O Valor do Vinho

O Valor do Vinho

Como Sommeliers, nós estamos sempre recomendando vinhos: seja para clientes que precisam de assessoria profissional na hora da compra, seja para amigos que querem uma garrafa para beber num jantar em casa com a família. E o grande desafio não é conhecer rótulos variados ou onde encontrá-los: o desafio é entender o valor do vinho. E o valor tem muito pouco a ver com o preço…

Edição de setembro/2017 – pág.34

Há uns anos, enquanto trabalhando numa loja especializada em vinhos, era sempre interessante observar vários clientes que chegavam com listas pontuadas e premiadas, da Wine Spectator, Enthusiast, Advocate dentre outras, e querendo adquirir os top 5 ou top 10 daquelas listas. Mais interessante ainda era observar os saltos olímpicos dos preços dessas garrafas, que se tornavam cada vez mais raras – e mais caras. A lição aprendida (e reforçada ao longo do tempo) foi clara: nem sempre o preço do vinho corresponde ao valor do vinho.

Claro, em se tratando do aspecto financeiro, vinho é mais um produto que se encaixa perfeitamente na lei do capitalismo. Porém, trata-se de um bem que se enquadra tanto e tão homogeneamente, que o efeito é global, e o mercado treme com a expectativa das safras de certos produtores. Hoje em dia, muitas delas nem chegam ao mercado “comum”: leiloeiros compram safras completas, e elas nunca vão as lojas: tornam-se “prêmios” de colecionadores e/ou investidores.

Tais vinhos são normalmente os mesmos: condecorados e renomados mundialmente, são raras as vezes que uma “novidade” chega ao topo. E isso não quer dizer que produtores novos não tenham chance, ou que seus vinhos não sejam de boa qualidade, mas a tradição (e inegável excelência) falam mais alto. E claro, o marketing.

Na nossa opinião, parte do romance, parte da “graça”, morre aí. Quando o vinho, essa coisa viva, dinâmica, única, vira apenas mais um papel na bolsa de valores, um troféu na prateleira de menos de 1% dos consumidores do mundo, ele não cumpre sua função de encantar e trazer o prazer e alegria que só um bom vinho traz. Porque convenhamos: quantas pessoas têm $15,000USD disponíveis para comprar uma (01) garrafinha de Romanee-Conti? E outra: quão apurado é seu palato e quão profundo é seu conhecimento, para saber diferenciar entre um Burgundy clássico de 15 mil dólares e um Pinot Noir da Nova Zelândia de 40 dólares?

Sabemos que a exclusividade acaba inflacionando preços, e com vinho não é diferente: muitos produtores renomados têm um “yield” bem limitado, ou seja, poucos vinhedos e menor volume de boa matéria-prima. Isso faz com que menos vinhos possam ser produzidos, logo, menos disponibilidade de produtos pra vender. Isso tudo eleva seu valor (e nesse caso, também valor financeiro). Não queremos entrar muito nos pormenores econômicos, mas obviamente essa é uma parte do processo que faz com que o custo aumente e, consequentemente, o preço final também acaba sendo mais alto. E como dissemos acima, quanto mais exclusivo e raro, mais caro o vinho tende a ser.

Além disso, safras passadas não podem ser reproduzidas, tornando certas garrafas joias raras de se encontrar, quase míticas. Mas diferente de uma obra de arte que pode ser apreciada num museu, e ter seu “valor” reconhecido por todos, os vinhos “de arte” estão trancados a sete chaves em adegas-cofre, na maioria na Ásia e Oriente Médio, tornando-os um sinal de poder e ostentação, deixando muitas vezes de lado o “valor” real da bebida. Além de tudo, e como bem reportado no filme “Sour Grapes”, isso cria oportunidade para criminosos (sim, existem pessoas que cometem crimes no meio enológico, principalmente falsificadores).

Vários estudos feitos com degustações às cegas, concluíram que normalmente vinhos com preços mais altos são mais apreciados por entusiastas do que não-entusiastas. Por entusiastas os analistas classificam as pessoas que gostam de tomar vinho e tem um mínimo conhecimento técnico. Mas isso não quer dizer que quem não tem conhecimento técnico não deve comprar vinho caro ou não ira apreciar um vinho caro. Porém, é preferível você entender o “valor” do vinho, e fazer suas escolhas a partir disso, do que se deixar levar pelo preço ou apelo comercial dele.

Como se pode ver no gráfico acima, o consumo de vinho subiu em economias emergentes como o Brasil, e significativamente na China, com um crescimento de 33.17 (milhões de caixas de 12 garrafas) em 2017 – a China sozinha importou mais de 700 milhões de dólares em vinhos apenas da França.
Como se pode ver no gráfico acima, o consumo de vinho subiu em economias emergentes como o Brasil, e significativamente na China, com um crescimento de 33.17 (milhões de caixas de 12 garrafas) em 2017 – a China sozinha importou mais de 700 milhões de dólares em vinhos apenas da França.

Não estamos desmerecendo a qualidade de vinhos caros, ou promovendo que todos queimem as listas de top 10 de revistas especializadas – as chances são que os vinhos ali enumerados serão de fato excepcionais. Mas o que aprendemos é que o valor do vinho reside na sua capacidade de provocar sensações, seja pela experiência gastronômica em si, seja pelas boas memórias associadas ao momento do consumo, ou por qualquer outro efeito positivo que ele possa trazer. Afinal, quanto você pagaria para tomar no seu aniversário de 80 anos uma taça do primeiro vinho que você experimentou na vida? Ou brindar as bodas de ouro com o mesmo champagne do dia do seu casamento? Independente de lembrar ou não dos rótulos, o valor associado a tais garrafas é único e pessoal – e para isso, não há indexação que compare.

Por isso, não deixe que sua jornada enológica seja definida pelo preço dos vinhos: é certo que muitos vinhos excelentes são caros, mas isso não implica necessariamente no valor que ele terá para você.

Cheers!