmos conta desses momentos. E eu não vejo diferença entre esse vínculo emocional e a minha fé em Deus. Eu acredito que Deus se manifesta na minha história através das pessoas que cuidam de mim. Não vejo diferença entre a ação de Deus e a ação humana. Quando estou com um ser humano, que me provoca coisas boas, eu sei que estou diante de uma manifestação divina, porque aquela pessoa não seria capaz de produzir sozinha o que me oferece, é o fruto de Deus”.

“Hoje saio de casa amparado por uma equipe que me ama muito, são profissionais que trabalham comigo há vários anos. É essa gente que me dá força, que me faz prosseguir. Confesso que foi uma das piores experiências que vivi, um desconforto emocional terrível. Hoje a minha relação com uma pessoa que diz ter síndrome do pânico é muito mais respeitosa. É assim que estou vencendo, amparado por mãos humanas, que representam as mãos de Deus”.

Serviço

Fabio de Mello e Banda

Local: Show na Holy Land Experience – Church ao all Nations Auditorium

Produção: SL Produtions (Sand Lira) e Dyzanna

Patrocinio: Cleidiv Meals, Camila’s Restaurant, WOW Signs & Printing,

Revista Suncoast, PieFection Brazilian Pizza, Intteli Group Vacation Homes, Lake Lucerne Dentistry, Tony’s Restaurant e Deeper