O credor incompassivo

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MAR/13 – pág. 50

No Evangelho de Mateus, cap. 18 – versículos de 23 a 35, encontramos a parábola do credor incompassivo. “O reino dos céus – disse Jesus – é comparado a um rei que resolveu ajustar contas com os seus servos. Ao fazê-lo, apresentou-se-lhe um que lhe devia dez mil talentos; mas, como não tivesse com que pagar, ordenou o seu senhor que vendessem a ele, a sua mulher, a seus filhos, e tudo o que tinha, para ficar quite da dívida. O servo, porém, lançando-se-lhe aos pés, suplicou-lhe: Tem paciência comigo, que tudo te pagarei. Então o senhor, compadecido daquele servo, deixou-o ir livre, e perdoou-lhe a dívida. Tendo saído o tal servo, encontrou um de seus companheiros, que lhe devia cem denários, e, agarrando-o, sufocava-o, dizendo: Paga o que me deves. O companheiro, lançando-se-lhe aos pés, implorou: Tem paciência comigo, que tudo te pagarei. Ele, porém, não o atendeu. Retirou-se e fez que o metessem na cadeia, até pagar a dívida. Vendo, pois, os outros servos, o que se tinha passado, ficaram muito tristes e foram contar ao senhor tudo o que havia acontecido. Então, o senhor chamou-o à sua presença e disse-lhe: Servo malvado, eu te perdoei toda aquela dívida, porque me vieste rogar para isso. Não devias tu também ter compaixão de teu companheiro, como eu tive de ti? E, indignando-se o seu senhor o entregou aos verdugos, até que pagasse tudo quanto lhe devia. Assim também meu Pai celestial vos fará, se cada um de vós, no íntimo do coração, não perdoar a seu irmão”.

Todos sabemos que é muito importante perdoar. Não guardar mágoa, rancor em nosso íntimo, pois isto nos prejudica profundamente. Entretanto, ainda são poucas as pessoas que procuram observar esse ensino de Jesus. O fato de o Mestre ter incluído o perdão na prece – Pai Nosso – que ensinou aos apóstolos, evidencia a necessidade dessa atitude. Interpelado por Pedro, se devia perdoar sete vezes, respondeu que não até sete, mas setenta vezes sete, ou seja, perdoar todas as vezes em que formos ofendidos. Pedro cortou a orelha do servo do sumo sacerdote no Getsemani. E Jesus recomendou ao apóstolo: “Embainha a tua espada, porque quem mata pela espada, pela espada perecerá”. Aqui temos o ensinamento não só do perdão, mas também da lei de causa e efeito. Nossos atos produzem sempre efeitos correspondentes. Se somos livres para agir, somos compelidos a colher os frutos do que plantamos. Quem perdoa sinceramente, esquece o mal recebido, e, se tiver oportunidade, ajuda o ofensor, às vezes sem que ele o saiba. Não convém adotar um perdão formal, aparente, socialmente hipócrita. Essa atitude comportamental nenhum benefício produz e seu autor, além de conservar a mágoa, acrescenta a falsidade, a hipocrisia às suas imperfeições morais. O perdão sincero traz muitos benefícios: A partir do momento em que se perdoa, a consciência tranqüiliza-se; produz-se a descontinuidade do mal; corta-se a sintonia com entidades infelizes, desequilibradas, encarnadas ou desencarnadas, que vibram nessa faixa da animosidade. Daí por que os instrutores espirituais esclarecem que o perdão é ótimo remédio para a cura da obsessão.

Amar o ofensor não é fácil, mas perdoar-lhe a ofensa, compreendendo-lhe a ignorância e a desventura (e não a maldade) é menos difícil.

Voltando à parábola citada de início, observamos que nossa conduta ainda muito se assemelha à do credor incompassivo, Reconhecemos nossas imperfeições, não negamos nossas dívidas perante Deus, mas, ao mesmo tempo em que suplicamos e esperamos ser perdoados de todas as nossas faltas, agimos com relação ao nosso próximo de forma oposta, recusando-nos a desculpar e a tolerar suas falhas, por pequenas que sejam.

Observamos, ainda, que “o rei, posto a par do que havia acontecido com o segundo servo, mandou vir o primeiro a sua presença e, em nova disposição, após verberar-lhe a falta de comiseração para com o seu companheiro, determinou aos verdugos que o prendessem e o fizessem trabalhar à força até que pagasse tudo o que lhe devia. Este detalhe é muito importante. Revela claramente que há sempre um limite no pagamento das dívidas. Estas podem, algumas vezes, ser realmente muito vultosas, mas, uma vez pago esse montante, o devedor fica com direito a quitação. Restabelecido o equilíbrio na balança da Justiça Divina, ninguém pode ser coagido a ficar pagando eternamente aquilo de que já se quitou”. (1)

(1) – Parábolas Evangélicas – Rodolfo Calligares